No início de 2026, a empresa apareceu com frequência nas recomendações de bancos e analistas para dividendos. A dúvida surgiu: como uma empresa de shoppings pode superar as tradicionais pagadoras da B3?
Para entender se é oportunidade ou marketing, conversei com Daniella Guanabara, CFO e diretora de RI da Allos. Os detalhes, a seguir.
Mais do que um shopping
Para que o investidor entenda por que a companhia se define como algo além de uma empresa de shoppings, é preciso olhar como a Allos ganha dinheiro e onde enxerga crescimento. Com apoio do analista Carlos Herrera, da Condor Insider, levantei as cinco principais fontes de receita. A principal é o aluguel dos lojistas, com parcelas fixas e variáveis atreladas às vendas. A empresa também lucra com estacionamentos e com a administração de empreendimentos de terceiros.
Na estratégia de diversificação, dois pilares se destacam: mídia e projetos multiuso. A plataforma Hello vende espaços publicitários em shoppings, aeroportos e prédios residenciais. Já os multiuso combinam torres residenciais e comerciais no entorno dos shoppings.
Segundo a CFO, embora a mídia represente hoje cerca de 8% da receita, a Hello é um dos xodós da gestão. A plataforma está presente em 110 shoppings, 5 mil edifícios residenciais e 17 aeroportos. “Ao colocar propaganda no aeroporto, é possível atrair o turista para o shopping. Já nos shoppings, a mídia fortalece a fidelidade do consumidor”, afirma.
Com esses dados, a empresa ajusta o mix de lojas e direciona melhor a audiência. Não por acaso, a Hello cresce mais de 20% por trimestre.
Os projetos multiuso também têm peso relevante. A Allos costuma ceder parte de seus terrenos a construtoras em troca de participação nas vendas. O maior ganho, porém, é indireto: novos clientes recorrentes. “Quem vai ao shopping uma vez por mês passa a ir uma vez por semana”, diz a executiva. Hoje, a empresa soma 68 torres nesse modelo, em oito estados, o que deve adicionar cerca de 30 mil pessoas à área primária dos shoppings, sem exigir investimentos pesados.
Investimentos
Apesar de ter ampliado sua participação de mercado para 20%, a Allos reduziu seu portfólio de 73 para 45 shoppings desde a fusão entre Aliansce Sonae e BR Malls, em 2023.
A explicação, segundo a CFO, é simples: foco em ativos dominantes e estratégicos, com a venda de shoppings menores. Os 13 desinvestimentos renderam cerca de R$ 2,5 bilhões, usados principalmente para pagar dividendos.
Mesmo com a perspectiva de queda dos juros, vender mais ativos ou investir pesado não é prioridade. “Só fazemos novos desinvestimentos ao preço correto e com disciplina de capital”, afirma.
No capex, destinado a investimentos, a empresa trabalha com R$ 350 a R$ 450 milhões, sem planos de expansão agressiva em 2026. A preferência é por projetos pequenos, rápidos e com inauguração e retorno acelerado.
Disciplina financeira
Mesmo com o capex contido, a CFO diz que a empresa pode acelerar investimentos quando os juros caírem. Ainda assim, a prioridade segue sendo manter a alavancagem em 2 vezes a dívida líquida sobre o ebitda, base para sustentar dividendos fortes sem comprometer o crescimento.
Hoje, a dívida está em 1,7 vez o ebitda, abaixo da meta. O limite dos convenants financeiros, cláusulas de proteção aos credores, é de 3,5 vezes, patamar que poderia pressionar os dividendos e que, segundo a executiva, está distante.
A Allos também alongou a dívida para prazos entre 7 e 10 anos, evitando concentrações em 2026 e 2027, anos mais voláteis por causa do ciclo político. A estratégia reforça a disciplina financeira. O custo atual da dívida é de CDI mais 0,7%. “A alavancagem equilibrada abre espaço para crescer e manter a remuneração do acionista robusta”, resume.
Futura vaca leiteira
A política de dividendos da Allos chama atenção. A empresa paga mensalmente entre R$ 0,28 e R$ 0,30 por ação, mas sem política formal. O compromisso é revisto ano a ano, conforme o cenário macro brasileiro, marcado por volatilidade e imprevisibilidade, segundo a CFO. No estatuto, a regra é distribuir ao menos 50% do fluxo de caixa das operações (FFO), uma espécie de lucro dos shoppings.
A meta para os próximos três a cinco anos é manter a remuneração elevada e mensal, consolidando a empresa como boa pagadora da bolsa. A Allos não curte o termo “vaca leiteira”, mas o apelido segue fazendo sentido. Está na hora de aceitar.
Com endividamento controlado, a gestão vê esse patamar como sustentável. “Queremos ser reconhecidos como uma pagadora forte, com disciplina de capital”, afirma.
O dividend yield pode chegar a 12% em um ano fraco para a bolsa. No setor, há empresas que não entregam nem 4%. A companhia também segue ganhando participação, acima de 20%, mesmo com juros altos. Para 2026, dividendos extraordinários estão fora do radar. Recursos extras de desinvestimentos servirão para sustentar o pagamento mensal.
Nos shoppings, o cenário é confortável: 96,5% de ocupação, fila de varejistas interessados e inadimplência líquida de apenas 0,9%.
Um FII?
Com pagamentos mensais e dividend yield perto de 12%, muitos analistas enxergam a Allos como um “FII da bolsa”. A CFO não nega, mas diz que a empresa é mais “sexy” do que um fundo imobiliário: além de dividendos, oferece potencial de valorização, algo raro nos FIIs.
Segundo a executiva, novas frentes como a Hello, fidelidade e projetos multiuso ainda devem impulsionar o retorno em proventos no longo prazo. Outro diferencial é a liquidez. As ações negociam entre R$ 120 milhões e R$ 130 milhões por dia, bem acima do padrão dos fundos imobiliários. O salto veio após o anúncio dos proventos mensais em 2024 e ganhou força com a decisão de triplicar o dividendo em 2025.
“Entramos no Índice de Dividendos da B3 e atraímos fundos locais e estrangeiros nos últimos meses”, conta a CFO.
Maga sincera
Vou ser direta: inicialmente, fiquei desconfiada da Allos. Empresas fora de setores perenes prometendo dividendos gordos sempre me deixam com o pé atrás. Ainda mais sem política formal, só “prática”. É quase uma situationship corporativa e preferimos o namoro.
Já vi isso antes, como na Log (LOGG3), dos galpões logísticos, que prometeu alto payout e depois recuou para crescer. A dúvida é: como sustentar dividendos mensais de R$ 0,30 em um setor que exige tanto capital para expansão e inovação?
A conversa com a gestão mudou minha visão. O plano vai além de shoppings, a estratégia é consistente e a equipe muito preparada. Animo comprar ALOS3 para o médio prazo, mas cobrarei firmemente a tal de disciplina de capital da gestão.
Herrera, da Condor, concorda comigo: a empresa está bem-posicionada, com endividamento confortável, dividendos crescentes e previsibilidade rara no Brasil. “O investidor paga mais por isso”.
Barata não está, talvez por isso a companhia não deva priorizar recompras no curto prazo, o que é boa notícia: o foco segue nos dividendos. Um brinde a isso.