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Colunista

Por que o investidor desconfia das decisões das estatais de capital aberto

As medidas não têm sido usadas para gerar valor ao acionista. Caso Petrobras é mais uma evidência

Por Rafael Paschoarelli

24/02/2021 | 10:34 Atualização: 24/02/2021 | 10:52

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Petrobras (Foto: Reuters/Ueslei Marcelino)
Petrobras (Foto: Reuters/Ueslei Marcelino)

Os bons livros dizem que o objetivo da empresa é aumentar valor aos olhos do acionista de maneira sustentada, sendo que, neste contexto, a palavra “sustentada” indica a continuidade na geração de riqueza.

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Este palavreado resume o seguinte conceito mais básico: o objetivo da empresa é deixar o dono mais rico. Se a empresa for de capital aberto, esta meta é ainda mais impactante pois envolve o investimento de milhares de acionistas.

A maneira evidente de deixar os acionistas mais ricos é via valorização dos preços das ações.

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Dito isso, todos os esforços dos colaboradores de uma empresa, do CEO ao funcionário mais simples, deveriam mirar a valorização das ações de forma continuada.

Estas constatações tão fáceis de entender simplesmente não se aplicam quando a empresa de capital aberto ostenta o governo como controlador.
Independente do matiz ideológico do governo, a busca pela valorização do preço das ações de forma continuada é, na melhor das hipóteses, um interesse secundário nas estatais com ações listadas na B3.

O caso da Petrobras é emblemático: o agora ex-presidente de uma das maiores empresas brasileiras foi defenestrado do cargo por conta de sua postura de não se deixar influenciar pelo pleito dos caminhoneiros que almejam a manutenção do preço dos combustíveis sem aumentos.

Neste caso específico, sacou-se um profissional com ampla experiência no meio corporativo e acadêmico (Doutor em Economia pela FGV/EPGE, Post Doctoral Fellow em Economia pela Universidade de Chicago) e que vinha cumprindo a contento suas obrigações pelo fato dele ter sido fiel ao princípio básico de agir pela maximização de valor para o acionista.

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Ainda falando do caso Petrobras, o efeito sinalização ficou evidente na medida que outras empresas controladas pelo governo federal sofreram perdas no preço de suas ações. O investidor raciocinou da seguinte maneira: “se o governo pode colocar o ‘dedo’ na Petrobras, por que ele hesitaria em colocar o ‘dedo’ em outras estatais?”.

Assumindo que todas as medidas tomadas pela alta administração de empresa controlada pelo governo (federal, estadual ou municipal) sejam no sentido de valorização da empresa, o simples fato do investidor cogitar que o Presidente/Governador/Prefeito possa interferir na companhia faz com que ele já introduza um “fator de desconto” no preço da ação.

Este “fator de desconto” existe seja porque a interferência realmente existe ou porque o investidor atribui probabilidade desta “ingerência” se tornar realidade.

O ocorrido com a Petrobras nesta semana fez a lembrança desta modalidade de risco ficar mais latente. Quem perdeu com isso não foi apenas o acionista da Petrobras. Toda a empresa sofreu.

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Uma maneira de enxergar este “fator de desconto” pela empresa ser estatal pode ser visualizada ao se comparar o índice preço/lucro de estatal com empresa de controle privado.

O índice preço/lucro (price/earnings em inglês) nada mais é que o quociente entre o preço da ação e o lucro por ação. O preço/lucro fornece uma estimativa de quantos anos de lucro seriam necessários para compensar o valor pago na ação. O índice preço/lucro pode ser usado empregando lucro dos últimos 12 meses ou com o lucro esperado para os próximos 12 meses. Quanto maior o preço/lucro, mais valorizada é a ação.

Observe os dados abaixo em que se confronta o índice preço/lucro do Banco do Brasil com seus pares privados de porte similar:

Empresas IPL
ITUB4 16,6
BBDC4 12,32
SANB11 10,36
BBAS3 6,57

Será que estes números indicam que o banco público não é tão bom quanto pares privados? Definitivamente não é essa a interpretação!

A minha leitura dos dados é que os investidores impõem um desconto nos múltiplos pelo fato deles desconfiarem que nem todas as decisões a serem tomadas pela estatal são ou serão no sentido de aumento de valor para o acionista e esta desconfiança tornou-se mais intensa nos últimos dias.

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Em todos os governos dos últimos 20 anos, as estatais com ações negociadas em bolsa foram usadas, com maior ou menor intensidade, para propósitos que não estavam alinhados com a meta de maximização do preço da ação. Por fim, até onde a vista alcança, nada indica que isso mudará nos próximos anos.

 

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