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Colunista

Negociações avançam, mas Putin precisa de uma pirueta retórica

Nas negociações que ocorrem em Istambul, Turquia, há um sentimento de alívio por parte do mercado financeiro

Por Thiago de Aragão

30/03/2022 | 7:35 Atualização: 30/03/2022 | 7:35

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O presidente russo, Vladimir Putin | Foto: EFE/EPA/ALEXEI NIKOLSKY / KREMLIN POOL / SPUTNIK / POOL
O presidente russo, Vladimir Putin | Foto: EFE/EPA/ALEXEI NIKOLSKY / KREMLIN POOL / SPUTNIK / POOL

Desde que Vladimir Putin começou a amontoar tropas na fronteira ucraniana, as coisas não deram muito certo para ele. É necessário uma dose enorme de fanatismo para enxergar algum sucesso militar que se enquadre no objetivo inicial desenhado pelo governo russo.

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Nas negociações que ocorrem em Istambul, na Turquia, há um sentimento de alívio por parte do mercado financeiro, mas ainda há muito ceticismo por parte dos ucranianos e aliados da Otan em relação a um desfecho. Recentemente, os russos determinaram um recuo de suas tropas que atacaram Kiev já há algumas semanas. Encontraram ali um paredão quase intransponível, que desafiava a mítica do “infalível” exército russo. Certamente poderiam acabar conquistando a capital ucraniana, mas o custo humano, logístico e financeiro extrapolaria tudo aquilo que Putin imaginava.

Alguns militares com quem entrei em contato na Europa ainda estão divididos sobre um real e longevo cessar-fogo. Acreditam que o recuo das tropas que estão atacando Kiev pode significar apenas uma mudança de estratégia que envolveria um contra-ataque com foco na cidade de Lviv, deixando Kiev para depois, caso uma invasão em Lviv viesse a se efetivar. Conquistar a “capital cultural” ucraniana possibilitaria aos russos uma outra frente para partir para Kiev, tanto do norte quanto do oeste. Além do mais, Lviv ofereceria aos russos (no caso de sucesso) uma facilidade logística que vem sendo o calcanhar de Aquiles das tropas russas desde o início da invasão.

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Há evidências de acúmulo de armamentos no norte do país, mesmo com a retirada de tropas das cercanias de Kiev. Para o otimista, o recuo de tropas de Kiev significa um indício de que Putin está realmente disposto a um cessar-fogo e a um acordo com os ucranianos. Para os mais pessimistas, o recuo poderia se tratar apenas de um reagrupamento estratégico para uma incursão mais adentro da área ocidental do país. Tropas russas na fronteira de Belarus e da Ucrânia não diminuíram, no entanto, o volume de armamento aumentou consideravelmente nos últimos dias. Moscou entende que Lviv tem sido uma vantagem para a Ucrânia na resistência, já que, por ali, entram vários tipos de armamentos europeus destinados às defesas ucranianas. Além do mais, o volume de refugiados que deixa o país pelo oeste faz da região uma área extremamente sensível para o governo ucraniano, podendo levar a uma rendição mais rápida, caso estejam sob ataque pesado.

As negociações são complexas por vários motivos. Se os russos estão dispostos a abandonar a exigência de “desnazificação” do país, por outro lado são irredutíveis na exigência de reconhecimento da independência das repúblicas de Luhansk e Donetsk. Em cima disso, exigem que a Ucrânia reconheça a Crimeia como território russo. O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, pode até aceitar essas exigências, por mais que nas últimas semanas venha se mantendo irredutível em relação à integridade territorial do país.

Mesmo que a Ucrânia venha a reconhecer a independência dessas duas regiões, um fator desestabilizador é o Batalhão Azov. Criado logo após a invasão da Crimeia, o grupo é formado por voluntários ultranacionalistas, de extrema direita, classificado de neonazista pelo governo russo. O Batalhão Azov já conta com milhares de membros e está sendo bem-sucedido em colocar pressão e resistir na briga com separatistas do Donbass. Mesmo com o reconhecimento de Kiev dessas regiões, dificilmente o Batalhão Azov abriria mão de lutar contra os separatistas, oferecendo a Moscou mais uma narrativa de justificação para continuar a luta.

Cabe lembrar que um cessar-fogo é bom para todo mundo. A Rússia necessita desesperadamente de uma reorganização na sua cadeia logística e na formulação estratégica. Um cessar-fogo ofereceria esse tempo, aliviaria (temporariamente) as pressões impostas pela Otan e pelo exército ucraniano e ajudaria o exército russo a reavaliar seus objetivos com uma visão mais concreta da capacidade de resistência dos ucranianos.

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Zelensky está disposto a iniciar o processo de neutralidade do país, bem como oferecer garantias que a Ucrânia não buscará armas nucleares num futuro próximo. Essas demandas foram agregadas ao longo da guerra pela Rússia e não fazem parte do pacote original. A ausência de um reconhecimento de Luhansk, Donetsk e da Crimeia como russas, coloca a Rússia em uma posição complexa: aceitar um cessar-fogo com base em demandas parciais. Isso fortalece a percepção interna e externa de que a aventura de Putin foi um fracasso.

A neutralidade ucraniana é algo interpretativo quando enxergamos o ressentimento do povo e as atuações independentes do Batalhão Azov, por exemplo. Não buscar armas nucleares é algo que dificilmente a Ucrânia faria sob qualquer situação. O volume de destruição, mortes de soldados russos, derretimento do mito do exército russo, sanções aplicadas contra Moscou e perda quase que total de credibilidade na comunidade internacional são preços muito altos para atingir um objetivo que não sustenta toda a narrativa que Putin tentou impingir dentro de seu país.

Um cessar-fogo não retira as sanções aplicadas sobre a Rússia. Um acordo de paz poderia, a médio prazo, retirar algumas dessas sanções. Enquanto Putin permanecer no poder, a desconfiança fará com que as medidas econômicas tomadas contra a Rússia persistam. A sensação de emparedamento poderia levar Putin a retomar ações militares tão logo percebesse que chegar num acordo não significa retomar a normalidade.

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