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Colunista

Portugal: o que não te contam sobre custos e experiências de morar no exterior

Se você também tem planos de se mudar para terras lusas, este artigo pode te ajudar com alguns insights

Experiências em Portugal. (Foto: Adobe Stock)
Experiências em Portugal. (Foto: Adobe Stock)

Quem nunca ouviu a frase ‘quem converte, não se diverte’?. Essa expressão resume o grande dilema de quem tem uma viagem planejada e acaba se frustrando com a disparidade cambial. Afinal, desde os primeiros anos do Plano Real, quando o real foi lançado em paridade com o dólar, a moeda brasileira nunca mais teve força equivalente às principais divisas globais. De lá para cá, o câmbio flutuante passou a ditar as regras do jogo e a conversão se transformou em um exercício de frustração para boa parte dos brasileiros.

Nos últimos anos, mais ainda. O dólar e o euro atingiram as maiores cotações da história do nosso País, ultrapassando a divisa dos R$ 6, um lembrete cruel da fragilidade da moeda brasileira. E foi justamente nesse contexto desafiador que um plano antigo saiu do papel: fazer um mestrado no exterior.

Essa não foi a primeira vez que fiz um movimento como esse. Quem acompanha a coluna sabe que o meu primeiro intercâmbio foi para os Estados Unidos, lá em 2012, quando o dólar ainda rondava os R$ 1,80. Depois, com o fim de uma exaustiva cobertura política do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e um extenso volume de horas extras no banco, voltei às terras do Tio Sam para uma especialização em Berkeley, na Califórnia. A cotação já beirava os R$ 3,40.

A mudança de agora foi mais desafiadora. Apesar de receber uma bolsa de estudos para fazer o mestrado em Liderança na Universidade Nova de Lisboa, em Portugal, os custos de habitação nunca foram tão altos no país luso, assim como o euro. Só para dar um pouco de dimensão, o preço do aluguel – arrendamento, como dizem os portugueses – em Lisboa saltou cerca de 45% nos últimos cinco anos, saindo de uma média de 13,8 €/m2 para os atuais 20,1 €/m2, segundo dados do portal imobiliário Idealista.

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Portanto, o planejamento financeiro foi crucial antes de fazer as malas. Se, assim como eu, você também tem planos de se mudar para Portugal, este artigo pode te ajudar com alguns insights.

Planejando a minha mudança do Brasil para Portugal

O processo de bater o martelo e oficializar a minha mudança para o exterior levou três meses. No entanto, tenho monitorado os preços de arrendamento e o custo de vida no país desde que visitei Lisboa como turista pela primeira vez, em 2019. É claro que, naquele momento, o mestrado era somente uma ideia distante. Ainda assim, como qualquer viagem internacional, acompanhar a evolução dos valores é o melhor caminho para fazer bons negócios sem se endividar.

Nas redes sociais, chovem relatos de brasileiros que não conseguiram se sustentar nas terras lusas e precisaram voltar para casa muito antes do previsto. Há também diversos perfis que convidam as pessoas para o ‘sonho de viver na Europa’, destacando somente as vantagens e pouco sobre a vida real.  Para mitigar riscos, tenho um checklist de perguntas que precisam ser respondidas antes de decidir mudar de país. Talvez esse passo a passo te ajude.

1.Aluguel: consigo morar sozinha ou devo dividir um apartamento?
2.Contas essenciais: qual o custo médio com água, luz, gás e internet?
3.Transporte: aluguel de carro, transporte público e Uber. Quanto vou gastar?
4.Alimentação: o que eu consumo no Brasil vai custar quanto em outro país?
5.Gastos de mudança: vou ter que comprar algum item doméstico, como escrivaninha, lençóis, toalhas ou travesseiros?
6.Celular (telemóvel, em terras lusas): vou ter que cancelar o meu plano? Quais são as operadoras de Portugal e qual o valor médio do serviço de telefonia de cada uma delas
7.Academia, ginásio para os portugueses: quanto gasto atualmente para frequentar a academia?
8.Compras e passeios: quanto eu gasto por fim de semana no Brasil, seja para sair, viajar ou comprar alguma coisa?
9. Consigo manter o meu padrão de vida atual com a mudança ou devo me preparar para algum tipo de ajuste?

Quando fui procurar essas respostas, lembro de que minha primeira reação foi: ‘Isso aqui está mais caro do que São Paulo!’ Mas, com a ajuda de alguns colegas que já moravam em Portugal, um pouco de paciência e muita pesquisa, consegui achar alternativas interessantes.

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Ainda assim, a resposta para cada um dos itens acima vai depender do seu orçamento mensal, então é evidente que nenhum valor é 100% aplicável para todas as pessoas. O que eu quero é passar a minha experiência para quem busca informação e não sabe por onde começar. Então vamos lá:

Aluguel: o arrendamento individual em Lisboa pode iniciar em 900€; dividir a casa ou apartamento tende a reduzir esse custo, com opções que começam em 300€ morando com 3 colegas (ou mais), ou cerca de 500€ para dividir com somente mais uma pessoa. Melhores sites para buscas são Idealista e Uniplaces.

Contas essenciais: a soma de água (25€), luz (25€), gás e internet (30€) pode variar; é comum, no entanto, ter as contas inclusas ao dividir o aluguel com outras pessoas.

Transporte: Uber ou Bolt em Portugal costumam ser mais baratos em comparação com outros países da Europa, mas ele pode se tornar o maior vilão dos seus gastos mensais. A minha recomendação é fazer o bilhete mensal Navegante. São 40€ por mês e você pode usar ônibus, metrô, trem e elétricos de forma ilimitada em 18 municípios da área metropolitana de Lisboa. O passe também dá direito ao uso diário das bicicletas coletivas Gira, amplamente espalhadas pela cidade. A emissão do cartão é imediata e feita presencialmente em um dos postos oficiais da empresa mediante a uma taxa de 12€. Veja aqui os locais e lembre-se de levar uma foto 3×4!

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Alimentação: os mercados mais populares do país são o Pingo Doce, Continente, Lidl, Auchan e Mini Preço. Entrei no site dos dois primeiros e consultei o preço médio dos alimentos que eu consumia por semana no Brasil, a fim de calcular um valor mensal aproximado. Lembre-se de que a sua primeira compra deve ser um pouco mais salgada, afinal, existem alguns produtos que precisam ser adquiridos logo de início, como sabão em pó, amaciante, sal, temperos, etc. O preço da carne bovina é mais caro, então vale ficar de olho nas aves e suínos. Em média, o meu custo semanal é de 40 €.

Gastos de mudança: ainda que o seu bilhete aéreo inclua duas bagagens de 23kg, ou até mais, dificilmente você vai conseguir evitar algumas comprinhas de itens domésticos. No meu caso, precisei investir em uma cadeira ergonômica, visto que trabalho remotamente para o Brasil e passo muito tempo sentada / 45€ com uma luminária (5€), travesseiros (10€) e outras besteiras. O melhor lugar para economizar é no Ikea!

Celular: o seu WhatsApp pode ser mantido normalmente com o número do Brasil, basta manter uma conta pré-paga ativa. Ainda assim, recomendo ter um chip português para usar a internet e conseguir se comunicar no país. As principais operadoras são: Vodafone, NOS, MEO e Digi. Testei três delas e o valor médio pode ultrapassar 30€. No entanto, encontrei uma alternativa que me atendeu muito bem, a WOO, um braço da NOS voltado para um público mais jovem e habituado com sistema digital. O meu custo mensal é de 5€ a instalação do chip é feita on-line e tenho 100 gb de internet móvel acumuláveis, além de 1000 minutos em chamadas locais e 10 gb da dados para viagens em países da União Europeia. Não há contrato de fidelidade e você pode cancelar quando quiser; o melhor custo-benefício que encontrei.

Academia: Lisboa faz um convite natural para quem gosta de caminhar e fazer exercícios físicos ao ar livre. Além de ser seguro andar apé ou de bicicleta pelas ruas, a paisagem e o clima servem de incentivo. Se você já tem o hábito de frequentar academia, vou deixar algumas dicas. Em média, você encontra mensalidades que variam entre 30-40€ para modalidade de musculação e aulas coletivas (veja as redes Fitness Up, Fitness Hut e Viva Gym). Eu desembolso 30€ na minha! Os clubes de luta já são mais salgados, com valores acima de 60€.

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Compras e passeios: este item é muito pessoal. Portanto, minha sugestão é que você olhe o extrato do seu banco e cartão de crédito para mapear qual tem sido o seu custo médio nos últimos 3 meses. Com o que você gastou? A partir disso é possível fazer projeções. Em termos de restaurantes, é possível comer fora de casa com uma taça de vinho por 12€, por exemplo. Mas isso também depende das suas preferências pessoais. Um café da manhã na rua pode sair por 5€, museus e atrações turísticas não costumam passar dos 15€. De novo, pesquise e anote!

Padrão de vida atual: quanto você gasta com cada um desses itens morando no Brasil? Anote o valor. Agora simule os valores de 1 a 8 utilizando as dicas que passei acima e veja um gasto aproximado em euro. Essa reflexão é a mais importante porque é ela que vai definir a realidade da sua vida financeira em outro país.

Sim, é complexo. Mas esse checklist pode te salvar de uma decepção!

Minhas percepções

As minhas respostas para os itens 1 a 8 resultaram em uma equação surpreendentemente positiva. É claro que optei por fazer alguns ajustes em termos de padrão de vida para chegar em um custo mensal mais confortável com os meus rendimentos mensais. Em São Paulo, por exemplo, morava sozinha, mas entendi que faria sentido dividir apartamento com uma colega em Portugal.

Vendi meu carro e troquei essa modalidade de transporte pelo sistema público – que funciona muito bem em Lisboa, em geral. Só com isso, a minha economia mensal disparou – quem tem carro sabe como a gasolina e manutenção pesam no bolso.

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Paguei um pouco mais com a conta de celular quando cheguei, mas o custo com internet e ligações caiu exponencialmente depois que encontrei a operadora digital. Mesmo com a conversão, a despesa se tornou muito menor do que o meu antigo plano no Brasil.

Em termos de alimentação, os meus gastos ficaram em uma média parecida. A vantagem é que tenho me alimentado muito melhor, afinal, os portugueses têm uma grande preocupação com a qualidade dos produtos. Além disso, os produtinhos “saudáveis” que levam alta concentração de proteínas, por exemplo, são muito mais baratos do que no Brasil.

Depois de quase quatro meses vivendo em Lisboa, concluí que a minha qualidade de vida aumentou sem comprometer o custo mensal que já tinha no Brasil. Reforço que essa conclusão é individual e não há como calcular um valor médio sem considerar as oito variáveis que listei no checklist. É possível viver em Portugal com 800€, 1.000€ ou 1.500€? Sim. O valor também pode ser muito maior, dependendo das suas escolhas.

A minha última recomendação é preparar um caixa em Euro e ter uma reserva de emergência no Brasil. Nem todos podem conseguir deixar isso pronto, mas, dependendo dos seus planos e do tempo que você tiver, vale a pena ir comprando uma cota de euro por mês antes de embarcar. Essa é a melhor estratégia para não ficar refém da flutuação do câmbio, ou seja, não ter que converter real em euro de última hora independentemente do valor da cotação. Fazer compras aos poucos garante que você consiga ter uma média mais equilibrada e gera uma economia considerável.

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Veja. Antes de me mudar, a cotação do euro estava em R$ 5,80, mas chegou a bater R$ 6,50 neste ano. Como fui preparando um caixa antes de embarcar, consegui esperar o valor ficar um pouco mais competitivo para fazer uma nova conversão. Atualmente, a minha taxa média (o número de conversões realizadas dividido pela soma de cada transação) está em R$ 6,07. Nada mal considerando as altas e baixas da moeda europeia.

E onde eu faço a troca dos reais por euros? Pela Wise. Apesar de ter outras contas internacionais, essa tem a melhor tarifa do mercado que já encontrei. Mas esse é tema para um outro artigo.

No fim, percebi que quem converte se diverte, sim. Se mudar de país é um sonho ou um objetivo, entenda que ter consciência dos seus gastos, projetar custos e ter atenção com as próprias finanças são cuidados essenciais para nao cair em armadilhas e ter uma boa experiência no exterior.

Agora, quem aí também se mudou do Brasil para Portugal? Me conta mais no @valeriabretas

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