Cultura é importante. Visibilidade internacional também. Mas enquanto o país torcia pelo Oscar, outro ranking global mudou de forma muito mais relevante para o futuro econômico do Brasil.
Segundo estimativas recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI), o País encerrou 2025 como a 11ª maior economia do mundo, com um Produto Interno Bruto (PIB) em torno de US$ 2,27 trilhões, depois de ter sido ultrapassado pela Rússia. À primeira vista pode parecer apenas uma posição em uma tabela. Mas rankings econômicos raramente mudam por acaso. Eles refletem produtividade, investimento, competitividade e estabilidade macroeconômica.
Nos últimos anos o debate econômico brasileiro passou a se concentrar muito em números pontuais de crescimento. O país cresceu cerca de 2,3 por cento em 2025, um resultado positivo em termos absolutos, mas ainda muito dependente de ciclos específicos, principalmente ligados ao agronegócio e às commodities. Crescimento pontual não é o mesmo que crescimento estrutural, e essa diferença começa a aparecer quando olhamos para indicadores mais profundos da economia.
Um deles é a trajetória fiscal. A dívida pública brasileira segue em tendência de alta em relação ao PIB em um cenário no qual o gasto público cresce mais rápido do que a capacidade estrutural da economia de gerar receita. Esse tipo de dinâmica dificilmente produz uma crise imediata, mas cria um ambiente de juros elevados por longos períodos, investimento menor e crescimento potencial mais limitado.
O número de empresas entrando em recuperação judicial disparou: alta anual de 24%
Ao mesmo tempo, existe outro indicador silencioso mostrando que algo na economia real não está funcionando tão bem quanto parece. O número de empresas entrando em recuperação judicial disparou.
Em 2025 foram registradas cerca de 5.680 empresas nesse processo, uma alta superior a 24% em relação ao ano anterior. Movimentos dessa magnitude raramente são explicados apenas por má gestão individual. Na maior parte das vezes refletem um ambiente econômico mais apertado, marcado por crédito caro, juros elevados e margens comprimidas.
E aqui aparece um contraste curioso com o momento cultural recente do País. Enquanto boa parte do Brasil torcia para Wagner Moura subir ao palco do Oscar, empresas bastante conhecidas do mercado brasileiro enfrentavam dificuldades financeiras relevantes.
A Raízen (RAIZ4), gigante do setor de energia e etanol, entrou com um dos maiores processos de recuperação judicial já registrados no país. Ao mesmo tempo o Grupo Pão de Açúcar (PCAR3), um dos nomes mais tradicionais do varejo nacional, também buscava reorganizar sua estrutura financeira.
Quando empresas desse porte recorrem à proteção judicial dificilmente expõem apenas problemas internos. Muitas vezes é um sintoma de algo maior. Uma economia operando com custo de capital elevado, endividamento relevante e crescimento que não se distribui de forma homogênea entre os setores.
Esse fenômeno aparece inclusive em áreas consideradas motores recentes da economia brasileira. No agronegócio, por exemplo, os pedidos de recuperação judicial chegaram perto de dois mil casos em 2025, o maior número da série histórica da Serasa Experian. Ou seja, justamente em um setor que ajudou a sustentar parte do crescimento recente começam a surgir sinais claros de estresse financeiro.
Quando colocamos esses elementos lado a lado, crescimento moderado do PIB, dívida pública em trajetória ascendente e número recorde de empresas buscando recuperação judicial, a leitura da economia passa a ser menos confortável do que a fotografia anual sugere.
Talvez o problema esteja na forma como interpretamos os dados econômicos. O PIB funciona como uma fotografia. Já variáveis como dívida pública, produtividade e investimento contam uma história de longo prazo. É olhando para essa história que começam a surgir preocupações mais profundas.
Uma economia com dívida crescente, juros estruturalmente elevados e investimento limitado tende a perder competitividade ao longo do tempo. Isso não acontece de um ano para o outro, mas é exatamente esse tipo de processo que explica por que alguns países avançam no ranking econômico global enquanto outros ficam para trás.
Talvez seja por isso que, enquanto parte do debate público já começa a olhar para eventos futuros e alguns já torcem para a próxima Copa do Mundo, prefiro olhar alguns anos adiante no campo econômico. O que realmente me preocupa não é apenas a posição do Brasil no ranking hoje, mas a trajetória que estamos construindo para 2027 e além.
Prêmios culturais são importantes para a projeção de um país. Mas crescimento sustentável depende de fatores muito menos glamourosos. Produtividade, investimento, responsabilidade fiscal e estabilidade institucional.
Sem esses elementos, rankings internacionais deixam de ser apenas um símbolo de prestígio e passam a refletir uma perda gradual de relevância econômica.
Se você gosta desse tipo de análise macro e de mercado, compartilho reflexões frequentes sobre economia global e investimentos no meu Instagram @vmiziara.