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Raízen (RAIZ4) e GPA (PCAR3) acendem alerta sobre crédito mais restritivo; veja as orientações do C6 e da CEO da Magno

Especialistas apontam que reestruturações bilionárias refletem custo de capital elevado e condições financeiras mais desafiadoras para empresas brasileiras

Por Isabela Ortiz

11/03/2026 | 13:35 Atualização: 12/03/2026 | 7:27

Pedidos de recuperação extrajudicial de GPA e Raízen refletem pressão do crédito mais caro sobre empresas brasileiras. (Foto: Adobe Stock)
Pedidos de recuperação extrajudicial de GPA e Raízen refletem pressão do crédito mais caro sobre empresas brasileiras. (Foto: Adobe Stock)

Os pedido de recuperação extrajudicial anunciados em sequência pelo Grupo Pão de Açúcar (GPA,PCAR3) e pela Raízen (RAIZ4) nesta semana acenderam um alerta no mercado sobre o ambiente de crédito mais restritivo no Brasil. Embora atuem em setores muito diferentes (varejo alimentar e energia/combustíveis), as duas companhias recorreram ao mesmo instrumento jurídico para renegociar dívidas bilionárias que especialistas interpretam como reflexo de um custo de capital ainda elevado e de condições financeiras mais desafiadoras para as empresas.

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Na terça-feira (10), o GPA anunciou o pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas financeiras. Já hoje, nesta quarta-feira (11), a Raízen protocolou plano semelhante na Justiça de São Paulo para reestruturar aproximadamente R$ 65,1 bilhões em passivos, incluindo títulos no Brasil e exterior.

Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, movimentos corporativos desse tipo ganham um significado maior quando aparecem ao mesmo tempo em setores distintos da economia. Segundo ela, os pedidos de recuperação extrajudicial das duas companhias convergem para um mesmo ponto: a necessidade de reorganizar passivos em um ambiente de financiamento mais caro e restritivo.

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Esse cenário pressiona empresas intensivas em capital ou com margens mais apertadas, que passam a destinar parcela crescente da geração de caixa ao pagamento da dívida.

Setores diferentes, pressão semelhante

No caso da Raízen, a reestruturação financeira ocorre em um setor marcado por projetos de grande porte e ciclos longos de retorno. Investimentos em produção de energia e biocombustíveis exigem financiamento elevado e previsibilidade no custo de capital.

Flôres explica que a combinação recente de juros elevados, volatilidade no preço do petróleo e oscilações em commodities agrícolas alterou esse equilíbrio.

“O serviço da dívida passa a consumir parcela crescente da geração de caixa, pressionando a estrutura financeira antes mesmo de qualquer deterioração significativa da operação”, diz a CEO.

Nessas circunstâncias, processos de reorganização de passivos funcionam como uma forma de ajustar o nível de alavancagem a um ambiente macroeconômico mais exigente. A própria Raízen atribuiu a deterioração de sua situação financeira a fatores como menor produtividade agrícola, compressão de margens e aumento do custo de endividamento, agravado pela alta da taxa básica de juros nos últimos anos.

No varejo alimentar, o problema de manifesta de forma diferente, mas chega a uma conclusão parecida no balanço das empresas.

O GPA atua em um setor de margens tradicionalmente estreitas, em que eficiência logística, escala e gestão de capital de giro são fatores decisivos para a rentabilidade. Não somente, o setor já vem se contraindo há pelo menos 5 meses, segundo o Santander – em dezembro de 2025, as vendas do varejo alimentar caíram 2,5% em relação a novembro, com um resultado de volumes 5,5% menores e preços 3,2% mais altos (contra respectivas médias de -2,5% e +6,4% ao longo de 2025).

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Nos últimos anos, o ambiente operacional incorporou novas pressões, como inflação persistente de alimentos, redução do poder de compra das famílias e crédito mais caro.

“Em um setor com baixa capacidade de absorção de choques, pequenas variações no custo de financiamento ou no ritmo de consumo passam a produzir impactos desproporcionais sobre a estrutura de capital”, afirma Flôres.

Nesse contexto, renegociações de dívida se tornam instrumentos para recompor o equilíbrio financeiro.

O que esperar do crédito e dos juros

Na avaliação do Heliezer Jacob, economista do C6 Bank, o cenário de crédito restrito deve continuar influenciando setores mais dependentes de financiamento ao longo de 2026.

Mesmo com a expectativa de início do ciclo de cortes de juros pelo Banco Central, a taxa básica ainda deve permanecer em patamar elevado por um período prolongado. “Seguimos esperando um início gradual do ciclo de cortes, com o Copom reduzindo a Selic em 0,25 ponto percentual na próxima reunião”, afirma Jacob.

A projeção da instituição é que a taxa termine o ano em torno de 12,5%, ainda em nível considerado restritivo para diversos segmentos da economia.

Nesse ambiente, áreas mais sensíveis ao crédito tendem a sentir primeiro a desaceleração do consumo. Ainda assim, o banco projeta que o varejo ampliado encerre 2026 com crescimento próximo de 2%.

Sinal para investidores

Para Olívia Flôres de Brás, episódios como os de Raízen e GPA mostram que a pressão atual está menos relacionada ao desempenho operacional das empresas e mais ao ambiente financeiro.

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Segundo ela, processos de recuperação judicial ou extrajudicial raramente surgem de forma abrupta.

“Em geral, constituem a etapa final de um processo gradual de deterioração da relação entre geração de caixa, custo do capital e nível de endividamento”, afirma.

Quando casos desse tipo começam a surgir em setores tão diferentes quanto energia, varejo e agronegócio, o sinal vai além de um problema isolado de gestão. Para o mercado, o padrão pode indicar um ambiente de crédito mais seletivo e exigente para financiar a expansão das empresas nos próximos anos.

Investidores tendem a dar mais peso à qualidade do balanço, à geração de caixa e ao nível de alavancagem das companhias, fatores que ganham relevância em um cenário de juros ainda elevados e maior disciplina financeira.

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