A partir desse mecanismo, é possível traçar alguns cenários — e, principalmente, pensar em como posicionar os investimentos em cada um deles.
O risco maior é o impacto nos preços do petróleo, com a possibilidade de a cotação se manter acima de US$ 110 por um período prolongado, com os impactos óbvios na inflação, juros, bolsas e outros componentes da economia global.
Temos um canal claro de transmissão dos efeitos da guerra para a economia e nossos investimentos: alta do petróleo –> mais inflação –> juros maiores –> bolsas em queda e spreads de crédito em alta. O inverso se aplica.
A partir desse canal de transmissão, podemos organizar o cenário em três trajetórias possíveis — que variam em intensidade, duração e impacto sobre os ativos.
1. Guerra contida: impacto moderado — e recuperação dos mercados: os EUA dão um passo atrás e Israel e Irã continuam com ataques intermitentes. O Estreito de Ormuz (por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial) é reaberto, possivelmente com proteção naval, e o preço do petróleo cai, mas para níveis superiores aos US$ 80/barril do pré-guerra. Isso pressupõe, claro, algum tipo de acordo entre EUA e Irã. Esse e o cenário mais provável hoje.
2. Escalada da guerra: petróleo a US$ 130 e risco de recessão global: EUA e Israel sustentam e possivelmente ampliam as operações contra o Irã, que por sua vez mantem a retaliação contra objetivos na área do Golfo Pérsico, com seus aliados, os Houthis, e o Hezbollah. O Estreito de Ormuz continua fechado. Podemos imaginar que esse cenário possa durar pelo menos um mês.
Nesse caso, o preço do petróleo vai se manter em torno dos US$ 110/barril. Se o conflito continuar após o primeiro mês com essa intensidade, a cotação da commodity pode subir para US$ 130/barril ou até mais. A probabilidade de ocorrência deste cenário é média.
3. Cessar-fogo e colapso do Irã: alívio global e rali nas bolsas: Por fim, há o cenário de menor probabilidade, que inclui o colapso do Irã com um cessar-fogo. É uma probabilidade mais baixa porque o colapso do regime no Irã deve levar a um esfacelamento do país e a emergência de muitos grupos rivais. Mas esse quadro pressupõe que os três beligerantes entrem em acordo e o Estreito de Ormuz seja reaberto. Mas, em meio a um esfacelamento, com quem negociar? Se esse cenário se concretizar, o preço do petróleo deve cair para os níveis anteriores à guerra.
Se tivermos a concretização do cenário 1, temos um impacto moderado nas bolsas de valores, similar ao que ocorreu no início da guerra da Ucrânia. E, como aconteceu naquele início de conflito, os mercados se recuperam. Ações dos setores de energia e defesa ganham nesse cenário e as perdedoras são as companhias aéreas, consumo e indústrias intensivas em energia.
Os corporate bonds os spreads (diferença entre o preço de compra e o preço de venda) abrem um pouco, com maior impacto nos high yield (ativos de remuneração acima da média), como sempre acontece em momentos de stress. Mas não temos uma crise de crédito, mas sim impactos leves nos investimentos.
Se o cenário 2 se concretizar, temos um choque energético global. Nesse caso as bolsas caem bem, algo entre 15 e 30% em função da forte pressão inflacionária e impossibilidade de corte de juros pelos bancos centrais. O risco de recessão global é grande. Nas bolsas, mesmo em queda, há ganhadores como os setores de energia, defesa e commodities.
Os setores perdedores são o de transporte, aqui incluídas as companhias aéreas e de navegação, consumo, tecnologia via juros elevados e a Europa como um todo, dada sua grande dependência da energia dos centros em conflito. Temos aqui um evento global, não mais regional. No campo dos corporate bonds temos uma divisão clara: os investimentos grades sofrem, mas pouco, e o mercado continua operacional. Já no campo dos high yields teremos problemas com aumento de defaults e spreads bem abertos.
Os efeitos negativos se farão sentir mais fortemente nas empresas mais alavancadas, muito dependentes de energia e por último dos mercados emergentes, este último por causa do fly to quality (ou “fuga para a qualidade”) que deverá ocorrer. Se o cenário se prolongar, os efeitos serão ainda mais negativos em particular nos mercados de crédito.
Já no cenário 3 as perspectivas são mais otimistas, apesar da probabilidade de ocorrência ser baixa. Aqui o risco geopolítico desaparece, há um rali global nos mercados acionários e podemos ter altas de 10 a 20% com setores como tecnologia, consumo e mercados emergentes se beneficiando muito. O perdedor seria o setor de energia, que sofreria forte correção.
Para os corporate bonds o cenário também seria positivo, em particular para os high yields com o fechamento de spreads. O crédito privado se valoriza com reflexos positivos nos fundos de crédito.
O que fazer com os investimentos
Diante desse quadro, a estratégia passa menos por prever o cenário exato e mais por ajustar o portfólio para atravessar diferentes possibilidades.
No crédito, faz sentido reduzir risco. Uma alternativa é trocar títulos mais agressivos — com rating equivalente a BB- ou abaixo — por papéis de melhor qualidade. Há um custo nessa migração, mas ela compra proteção em um ambiente mais incerto. Também ganham espaço ativos indexados à inflação, como títulos e ETFs atrelados a índices de preços.
Na bolsa, o movimento é semelhante: priorizar empresas mais defensivas, com receitas previsíveis e menor sensibilidade ao ciclo econômico. É o caso de utilities, distribuidoras de energia, saúde e consumo básico. Esses setores tendem a sofrer menos em cenários de estresse.
Isso não significa imunidade. Mesmo carteiras mais conservadoras podem registrar perdas — a diferença está na magnitude.
Por outro lado, momentos de maior turbulência também costumam abrir oportunidades. Para quem tem liquidez, quedas mais acentuadas podem permitir a entrada em ativos de qualidade a preços mais atrativos.
No fim, mais do que tentar antecipar cada desdobramento da guerra, o essencial é acompanhar os sinais do mercado — especialmente o comportamento do petróleo — e manter flexibilidade para ajustar a estratégia ao longo do tempo.