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Comportamento

A inflação está trazendo de volta a economia em forma de K

As empresas que vendem bens e serviços para consumidores de baixa renda têm motivos para se preocupar

Por E-Investidor

19/03/2022 | 7:00 Atualização: 18/03/2022 | 14:51

(Fonte: Gov.br)
(Fonte: Gov.br)

Conor Sen, WP Bloomberg – Lembra quando em 2020 todo mundo estava falando da recuperação da economia em forma de K? Os funcionários de escritórios que podiam trabalhar de casa continuaram empregados, enquanto os trabalhadores do setor de serviços com menor poder aquisitivo foram demitidos aos milhões devido às perspectivas incertas. Com o tempo, uma mistura de incentivos fiscais, vacinas e outras medidas adaptáveis levaram a uma forte retomada e ajudaram a remediar os danos.

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Até agora. As tendências estagflacionárias no mercado imobiliário, combinadas com a crise energética decorrente da guerra na Ucrânia, criaram um novo tipo de economia em forma de K. Os proprietários de imóveis, que, para começo de história, tendem a ser mais ricos, estão se beneficiando do aumento do valor de mercado das casas. Eles também gastam uma parte proporcionalmente menor da renda deles com alimentação e energia, protegendo-os dos temores inflacionários.

Já os locatários com menor poder aquisitivo se encontram em uma situação inversa – eles gastam uma parcela maior da renda deles com mercadorias, por isso o poder de compra deles está diminuindo conforme as despesas com alimentação e energia disparam. E eles não ganham nenhum benefício com a alta da valorização dos imóveis onde moram; apenas estão pagando aluguéis cada vez mais altos.

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As implicações disso para os negócios dependerão de quem são os clientes de uma empresa. Embora os ricos talvez esbocem alguma reação na hora de encher o tanque e pagar pelas compras no supermercado, é provável que não recuem em seus gastos discricionários. As empresas que vendem bens e serviços discricionários para consumidores de baixa renda têm mais motivos para se preocupar.

A natureza dupla dessa dinâmica pode fazer com que investidores e analistas exagerem o impacto na economia como um todo, apesar de não haver dúvida de que ela causará uma dor muito real para as dezenas de milhões de consumidores que estão sendo afetados.

Com o relatório trimestral das contas financeiras dos EUA/ U.S. Financial Accounts do Federal Reserve (Fed) divulgado na quinta-feira, agora sabemos o quanto de renda os proprietários de imóveis americanos acumularam em 2021. O valor de mercado dos imóveis residenciais cresceu extraordinários US$ 4,3 trilhões. Para efeito de comparação, o melhor ano para o crescimento da valorização das casas em meados dos anos 2000 teve um acúmulo de US$ 1,8 trilhão, em 2004. O dinheiro em caixa para as empresas também aumentou. Graças a uma combinação de estímulo fiscal, níveis moderados de atividades de lazer durante a pandemia e talvez algumas despesas limitadas devido à escassez na cadeia de suprimentos, o dinheiro mantido em contas correntes, poupanças e no mercado financeiro cresceu US$ 2,2 trilhões.

Do outro lado do livro-razão, a dívida das famílias aumentou US$ 1,2 trilhão, sendo a maior parte com hipotecas e cartões de crédito. Somando tudo, as famílias donas de imóveis incorporaram mais de US$ 5 trilhões em 2021 com ativos líquidos ou valor de mercado do imóvel que podem ser prontamente aproveitados a taxas de juros relativamente baixas. Esse total não leva em conta o patrimônio no mercado de ações, que cresceu de forma considerável em 2021, mas tem recuado até agora em 2022.

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Esses ganhos ofuscam o valor que as famílias gastam com bens e serviços de energia todos os anos – uma taxa anualizada de US$ 700 bilhões a partir de janeiro de 2022. Mesmo que esse número tenha crescido em US$ 200 bilhões como resultado da crise energética que experimentamos, ele não é muito grande em relação aos ganhos de renda e patrimônio dos proprietários e das famílias entre os 20% com maior poder aquisitivo. Para os ricos, é pouco provável que os planos de viagens e de comer fora sejam afetados pela turbulência econômica que estamos enfrentando.

Mas esse não é o caso dos locatários com rendas menores. Um aumento de 10% no preço da gasolina tem um impacto de -0,9% no salário de alguém entre os 10% dos trabalhadores com menor renda. Com o preço da gasolina subindo 30% este ano a partir de 9 de março, isso, na prática, representa uma redução de 2,7% na renda.

E esse é o impacto apenas da gasolina. O relatório de Índice de Preços ao Consumidor dos EUA de fevereiro mostrou que os aluguéis aumentaram a uma taxa anualizada de 7%, conforme os contratos com descontos por conta da pandemia expiraram e foram reajustados a taxas mais altas.

Esta é a nossa nova dinâmica em forma de K – os proprietários ricos de imóveis têm os meios para absorver os aumentos dos preços dos produtos, enquanto os pobres sofrem a pressão pelo aluguel e pela inflação das commodities.

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É um argumento para a ala progressista do governo defender medidas como a suspensão do imposto sobre a gasolina por causa de quem mais se beneficiaria com isso, mesmo que isso esteja em desacordo com as metas de combate às mudanças climáticas de longo prazo.

E também é um argumento para acolher uma certa dose de aperto monetário do Fed em nome do controle da inflação por causa de quem está sendo mais prejudicado por isso. A taxa de desemprego está baixa e a demanda por mão de obra continua forte – pelo menos por enquanto, a política monetária pode ter mais impacto sobre a inflação do que sobre o emprego.

Os investidores, por sua vez, devem manter o K em mente enquanto as empresas relatam como elas e seus clientes estão resistindo à inflação. Não se pode extrapolar o desempenho resiliente das empresas de itens de luxo para as de itens mais econômicos e vice-versa. Mais uma vez, parece que estamos caminhando para um cenário econômico que está funcionando muito melhor para alguns do que para outros.

– – –

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Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e seus proprietários.

Conor Sen é colunista da Bloomberg Opinion e fundador da Peachtree Creek Investments. Ele já escreveu para a revista The Atlantic e para o site Business Insider e vive em Atlanta. // TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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