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Comportamento

Avanços na inteligência artificial podem ficar para história como herança positiva do coronavírus

Se havia desconfiança com a IA, a pandemia acelerou a necessidade de implantar essa tecnologia

Por E-Investidor

29/06/2020 | 12:56 Atualização: 08/12/2023 | 17:36

(Foto: Evanto Elements)
(Foto: Evanto Elements)

(Tae Kim/Bloomberg) – Durante muitos anos, a inteligência artificial (IA) parecia estar sempre prestes a se tornar o novo grande salto tecnológico – mas a realidade nunca confirmava tanta badalação. Agora, diante de todas as mudanças impostas pela pandemia de covid-19, talvez o grande momento dessa tecnologia tenha finalmente chegado.

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Nos últimos meses, executivos do setor têm repetido um mesmo mantra: as empresas precisam se reorganizar para o mundo do trabalho remoto. Por isso, muitas delas aumentaram drasticamente os investimentos em soluções custosas de computação na nuvem, além de migrar para a internet diversas tarefas e formas de comunicação.

Na nova realidade dos escritórios esvaziados, essas mudanças certamente vão ajudar as organizações a serem mais ágeis e confiáveis. E o processo de centralizar na nuvem cada vez mais dados corporativos era exatamente o que faltava para que as empresas desdém o passo de desenvolver a capacidade de inteligência artificial sobre a qual tanto se falou – de algoritmos mais precisos para fazer previsões até um crescimento da automatização robótica. Se os líderes empresariais decidirem investir de forma agressiva nas áreas certas, este pode ser um momento decisivo para o futuro da inovação.

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Mas, antes de prosseguir, é interessante dar um passo atrás e compreender por que a IA tem atraído tamanha atenção. Essa tecnologia tem como base uma área da ciência da computação que procura imitar o funcionamento da inteligência humana. As pesquisas na área usam algoritmos potentes, capazes de digerir grandes quantidades de dados e identificar padrões – que, por sua vez, podem ser usados para prever (digamos) o que os consumidores vão comprar ou para oferecer outras sacadas importantes. O aprendizado de máquinas é uma subdivisão da IA: nela, algoritmos capazes de identificar padrões cada vez mais precisos aprendem por conta própria, sem a necessidade de serem explicitamente programados para fazê-lo. O aprendizado de máquinas permite, entre outras coisas, oferecer proteção em tempo real contra transações financeiras fraudulentas.

Do ponto de vista histórico, a inteligência artificial parece nunca ter atendido a todas as expectativas criadas ao seu redor. Ainda estamos longe de travar uma conversa natural com um computador, como as que temos na vida real, ou de ter carros autônomos realmente seguros. Até mesmo o trabalho de aprimorar algoritmos menos avançados esbarra em conjuntos de dados limitados e na ausência de um poder de computação capaz de ganhar grande escala.

Mesmo diante dessas dificuldades, o ambiente de startups de inteligência artificial do Vale do Silício segue pujante. Segundo o Crunchbase, existem 5.751 empresas privadas de IA nos Estados Unidos – e em 2019 o setor recebeu US$ 17,4 bilhões em novos investimentos. Já a International Data Corporation (IDC) previu recentemente que os gastos mundiais com inteligência artificial vão atingir US$ 96,3 bilhões em 2023 – comparados aos US$ 38,4 bilhões registrados em 2019. Uma pesquisa da Gartner com diretores e líderes de áreas de TI, realizada em fevereiro deste ano, mostrou que as empresas planejam dobrar o número de projetos de IA, e mais de 40% das companhias pretende colocar em prática pelo menos uma dessas iniciativas até o fim de 2020.

Agora que a pandemia está acelerando a necessidade de implantar essa tecnologia, é provável que essas previsões se mostrem equivocadas – para baixo. As chamadas “Big Techs” – grandes corporações do setor tecnológico – já demonstraram que a inteligência artificial pode ser extremamente útil no combate ao coronavírus. Exemplo disso é a parceria entre a Amazon.com e alguns pesquisadores para identificar grupos populacionais vulneráveis e agir como uma espécie de sistema de alerta precoce em caso de novos surtos no futuro. A BlueDot, startup que está na carteira de clientes da Amazon Web Services, usou aprendizado de máquina para analisar quantidades monumentais de dados online e prever a disseminação do vírus na China.

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Além disso, as situações de lockdown causadas pela pandemia tiveram grandes impactos nos padrões de consumo – e isso também pode impulsionar o crescimento e o avanço da IA. Basta olhar para o setor de e-commerce: os consumidores têm feito cada vez mais compras pela internet, pois querem evitar o risco de ir pessoalmente às lojas. Essa tendência coloca nas mãos do varejo uma quantidade muito maior de dados sobre preferências e hábitos de compras.

Dados internos do Bank of America sobre gastos de cartão no e-commerce indicam um salto de 13% na receita em janeiro, 17% em fevereiro, 24% em março, 73% em abril e 80% em maio, na comparação com os mesmos meses de 2019. Os dados gerados por todas essas operações são uma mina de ouro para empresas de inteligência artificial. Eles alimentam e aprimoram os algoritmos usados para oferecer recomendações personalizadas a cada usuário – e, consequentemente, aumentar as vendas. O crescimento das atividades pela internet também reforça o argumento de quem defende a adoção de assistentes virtuais de atendimento ao cliente.

A International Business Machines Corporation calcula que apenas 20% das empresas usam esse tipo de tecnologia de IA no momento. A IBM também prevê que quase todas as organizações irão adotar assistentes virtuais nos próximos anos. Quando o computador cuida de casos mais simples, os atendentes de carne e osso podem se concentrar nas interações mais complexas com os clientes – o que tende a melhorar a qualidade do serviço e a satisfação de quem o utiliza.

Outra área que traz oportunidades é o trabalho remoto. Neste momento em que as empresas se organizam para o retorno dos funcionários ao escritório, softwares de automação que usam IA podem passar a ser bem-vindos para resolver tarefas mais simples, como digitar dados num sistema. Com eles, é possível fazer a leitura de notas fiscais e atualizar bancos de dados sem intervenção humana. Isso reduz a necessidade de alguns tipos de trabalho presencial e, de quebra, aumenta a precisão do processo. De acordo com o Goldman Sachs, os três maiores fornecedores desse tipo de serviço são UiPath, Automation Anywhere e Blue Prism, que juntos representam 36% de um mercado de US$ 850 milhões (em números de 2019).

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Há projetos ainda mais criativos de IA no horizonte. A NVIDIA Corporation, que produz semicondutores para unidades de processamento gráfico (ou GPUs, na sigla em inglês), e a montadora BMW anunciaram recentemente uma parceria para fabricar carros sob medida para o consumidor, usando robôs controlados por IA. Em meados de maio, o Facebook anunciou que está desenvolvendo um assistente de estilo que pode sugerir peças de roupa ou escolher móveis com base no gosto pessoal do usuário e na configuração dos cômodos da casa.

Como costuma ocorrer quando qualquer nova tecnologia é adotada por um grande número de pessoas, esse movimento terá vencedores e perdedores. Na primeira categoria ficarão os fornecedores de serviços de computação na nuvem, que coletam cada vez mais dados. A IDC afirma que a Amazon Web Services é a empresa número um desse setor: em 2019, ela detinha 47% de participação de mercado, seguida pela Microsoft, com 13%.

A NVIDIA, porém, pode estar numa situação ainda mais privilegiada, operando na intersecção entre nuvem e inteligência artificial: sua tecnologia de chips para GPUs, até pouco tempo usada primordialmente em videogames, transformou-se na principal plataforma para aplicações de inteligência artificial. A NVIDIA também produz unidades de processamento gráfico de grande potência, e com isso consegue dominar um mercado crucial para as empresas de computação na nuvem.

Recentemente a empresa lançou novos chips para centros de processamento de dados, que contam com a novíssima arquitetura “Ampere” da marca. Assim, a capacidade de aprendizado de máquina oferecida aos desenvolvedores cresce na proporção do que os matemáticos chamam de “função escada”.

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Por outro lado, fornecedores de equipamento e software tradicionais, para serem usados em escritórios, correm grande risco de ficar para trás. Nesta categoria estão marcas como a Hewlett Packard Enterprise Company e a Cisco Systems, Inc., que fabrica roteadores.

Além disso, há que considerar as consequências mais perversas desse renascimento da inteligência artificial. Elas incluem questões complexas relacionadas a obstáculos éticos, perda de postos de trabalho, proteção à privacidade e ao viés que pode contaminar as máquinas. Qualquer aumento na automação pode ter efeitos sobre empregos, já que softwares e robôs substituem tarefas até então realizadas por seres humanos. E, à medida que cada vez mais dados são armazenados na nuvem, o risco de grandes violações também aumenta.

Por isso, executivos de tecnologia e de outros setores precisam estar muito atentos à tarefa essencial de garantir o mais alto grau de segurança. Além disso, as empresas têm de assegurar que os algoritmos não discriminem minorias – e isso começa com um monitoramento cuidadoso das tecnologias usadas atualmente, bem como com uma compilação de conjuntos de dados mais precisos.

Mesmo diante de todas essas questões, os aspectos positivos de aumentar o poder computacional, de contar com mais informações de negócios e melhorar a eficiência de custos não podem ser ignorados. Se as empresas agirem de forma responsável, em alguns anos poderemos ver que os avanços na inteligência artificial, impulsionados pelo coronavírus, talvez tenham sido o lado bom das nossas
lembranças de 2020.

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(Tradução: Beatriz Velloso)

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