B3 prepara contratos de previsão sobre dólar, Ibovespa e bitcoin; XP firma parceria com Kalshi. Foto: Adobe Stock
Os mercados de previsão (prediction markets, em inglês) se popularizaram nos Estados Unidos. Em plataformas como Kalshi e Polymarket, já é possível especular sobre praticamente tudo – vencedores do Oscar, decisões de juros, previsão do tempo e até se os EUA confirmarão a existência de alienígenas antes de 2027. Agora, esse nicho se prepara para entrar no Brasil por meio do setor financeiro.
Nos Estados Unidos, os mercados preditivos ganharam espaço em diferentes ambientes. Probabilidades da Polymarket já foram exibidas no Globo de Ouro, e veículos como CNN e CNBC firmaram parcerias com a Kalshi.
No início de março deste ano, a Nasdaq também solicitou aprovação da Securities and Exchange Commission (SEC), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) dos EUA, para lançar opções de mercados de previsão no índice Nasdaq 100 e no mini-índice Nasdaq 100.
Os contratos preditivos chegaram até o Federal Reserve (Fed). Em fevereiro, um estudo sobre a Kalshi foi publicado no site do banco central americano e sinalizou que a plataforma pode ser valiosa tanto para pesquisadores quanto para formuladores de políticas públicas.
Mercados de previsão chegam ao Brasil
A B3 recebeu autorização da CVM para lançar contratos de previsões sobre cotações de Ibovespa, dólar e bitcoin. Os produtos devem ser disponibilizados em abril. A Bolsa brasileira ainda trabalha para conseguir a mesma liberação para contratos ligados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e ao Produto Interno Bruto (PIB).
A autorização dada à B3, por enquanto, restringe esse mercado a investidores profissionais (aqueles que têm mais de R$ 10 milhões investidos). Mas a Bolsa quer avançar além desse público.
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“Entendemos que essa limitação apenas a investidores profissionais gera uma restrição aos investidores pessoa física, que têm muito interesse nesse perfil de produto”, afirmou Luiz Masagão, vice-presidente de Produtos e Clientes da B3, em conversa com jornalistas.
Segundo ele, os contratos preditivos são mais simples do que os contratos futuros – já liberados para pessoas físicas –, pois neles não há risco de perder mais do que o valor pago inicialmente.
Na segunda-feira (9), foi a vez da XP anunciar a sua entrada no segmento. Por meio de uma parceria com a Kalshi, clientes da marca Clear que possuem conta de investimento internacional na XP International passam a ter acesso aos contratos preditivos. Inicialmente, o foco está em eventos financeiros e econômicos. Desde o anúncio, a Clear tem disponibilizado vídeos sobre o tema em seu canal no YouTube.
Ao E-Investidor, a CVM informou que acompanha a evolução de iniciativas no mercado de capitais e que está permanentemente modernizando a regulamentação e a supervisão, em função de fatores como inovação e demandas de agentes de mercado.
A fronteira entre apostas e o mercado financeiro
No Brasil, ainda não existe uma manifestação definitiva do poder público sobre os contratos preditivos. “No contexto atual, as plataformas do nicho não são expressamente legalizadas, mas também não são proibidas”, diz Filipe Senna, sócio do Jantalia Advogados e especialista em Direito de Jogos e Apostas.
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Ele avalia que contratos preditivos sobre eventos esportivos tendem a ser tratados como apostas, sob a supervisão da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), enquanto os ligados ao mercado financeiro ficariam sob responsabilidade da CVM.
André Santa Ritta, sócio do Pinheiro Neto Advogados, acredita que não existirá uma regulação única para os contratos preditivos: cada lei dependerá do tipo de evento envolvido.
“Como os mercados preditivos são mais abrangentes do que as apostas, não dá para pegar tudo que tem no mercado preditivo e enquadrar como aposta. Mas também não dá para classificar tudo do mercado preditivo como ativo financeiro”, afirma Santa Ritta.
Ele nota similaridades entre as apostas e os mercados de previsão ligados a esportes. Segundo ele, a distinção frequentemente apontada – de que apostas são feitas contra a casa, enquanto mercados preditivos seriam entre pessoas – só é parcialmente correta, já que a regulamentação também permite apostas entre usuários em eventos esportivos.
As bets já têm se posicionado sobre o tema. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa cerca de 75% do mercado brasileiro de apostas, solicitou uma manifestação formal ao Ministério da Fazenda sobre as plataformas preditivas.
Em nota, o IBJR afirma que, se o nicho se desenvolver sem uma regulação clara no Brasil, as consequências serão negativas: concorrência desleal, fragilização da proteção ao consumidor, ameaça à integridade esportiva e perda de arrecadação fiscal.
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André Gelfi, diretor, conselheiro e cofundador do IBJR, avalia que os contratos preditivos esportivos são, na prática, uma aposta com “embalagem nova”. “Aguardamos uma manifestação formal por parte do Ministério da Fazenda com certa apreensão. Estaremos diante de um quadro delicado se não houver uma regulamentação equivalente”, ressalta.
Em nota, o Ministério da Fazenda informou que a SPA acompanha o tema e realiza estudos preliminares sobre o mercado de previsões. Segundo a pasta, não há empresas brasileiras formalmente autorizadas pela secretaria a atuar nesse segmento, e eventuais decisões regulatórias dependerão da conclusão de análises, em articulação com órgãos como a CVM.
Nos Estados Unidos, os mercados de previsão são regulados pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), responsável por supervisionar os mercados de derivativos. Ainda assim, o modelo enfrenta disputas legais. Estados – que têm autonomia para autorizar e regular apostas – vêm contestando esses mercados, argumentando que as plataformas deveriam seguir as mesmas regras aplicáveis às empresas tradicionais de bets.
Copa e eleições podem popularizar os mercados de previsão
O ano de 2026 pode representar um marco para o desenvolvimento dos mercados de previsão no Brasil, com a Copa do Mundo e as eleições presidenciais.
Para Fabrício Tota, VP de Negócios Cripto do Mercado Bitcoin (MB), a consolidação do mercado deve ser gradual, com três desafios a serem superados: ganhar atenção do grande público, explicar bem o produto e atrair liquidez.
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Tota afirma que, embora a prioridade de negócio do MB siga no ramo de criptomoedas, a empresa acompanha de perto os mercados preditivos. “Esse nicho conecta três pilares em que temos experiência: mercado, dados e infraestrutura cripto”, ressalta.
Ele também observa uma proximidade entre os mercados preditivos e o universo das criptomoedas, dado que o público cripto já está acostumado a lidar com produtos novos e mercados em fase de experimentação. Além disso, há uma convergência na infraestrutura: plataformas como a Polymarket já utilizam tecnologia blockchain para operar.
Na avaliação de Leonardo Santana, sócio da casa de análise Top Gain, nesta fase inicial é essencial garantir educação financeira sobre o produto. “O investidor deve evitar exposição excessiva e observar o risco da volatilidade, pois novas informações podem alterar rapidamente a probabilidade de determinado evento”, destaca.
Anderson Kuntzler, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School, destaca que o investidor precisa entender bem as regras: o pagamento só ocorre se o evento definido for cumprido exatamente como previsto, o que exige atenção a datas, fontes e métricas utilizadas.
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“A gestão de risco deve incluir diversificação por eventos e prazos nos mercados de previsão, além de atenção à liquidez, especialmente no início desse segmento”, afirma.