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Comportamento

Mulheres são apenas 8% do setor de gestão de investimentos

Dentre os profissionais que têm a certificação mais avançada do mercado, apenas 519 são mulheres

Por Marília Almeida

09/03/2026 | 17:27 Atualização: 09/03/2026 | 18:28

Ana Toledo, CEO da Hyperion Asset: uma das 519 mulheres a ter a certificação CGE, a mais avançada do mercado
Ana Toledo, CEO da Hyperion Asset: uma das 519 mulheres a ter a certificação CGE, a mais avançada do mercado

CPA-10, CPA-20 e até CEA. As mulheres já são bem representadas nos níveis de especialistas: do total de profissionais certificados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) até 2025, 52%, 47% e 42% são mulheres, respectivamente. O problema aparece quando se sobe para os níveis de gestão.

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Do total de profissionais com certificações CFG, CGA e CGE, que dão o direito de gerir carteiras administradas, fundos de investimentos, abrir uma gestora e sentar no lugar onde as decisões sobre o dinheiro das famílias brasileiras são tomadas, apenas entre 8% e 9% são mulheres. Ou seja, 882 quando se trata da CFG, 640 quando se olha a CGA e 519 quando se trata da CGE. Já foi pior, e andou pouco: uma década antes, as mulheres eram 7% dos profissionais certificados com a CGA. Naquela época, o porcentual significava 180 profissionais.

Ana Toledo, CEO da Hyperion Asset, é uma das 519 mulheres no país com a certificação mais avançada do mercado, a CGE. A executiva chegou ao mundo dos fundos por meio de um family office especializado em recuperação de ativos estressados. Foi promovida a CFO e passou a liderar toda a operação de back office dos FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) do grupo. Produtos com alta complexidade, para geri-los, é necessária a certificação mais avançada, a CGE. Toledo tirou as três certificações de gestão conciliando estudos e o trabalho CFO. Posteriormente, montou sua própria gestora, que tem atualmente cerca de R$ 32 bilhões em ativos sob gestão.

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Fernanda Mateus, gerente de Educação da Anbima, explica que a certificação CGA exige preparação técnica intensa e aprofundada. Portanto, à medida que mais mulheres avançam em posições de base, intermediárias e gerência, o setor passa a ter uma trajetória feminina mais ampla rumo às credenciais de maior complexidade. “Esse movimento é geracional e acompanha a maior participação das mulheres nas trilhas técnicas do mercado”.

O panorama atual aponta alguma evolução. Nas certificações de distribuição ela reforça que já existe maior equilíbrio e, no caso da CPA-10, vantagem feminina: são aproximadamente 151 mil mulheres certificadas contra 129 mil homens. Além disso, as mulheres vêm aumentando sua participação ano a ano em todas as certificações, fortalecendo a base que permite o avanço para etapas mais exigentes.

Portanto, a entrada no setor financeiro já é diversa, conclui, mas a progressão ainda é impactada por fatores estruturais presentes em todo o mercado de trabalho, como interrupções profissionais, desigualdade na divisão de responsabilidades e ambientes historicamente pouco receptivos às mulheres. “Esse quadro tem evoluído de forma gradual e geracional, acompanhando mudanças culturais e esforços crescentes das instituições em promover ambientes mais inclusivos”.

O avanço, segundo Mateus, depende de iniciativas estruturadas, como programas de desenvolvimento técnico, mentorias, trilhas claras de progressão, compromissos formais de diversidade e oportunidades concretas de acesso. Há um compromisso de todo o setor, e também da Anbima, em promover essas ações, além de parcerias com universidades e iniciativas como o Fin4She, que fortalecem o desenvolvimento de mulheres em carreiras ligadas ao mercado financeiro.

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Vivian Lee, gestora de crédito, lembra que há 10 anos não existiam iniciativas para trazer mulheres para o mundo de investimentos. “Hoje vejo projetos como o da Bloomberg, da CFA, Women Invest e Fin4She, além das próprias instituições financeiras, que têm fomentado a questão de gênero nas contratações. Espero que esse percentual aumente nos próximos anos e vire um ciclo virtuoso, pra trazer mais diversidade para o mundo de investimentos”.

Protagonista

Ana Rodela, CIO de uma das maiores gestoras de investimento do Brasil, a Bradesco Asset (Bram), é uma dessas poucas mulheres no cargo em grandes bancos no país. Antes dela, Luciane Ribeiro foi CEO da gestora do Santander, em 2009.

Rodela aponta diversos motivos para a barreira. Primeiro, é necessário ponderar a origem de muitas das gestoras de recursos do País. Muitas casas que cuidam especialmente de fundos multimercados e de renda fixa foram montadas por grupos de executivos que trabalhavam na tesouraria de grandes bancos em uma época na qual esse ambiente ainda era muito masculino. Já em áreas como crédito e renda variável, a presença de mulheres é maior.

A executiva também cita lideranças que vieram de um momento do mercado menos diverso e resistem a mudar como um dos pontos que travam a evolução da questão de gênero no segmento. “Muitos têm a percepção de que a mulher não é tomadora de risco, o que seria algo que poderia interferir no seu desempenho à frente dos fundos. Eu mesma já ouvi isso de um chefe meu”.

Por fim, outro fator que pesa bastante para a lentidão de mudanças é o fato de que é um setor no qual as indicações são muito relevantes. “São cargos matemáticos e muito técnicos. Dificilmente você consegue medir isso em uma entrevista. Então, depende de proximidade e confiança. Como homens tendem a se aproximar de outros homens, e são maioria no mercado, as vagas acabam sendo preenchidas por homens”.

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Como CIO do banco, posição conquistada há um ano, Rodela exige que os funcionários tragam currículos de mulheres, e não apenas homens, para as vagas na equipe. “Pelo menos tem de ser proporcional ao número de mulheres no mercado. O que não pode é ser zero. Se não há essa provocação, a situação não muda”.

Rodela iniciou sua carreira como analista de crédito em um banco sob a liderança de uma mulher. “Foi inspirador ter uma liderança feminina dentro de um universo masculino”. Na Bram, entrou para montar área de análise de crédito. Após muito tempo como diretora, não queria uma posição de gestão. “Quem agregava valor ao fundo era o analista, pois conseguia desviar dos casos ruins, enquanto a gestão comprava e mantinha a posição por um longo tempo, já que faltava um mercado secundário ativo”.

Até que o mercado foi avançando e dando mais oportunidades para gestores ativos. Quando o Bradesco comprou o HSBC e realizou um programa de demissão voluntária, o gestor de crédito do HSBC pediu para sair. A vaga ficou aberta durante meses. Nesse ínterim, não procuraram Rodela. A executiva foi falar com o CEO sobre o seu interesse pela vaga. “Disse que eu tinha perfil para o cargo, pois sempre fui uma analista participativa nas discussões sobre a gestão”. I

Segundo Rodela, a situação comprova o que vemos em pesquisas: o fato de que mulheres não se consideram qualificadas. “Vale a pena arriscar. Temos de nos expor mais para conseguir oportunidades”. Já quando foi promovida a CIO da asset, em fevereiro de 2025, o executivo que estava no cargo a chamou para assumir o seu lugar.

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Rodela sente o receio das mulheres quando precisa preencher vagas em sua equipe, seja para fazer algo diferente do que estão acostumadas ou sobre a necessidade de se dedicar à gestão. “É um cargo em que você não desliga. Por isso, você precisa ter apoio na vida pessoal. Eu não tenho filhos, e quando assumi o meu cargo atual tive de conversar com o meu marido de que ele precisaria assumir a administração da casa. Ele aceitou e foi super parceiro”.

 

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