Essa acomodação da volatilidade traz uma sinalização importante para o investidor: a aversão ao risco pode ter atingido um ponto de esgotamento. A principal dúvida, agora, é por quanto tempo esse movimento de consolidação se sustenta e se existem catalisadores capazes de alterar a trajetória do ativo no curto prazo.
Dados da plataforma cripto SosoValue mostram que, em fevereiro, os ETFs de bitcoin à vista registraram uma saída líquida de US$ 916,11 milhões. Essa pressão vendedora, no entanto, tem sido parcialmente compensada pelas Bitcoin Treasury Companies, como são definidas as empresas que adotaram a criptomoeda como ativo de reserva em suas tesourarias.
Na semana passada, a Strategy (MSTR) deu continuidade às compras de BTC e anunciou a aquisição de 2.486 BTCs por US$ 168,4 milhões, elevando o estoque para 717.131 unidades do ativo.
“Além disso, um fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos elevou sua exposição a Bitcoin para cerca de US$ 1 bilhão durante a queda. Esses movimentos reforçam a visão de longo prazo e a tese de ativo escasso como instrumento de diversificação estratégica”, diz Rony Szuster, head de research do Mercado Bitcoin.
O mercado permanece incerto quanto ao início do ciclo de corte de juros pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA). A ata da última reunião, divulgada na quarta-feira (18), indicou que alguns dirigentes veem espaço para redução dos juros se a inflação convergir para a meta de 2%, mas a maioria alertou que esse progresso pode ser lento.
“A postura “hawkish” (rigorosa) de parte do Fed, que sugere juros altos por mais tempo, retira liquidez dos ativos de risco. O suporte imediato situa-se na região dos US$ 66.000, e a ausência de um catalisador positivo nas atas sugere uma fase de consolidação ou correção técnica de curto prazo”, diz André Franco, CEO da Boost Research.
Em paralelo, a escalada das tensões geopolíticas envolvendo os Estados Unidos e o Irã tem elevado o prêmio de risco global. O presidente dos EUA, Donald Trump, enviou um porta-aviões e outros ativos militares ao Golfo Pérsico e sinalizou a possibilidade de atacar o Irã diante da morte de manifestantes ou de eventuais execuções em massa. Um segundo porta-aviões está na costa do Marrocos, possivelmente a caminho do Mediterrâneo oriental.
Diante da combinação desses fatores, Szuster avalia que uma mudança do direcionamento do ativo digital dependerá da trajetória da inflação, estabilidade geopolítica e da normalização dos fluxos institucionais em direção aos ETFs de bitcoin. “Até lá, o ambiente exige seletividade, disciplina tática e gestão ativa de risco”, destaca o especialista.