Cobrança do IOF não muda avanço das stablecoins no Brasil, diz Crypto Finance Group
Para Stijn Vander Straeten, o Brasil já figura entre os mercados de criptomoedas mais maduros do mundo, impulsionado pelo avanço regulatório e pelo aumento da demanda institucional
Stijn Vander Straeten é CEO da Crypto Finance Group, empresa suíça de ativos digitais e que faz parte do grupo Deutsche Börse (Foto: Crypto Finance Group)
A Crypto Finance Group, empresa suíça de ativos digitais que integra o Grupo Deutsche Börse, chega ao Brasil com a proposta de fornecer a bancos e gestoras de investimentos a infraestrutura necessária para que essas instituições possam oferecer criptomoedas a seus clientes. A expansão ocorre em um momento de alta volatilidade para a indústria de cripto, impactada pelo cenário macroeconômico bastante incerto para ativos de risco.
Ainda assim, o grupo suíço avalia o País como um mercado estratégico, sobretudo pelo tamanho e pela relevância do Brasil no universo cripto. Segundo a companhia, os brasileiros respondem por cerca de 30% a 35% da atividade cripto da América Latina, com mais de US$ 318 bilhões movimentados entre 2024 e 2025. Esse volume representa quase um terço de toda a atividade on-chain (dentro da rede blockchain) registrada na região no mesmo período.
“Grandes bancos já estão operando ou se preparando para lançar serviços relacionados à cripto. Isso mostra que esse mercado deixou de ser um experimento voltado apenas ao varejo e já se tornou institucional”, afirma Stijn Vander Straeten, CEO da Crypto Finance, em entrevista ao E-Investidor.
O novo arcabouço regulatório, apresentado pelo Banco Central (BC) em novembro do ano passado, também reforça o protagonismo do Brasil tanto no cenário regional quanto global. Para o executivo, o conjunto de regras traz segurança jurídica e cria uma ambiente mais favorável para as operações no país. “Para nós, é fundamental saber qual é o arcabouço regulatório em que estamos operando e para os bancos também”, acrescenta.
O otimismo permanece mesmo com uma eventual cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre as transações envolvendo as stablecoins dolarizadas, como são chamadas os ativos digitais que replicam o poder de compra da moeda americana ou de outras moedas fiduciárias, como o real.
Como mostramos nesta reportagem, entre as diretrizes estão o enquadramento das movimentações com criptos que envolvam pagamentos internacionais nas regras do mercado de câmbio e capitais internacionais. A medida abriu espaço para a Receita Federal (RF) aplicar a cobrança do imposto sobre essas operações.
“Se houver mudanças na tributação, os bancos incorporam isso em seus modelos de precificação. A cobrança do imposto sobre operações financeira (IOF) não altera o papel estrutural das stablecoins no Brasil”, destaca o executivo.
A empresa anuncia oficialmente a sua entrada no mercado nacional e em outros países como Argentina e México, durante a sua participação no MERGE, conferência internacional focada em ativos digitais que tem início nesta terça-feira (17), em São Paulo (SP).
E-Investidor – Por que o Crypto Finance Group decidiu expandir suas operações em um momento de maior aversão ao risco no mercado?
Stijn Vander Straeten – Estou bastante tranquilo em relação aos ciclos de mercado. A volatilidade faz parte do universo cripto e já vimos isso muitas vezes antes. Quando olho para o Brasil, vejo um dos maiores mercados de cripto do mundo. A adoção é real. Grandes bancos já estão operando ou se preparando para lançar serviços relacionados à cripto. Isso mostra que esse mercado deixou de ser um experimento voltado apenas ao varejo e já se tornou institucional. Hoje, os bancos entendem que o tema envolve infraestrutura de blockchain, stablecoins e tokenização, e não apenas o preço do bitcoin. Essa decisão também reflete uma visão estratégica de longo prazo. Dentro da Deutsche Börse Group, ativos digitais são um dos quatro pilares estratégicos.
O que diferencia o Brasil de outros mercados importantes da região, como México e Argentina, em termos de maturidade institucional, regulação e demanda por ativos digitais?
O Brasil é nossa principal prioridade porque é o maior mercado da região e um dos maiores do mundo em termos de adoção e maturidade em cripto. O nível de atividade é significativo e grandes empresas listadas em bolsa e gestores de ativos já começaram a incorporar ativos digitais em seus balanços e estratégias. Além disso, o País se destaca por já ter uma adoção ampla de cripto e um alto nível de maturidade institucional. O volume negociado foi de aproximadamente US$ 318,8 bilhões entre 2024 e 2025, representando quase um terço de toda a atividade on-chain da América Latina nesse período. O Brasil também introduziu recentemente novas regulamentações para cripto. Regras claras trazem segurança e estabilidade.
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Então, o Brasil se tornou mais atrativo após o anúncio do novo marco legal para criptoativos?
Sim. O novo marco regulatório traz segurança jurídica e previsibilidade ao mercado. Regras claras geram confiança, reduzem a incerteza e permitem que bancos, gestores de ativos e outras instituições financeiras estruturem ofertas de criptoativos, como custódia e negociação, dentro das exigências regulatórias. Para nós, é fundamental saber qual é o arcabouço regulatório em que estamos operando, para os bancos também.
Como o Crypto Finance Group avalia o potencial do mercado brasileiro para soluções de pagamento baseadas em cripto, considerando a discussão sobre a possível taxação de 3,5% nas transações com stablecoins?
Mesmo diante de discussões regulatórias, como um possível imposto sobre transações com stablecoins, nossa avaliação permanece de longo prazo. Nosso modelo de negócios não se baseia em arbitragem regulatória. Trabalhamos exclusivamente com clientes institucionais e sempre dentro das regras locais. Se houver mudanças na tributação, os bancos incorporam isso em seus modelos de precificação. A cobrança do imposto sobre operações financeira (IOF) não altera o papel estrutural das stablecoins no Brasil.