Segundo analistas, o principal entrave para uma retomada consistente está no cenário macroeconômico adverso, que tem reduzido o apetite a risco dos investidores. Em janeiro, o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) interrompeu o ciclo de queda de juros e decidiu manter as taxas inalteradas entre 3,50% e 3,75%. A autoridade monetária ainda descartou a possibilidade de uma retomada dos cortes no curto prazo.
Com a perspectiva de juros elevados por um período ainda indeterminado, os títulos do governo continuam a oferecer retornos mais atrativos, enquanto ativos mais voláteis, como o bitcoin, tendem a perder espaço nos portfólios. “O custo de capital permanece alto e o apetite por risco tende a ser limitado”, afirma Rony Szuster, Head de Research do MB.
Além do aperto monetário, o aumento das tensões geopolíticas também pesa sobre o desempenho do bitcoin. Em janeiro, os episódios como a prisão de Nicolás Maduro durante uma operação militar dos Estados Unidos e o desejo de Trump em anexar a Groenlândia ao território norte-americano elevaram a instabilidade global.
Embora esses eventos não tenham relação direta com os fundamentos do BTC, o amadurecimento do mercado cripto o deixou mais vulnerável ao humor dos investidores tradicionais que monitoram de perto a escalada do risco global. “Em episódios de estresse, o BTC ainda se comporta como um ativo de risco, acompanhando movimentos de queda observados também em bolsas e outros mercados”, diz Rony Szuster, Head de Research do MB.
A combinação desses catalisadores resultou na realocação de capital dos investidores, especialmente dos institucionais. Dados da plataforma SosoValue mostram que, desde novembro do ano passado, os ETFs de bitcoin à vista acumulam saídas líquidas superiores a US$ 6 bilhões. “Esse movimento reduziu a liquidez e deixou o bitcoin mais vulnerável a oscilações bruscas no curto prazo”, afirma Guilherme Prado, country manager da Bitget.
Agenda regulatória no radar
O mercado cripto também aguarda avanços regulatórios vindos do governo dos Estados Unidos. Quando Trump voltou à presidência dos EUA, prometeu criar um ambiente mais favorável para o setor de criptoativos. A ideia, segundo o republicano, era viabilizar o crescimento da indústria dentro do solo americano.
Em março do ano passado, o presidente americano fez um dos seus primeiros acenos e anunciou a criação de uma reserva estratégica de bitcoin, formada apenas por ativos detidos pelo governo federal em processos legais. Na época, a ordem executiva foi interpretada como um reconhecimento do bitcoin como ativo de reserva pela maior economia do mundo.
Já em julho do mesmo ano, Trump também assinou a GENIUs Act, lei que criou o primeiro marco regulatório de criptoativos ao estabelecer uma série de regras para a emissão de stablecoins – moeda digital atrelada a uma reserva de ativos “estáveis” – no mercado americano. A nova legislação passou a exigir que esses tokens tenham garantia de reserva com ativos líquidos, como dólares americanos ou títulos do Tesouro.
Para 2026, a atenção do mercado se volta para aprovação da Clarity Act, projeto de lei que busca definir de forma mais objetiva como os ativos digitais devem ser classificados, além de esclarecer o papel dos reguladores e estabelecer regras mais transparentes para o funcionamento do mercado. O texto foi aprovado na Câmara dos Representantes em julho do ano passado, mas falta passar pelo crivo do Senado.
“A falta de clareza regulatória ainda limita a entrada de capital institucional mais amplo e mantém incertezas sobre o tratamento legal dos criptoativos”, destaca Szuster.