Caso Master leva Anbima a rever uso do FGC e prioridades: veja as preocupações para 2026
Enquanto o mercado de fundos vai bem, com recuperação até dos multimercados e ações, atenção se volta à discussão sobre modelo regulatório entre CVM e BC; um "efeito colateral" do caso Master
A Anbima é a a associação que representa as instituições do mercado de capitais brasileiro. (Foto: Divulgação/Anbima)
A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) promove todo início de ano um encontro do colegiado de diretores com a imprensa para apresentar a agenda de prioridades da instituição e debater o cenário à frente para a indústria de fundos de investimento.
Em 2025, boa parte das prioridades estava ligada ao mau momento vivido pelos fundos multimercados e de ações, com resgates bilionários. Para 2026, no entanto, a agenda – ou, ao menos, as preocupações – parece não estar tanto no produto em si, mas no contexto atual do mercado de capitais brasileiro.
Não é para menos. Os escândalos deflagrados desde o ano passado, com a Operação Carbono oculto e a liquidação do Banco Master, do Will Bank e da Reag Trust DTVM geraram uma série de efeitos em cadeia. Entre eles, está a discussão sobre o papel dos agentes reguladores e o que é possível fazer diferente para que fraudes bancárias não contaminem o sistema e não tenham tanto impacto no investidor final.
Isso passa diretamente pelo papel da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central, que iniciaram 2026 com uma discussão em relação ao melhor modelo regulatório para o País. Como mostrou o Estadão, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, quer passar a fiscalização dos fundos, hoje feita pela CVM, para o comando do BC.
Esse modelo “dividido” é chamado de twin peaks e é adotado em alguns mercados internacionais, ainda que não seja um consenso. Mas a Anbima se preocupa que eventuais propostas de revisão do arcabouço regulatório estejam na mesa como um “efeito colateral” dos episódios recentes. E ainda não tem um posicionamento se é contra ou a favor da mudança no modelo.
“Tudo que fortaleça a capacidade do mercado de ter regulação mais forte e mais bem estruturada é super saudável e apoiamos. Mas é importante que esse debate seja baseado em evidências e argumentos técnicos, e não em uma reação ao calor de determinado evento”, disse Carlos André, presidente da Anbima e vice-presidente executivo de Wealth Management do Santander, no encontro realizado nesta quarta-feira (4).
“Dificilmente um arcabouço regulatório vai estar 100% preparado para detectar fraudes premeditadas.”
A Anbima funciona como um auto regulador, cujo trabalho vem para complementar a regulação da CVM e do BC. E chama a atenção para um outro ponto: o enfraquecimento das instituições nos últimos anos.
O mercado de capitais cresceu muito, mas as autarquias encolheram. A CVM, por exemplo, opera com o colegiado reduzido e só 379 inspetores para fiscalizar R$ 42 trilhões em ativos. “Mais importante do que o formato do arcabouço regulatório são as instituições estarem fortalecidas para exercer esse papel. Esse é o pré-requisito de qualquer estrutura”, destaca André.
Melhorias nas regras de distribuição e de suitability
O executivo explicou que a instituição tem trabalhado internamente para identificar possíveis pontos de melhoria para fortalecer os mecanismos de regulação. Entre as medidas que já foram implementadas, a Anbima revisou o código de distribuição dos produtos para deixar mais claro que a venda de ativos ligados a depósitos de instituições financeiras não pode ser feita utilizando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como principal argumento comercial.
Foi o que aconteceu amplamente no caso dos Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) do Master.
O código de processos, que estabelece os ritos a serem seguidos quando a instituição abre uma investigação ou uma ação sancionadora contra uma instituição, também está sendo estudado. O objetivo é identificar pontos de melhoria, que possam dar à autarquia mais celeridade na capacidade de conclusão das investigações abertas. “Alguns que estão hoje na imprensa, como Master e Reag, foram alvo de processos da Anbima, que ocorreram com base em nossa capacidade de supervisão e tiveram punições”, afirma Carlos André.
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A pauta da distribuição puxa uma outra discussão: suitability (processo de adequação dos investimentos ao perfil do investidor). O caso do Master deixou claro que o modelo atual, muito focado no risco, pode já não ser mais tão efetivo. O banco teve por muito tempo bom rating de crédito, era um ativo de renda fixa, com cobertura do FGC – a princípio, era razoável que fosse distribuído como um título de baixo risco, destacou o presidente da Anbima.
Aprimorar as regras atuais de suitability é uma meta da agenda regulatória de 2026 da CVM – e a Anbima também está envolvida nessa discussão. É um segundo passo de um esforço que começou antes, com o início da CVM 179, medida que trouxe mais transparência de remuneração de distribuição de um produto.
São avanços interligados, explicou Luciane Effting, presidente do Fórum de Distribuição da Anbima e chefe do Santander AAA. “Vamos nos debruçar sobre a pauta de conduta e segurança, para entender como podemos avançar, como auto regulador, para garantir que o distribuidor trabalhe para o melhor interesse do investidor“, pontua.
Os trabalhos em parceria com a CVM para modernizar as regras de suitability vão na linha de que a classificação de risco não seja apenas ligada a um ativo, mas à composição do portfólio do cliente. Isso evitaria, por exemplo, que um investidor tenha a carteira muito concentrada em um CDB que possa eventualmente ter problemas, ainda que a sua classificação de risco seja compatível com a do ativo.
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“O objetivo é que o suitability vá muito além de uma simples ferramenta para determinar o apetite a risco do investidor”, diz Effting.
A parte boa: a indústria de fundos deve continuar indo bem
Há um ano, a Anbima estava mais preocupada com os fundos de risco no País; relembre aqui. A indústria como um todo vinha de anos de crescimento, mas com a renda fixa como a grande protagonista da captação positiva. Multimercados e fundos de ações enfrentavam os piores anos da série histórica, com resgates bilionários que fizeram a indústria encolher em número de fundos e gestoras. Havia uma preocupação na autarquia se, sem a recuperação desses segmentos, seria possível manter o ritmo de crescimento elevado.
A Anbima tinha na agenda campanhas para popularizar o produto fundos, educar o investidor e deixar o terreno preparado para quando o cenário virasse. Elaborou também uma série de medidas em parceria com a CVM para modernizar a regulação dos ativos, como a CVM 175, e ajudar a indústria a destravar.
O 2025 foi um novo ano recorde, ainda que a captação líquida de R$ 88,4 bilhões represente certa desaceleração se comparada ao ritmo de crescimento de 2024. Os multimercados, que vinham no centro das preocupações, não se recuperaram totalmente, mas já conseguiram ao menos alguns meses de captação positiva desde o segundo semestre de 2025.
Agora, com a virada do mercado para uma fase de mais apetite a risco, a expectativa da autarquia é de que 2026 seja também um ano forte. Principalmente com a recuperação para aqueles que ficaram para trás, como os fundos de ações.
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“O ano de 2026 começa também bastante forte, com tudo para ser um outro ano recorde. É a perspectiva mais favorável para a retomada do mercado de equities (participação societária) no Brasil dos últimos anos, com sinalização clara de retomada do ciclo de queda de juros, investidor estrangeiro atento às oportunidades, desenvolvimento do mercado secundário”, diz César Mindof, diretor da Anbima e CEO do ABC Brasil.
“Janeiro já tem números fortes. Já temos IPO à vista, a listagem externa [do PicPay] pode animar outras companhias. A perspectiva para 2026 é muito positiva, com migração da renda fixa para híbridos”, destaca Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima e sócio do Itaú BBA.