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Educação Financeira

Carbono Oculto expõe brechas no setor financeiro; veja como fundos de investimento foram usados em fraudes e o que o investidor deve fazer agora

Para especialistas, operação na Faria Lima ameaça a “indústria da confiança” que sustenta os investimentos

Retrato de busto sob fundo azul escuro.
Por Leo Guimarães
Editado por Wladimir D'Andrade

29/08/2025 | 3:00 Atualização: 30/08/2025 | 11:34

A Operação Carbono Oculto é a maior feita até hoje para combater a infiltração do crime organizado na economia formal do País. (Foto:  Werther Santana/Estadão)
A Operação Carbono Oculto é a maior feita até hoje para combater a infiltração do crime organizado na economia formal do País. (Foto: Werther Santana/Estadão)

O mercado financeiro amanheceu na quinta-feira (28) com a Polícia Federal (PF) na Avenida Faria Lima, epicentro da indústria de investimentos do País. A Operação Carbono Oculto expôs como o crime organizado se infiltrou na economia formal por meio de postos de combustíveis, fintechs e fundos de investimento, envolvendo bilhões de reais em fraudes e lavagem de dinheiro. Embora os alvos principais sejam fundos fechados e empresas ligadas ao esquema, os reflexos chegaram ao investidor comum ao levantar dúvidas sobre segurança e transparência.

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  • Saiba mais: Bloqueios em fundos de investimentos podem chegar a R$ 1,4 bilhão

O episódio mostra que até fundos e fintechs podem ser usados em esquemas criminosos. A boa notícia é que há como se proteger, comenta Wellinton Depaoli, especialista em alocação da Manchester Investimentos.

“O investidor precisa buscar instituições sólidas, ligadas a bancos conhecidos e desconfiar de fundos muito fechados que não mostram onde aplicam o dinheiro”, diz.

Ele reforça a importância de diversificação e da liquidez, mantendo parte do patrimônio em aplicações simples e de fácil resgate, como Tesouro Direto, Certificados de Depósito Bancário (CDBs) de grandes bancos e fundos de liquidez.  Neste último caso, é sempre importante buscar saber quem administra, audita e gere antes de aplicar.

Na mesma linha, o economista e especialista em investimentos Danilo Coelho aconselha o investidor a buscar as maiores instituições para investir. “Se a gente der uma olhada ali nas instituições que estavam inclusas na lista que foi divulgada, em diversos canais, conseguimos perceber que a maior parte das empresas são pequenas, tirando a Genial”, comentou.

Em nota, a Genial afirma que só soube do caso pela imprensa, não recebeu notificação oficial e que, pelas suas apurações, as denúncias referem-se ao Radford Fundo de Investimento Financeiro Multimercado Crédito Privado – Responsabilidade Limitada. O banco esclarece que o fundo foi estruturado por outros prestadores de serviços e foi herdado em 2024, após diligências sobre ativos e investidor.

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Diante das menções negativas, decidiu renunciar à administração do fundo até esclarecimentos.

  • Veja a lista dos fundos suspeitos de lavagem de dinheiro do PCC

Coelho lembra que fundos com histórico consistente, gestão transparente e crescimento gradual merecem mais confiança do que estruturas que alcançam bilhões em pouco tempo. “É importante observar fundos que têm captação razoável ao longo do tempo.” Ele pede cuidado com fundos que em apenas dois anos, por exemplo, chegam a R$ 3 bilhões, R$ 4 bilhões de ativos sob gestão.

Além dos fundamentos, o investidor também precisa manter a calma. A psicóloga Ana Paula Hornos diz que erra quem age no medo ou na euforia.

“Para atravessar momentos assim, é preciso ter disciplina, estratégia e, acima de tudo, lembrar que ética e compliance (conformidade com leis, normas e regulamentos) são o que sustentam a confiança no mercado”, afirma.

Fundos de investimento fechados, risco aberto

Viaturas durante a Operação Carbono Oculto, que investiga operações do crime organizado na economia formal do País.
Agentes se concentraram na região da Av. Faria Lima desde a madrugada da última quint-feira (28) em São Paulo para darem início a operação Carbono Oculto. (Foto: Divulgação Receita Federal)

À imprensa, a Polícia Federal esclareceu que os fundos bloqueados e foco da operação são fechados e pertencentes à organização criminosa – Primeiro Comando da Capital (PCC) –, mas admitiu que há risco de contaminação em fundos abertos. E esse ponto, divide percepções.

Eduardo Silva, presidente do Instituto Empresa, comenta que o investidor de varejo não terá prejuízo direto. O problema, no entanto, é sistêmico. Ele lembra que os 40 fundos arrolados são geridos por entidades que administram muitos outros veículos, inclusive fundos de pensão. “Há um dano sistêmico ao mercado que perde em credibilidade. E, no mercado, confiança é tudo”, diz.

Ele chama atenção ainda para o risco de que o governo americano inclua em suas investigações comerciais a contaminação do mercado financeiro brasileiro por facções criminosas, que podem ser classificadas como organizações terroristas e vinculadas ao narcotráfico, ampliando a gravidade dos desdobramentos da Operação Carbono Oculto.

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Danilo Coelho reforça que o risco maior vem do efeito cascata, pois gestores podem precisar vender ativos para limpar estruturas contaminadas, o que derrubaria preços de crédito privado e até ações. “O clima no mercado já está bem tenso e preocupante”, resume.

Apesar do estresse do dia, a Bolsa de Valores brasileira fechou em alta de 1,23% na quinta-feira (28), com o Ibovespa marcando os 141.049 pontos – veja a reportagem completa aqui.

Operação Carbono Oculto põe ESG em xeque

Para Silva, a crise deflagrada pela operação na Faria Lima reacende as crítica à indústria de investimentos em relação às práticas ESG – sigla em inglês para ações ambientais, sociais e de governança – que viram slogan, mas não impedem escândalos.

Ele lembra que a Reag Investimentos (REAG3) uma das citadas pelos investigadores está no Novo Mercado, segmento de alta governança da B3. “Não se consegue perceber que estar no Novo Mercado garanta confiabilidade. O básico de ESG é compliance e o que se vê são fraudes como no IRB (IRBR3)e nas Americanas (AMER3)”, relembra.

Para ele, a perda de credibilidade ameaça a “indústria da confiança” que sustenta o setor.

Regulação mais dura

Há chance, no entanto, de o impacto de imagem ser limitado desde que Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Banco Central (BC) e B3 atuem para restituir a confiança, diz o especialista em investimentos Danilo Coelho. Ele prevê que o episódio vai se desdobrar em mais fiscalização, com os órgãos de controle exigindo compliance (conjunto de ações que mantêm a empresa em conformidade com leis, normas e regras) mais robusto, o que pode elevar custos e até levar à consolidação de gestoras menores.

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Do lado institucional, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) ressaltou em nota que o sistema financeiro é sólido e altamente regulado. “O Brasil conta com entidades públicas e privadas empenhadas no combate a ações irregulares”, destacou a associação.

Já a Federação dos Bancos (Febraban) afirmou que a ofensiva ajuda a “segregar quais agentes do sistema financeiro estão, ou não, a serviço do crime organizado”.

Uma das primeiras medidas do governo foi obrigar fintechs a enviar à Receita as mesmas informações exigidas de grandes bancos. Na coletiva de imprensa que detalhou as operações da Polícia Federal, o ministro a Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que fintechs passam a ser enquadradas como instituições financeiras para ampliar fiscalização – confira os detalhes aqui.

Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, durante discurso; Receita vai fiscalizar fintechs como bancos após a deflagração da Operação Carbono Oculto.
Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que a Receita Federal passará a enquadrar fintechs como instituições financeiras a partir desta sexta-feira (29) para aumentar o poder de fiscalização tributária sobre essas instituições. (Foto: Agência Brasil)

Para o economista Tiago Velloso, tal iniciativa aumenta a transparência, mas pode encarecer tarifas e reduzir espaço para inovação. “Compliance mais pesado, significa que parte desse ônus pode ser repassado ao cliente, encarecendo tarifas ou reduzindo a margem de inovação.”

O que falta saber sobre a operação na Faria Lima

A operação Carbono Oculto foi deflagrada nesta quinta e ainda ainda há muitos pontos em aberto. Entre as questões a serem esclarecidas, é preciso entender de onde vinha o capital ilícito e como foi injetado nas gestoras.

Especialistas também avaliam que não está claro o alcance das novas regras e como será o tratamento de dados e exigências de capital regulatório.

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Depaoli, da Manchester, lembra que os investidores ainda não sabem quais são todos os fundos de investimento que foram atingidos na Operação Carbono Oculto, quando terão acesso aos recursos bloqueados e como receberão informações oficiais.

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