Invasão americana na Venezuela pode indicar tentativa de Donald Trump para ampliar o controle sobre a oferta de petróleo do Hemisfério Ocidental. (Foto: Adobe Stock)
A captura de Nicolás Maduro após uma operação militar ordenada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recolocou a Venezuela no centro das atenções globais e mexeu com o humor dos mercados. A invasão trouxe de volta um tema que nunca sai totalmente de cena: o papel do petróleo venezuelano na geopolítica. Em poucas horas, o episódio saiu do campo político e entrou no radar de investidores atentos a preço, oferta e risco – inclusive em ações de petroleiras para investir.
Especialistas avaliam que o movimento adiciona tensão no curto e no médio prazos, sem mudar a lógica mais ampla do mercado global de petróleo. Isso porque a produção da Venezuela segue limitada, distante dos níveis históricos, após anos de sanções, falta de capital e deterioração da infraestrutura. Não é à toa que, segundo eles, o comportamento do setor continua ligado às decisões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+), à produção dos EUA– em especial do shale(xisto) – e à evolução da demanda mundial.
Ainda assim, o episódio tem peso estratégico para os norte-americanos. É que a economia global passa por uma transição energética, com avanço de carros elétricos, energia solar e outras fontes renováveis, o que reduz gradualmente a relevância do petróleo. Esse processo afeta o sistema dos petrodólares e pressiona o papel do dólarcomo principal reserva de valor.
Analistas apontam que esse pano de fundo ajuda a explicar por que Trump tenta recolocar os combustíveis fósseis no centro da política externa e energética americana, enquanto Chinae União Europeiaavançam mais rápido na economia verde.
É nesse contexto de disputa estratégica e mudança estrutural do setor que o mercado financeiro passa a diferenciar quem ganha e quem perde espaço no novo jogo do petróleo.
Instabilidade na Venezuela separa petroleiras fortes das frágeis
Para Marcus Vinicius de Freitas, professor visitante da China Foreign Affairs University, empresas maiores, com presença global e operação integrada, costumam lidar melhor com períodos de instabilidade. Esse grupo inclui grandes petroleiras e tradings internacionais, que conseguem ganhar espaço com ajustes logísticos ou com a compra de petróleo pesado a preços mais baixos.
Já companhias diretamente ligadas à Venezuela, como a estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) e empresas chinesas ou russas, ficam mais expostas a mudanças rápidas no ambiente político e a possíveis reações do governo dos EUA.
“A ação de Trump também revalida o enorme poder das empresas petrolíferas dos Estados Unidos, que podem contar com o pleno apoio militar do país em suas operações globais, o que serve como um elemento importante de dissuasão em negociações ou possibilidades de expropriação”, diz Freitas.
Parte do mercado prefere aproveitar esse momento sem se envolver diretamente com o país. Marcos Piellusch, professor da FIA Business School, explica que empresas atuantes em regiões concorrentes, como no pré-sal brasileiro ou no shale dos Estados Unidos, podem sair favorecidas se a instabilidade pressionar o preço do barril.
Entre os nomes mais lembrados está a Chevron (CHVX34), única petroleira americana com operações na Venezuela sob licença especial, o que abre espaço para uma expansão futura. Tradings como Vitol (VTOL) e Trafigura também entram nesse grupo ao buscar permissões para negociar petróleo venezuelano e explorar diferenças de preço em períodos de maior incerteza.
Ao mesmo tempo, Piellusch chama atenção para os riscos. Empresas muito dependentes de regiões politicamente sensíveis, sem proteção diplomática clara ou contratos bem estruturados, tendem a sofrer mais.
“Petroleiras com capacidade financeira, experiência internacional e flexibilidade estratégica tendem a se sair melhor, enquanto aquelas com limites de capital e maior exposição a riscos específicos podem enfrentar perdas de atratividade”, alerta o professor.
Chevron leva vantagem em cima de cautela de concorrentes
Na visão de Nicolas Lippolis, pesquisador da Universidade Columbia e diretor do Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento (CEFD), a Chevron parte em vantagem por já conhecer o ambiente local e manter operações ativas. Ele lembra ainda que refinarias da Costa do Golfo do México – agora, Golfo da América, nos Estados Unidos – ganham espaço por estarem preparadas para processar petróleo pesado, como o venezuelano, o canadense e o mexicano.
Já gigantes como a ExxonMobil (EXXO34), ele avalia, seguem mais cautelosas, enquanto produtoras americanas de menor porte demonstram interesse em investir. Para a China, o risco maior não está tanto nas operações petrolíferas, hoje mais limitadas, mas na chance de não receber a dívida venezuelana, estimada em cerca de US$ 20 bilhões.
Vale a pena investir nessas empresas?
A Venezuela possui grandes reservas minerais, o que pode abrir espaço para empresas de mineração no país. (Imagem: Adobe Stock)
A ampliação de posição em petroleiras como resposta direta ao caso venezuelano aparece mais como aposta especulativa e de curto prazo, segundo Freitas. Ele aponta que o risco político ligado ao país tende a pesar mais que o ganho potencial.
Já a exposição ao setor de petróleo pode fazer sentido em carteiras diversificadas, desde que focada em empresas eficientes, com baixo custo, forte geração de caixa e boa governança, mesmo diante da perda gradual de espaço do petróleo no médio e no longo prazos com o avanço das tecnologias verdes e dos veículos elétricos.
“Para o investidor brasileiro, o racional deve estar ancorado nos fundamentos globais do petróleo e na qualidade das empresas escolhidas, não na volatilidade venezuelana. O petróleo continua sendo um ativo estratégico. A Venezuela, por enquanto, permanece mais como fonte de risco do que como motor confiável de valor de longo prazo”, afirma.
Setores que entram no radar com uma possível reconstrução da Venezuela
Se a discussão avançar para uma fase de recuperação econômica da Venezuela, o leque de empresas interessadas tende a se ampliar, embora especialistas recomendem cautela. Lippolis avalia que ainda é cedo para falar em reconstrução nos moldes clássicos, já que o país não passou por um conflito armado e, sim, por um colapso econômico prolongado. As sinalizações de Trump apontam, por enquanto, para um foco na retomada da infraestrutura petrolífera.
Petroleiras, serviços de energia e mineração
Nesse desenho, petroleiras e prestadoras de serviços ligadas ao setor de energia aparecem como as primeiras da fila. O pesquisador lembra ainda que a Venezuela possui grandes reservas minerais, o que pode abrir espaço para empresas de mineraçãocaso investimentos estrangeiros ganhem tração.
Serviços de óleo e gás e infraestrutura básica
Para Freitas, em um primeiro momento, os maiores beneficiados seriam os serviços de óleo e gás, como perfuração, completação de poços e manutenção de instalações, áreas dominadas por grupos internacionais com capital e tecnologia.
Em seguida, setores ligados à infraestrutura pesada ganhariam espaço, como energia elétrica, estradas, portos, logística e telecomunicações, além de alimentos e bens básicos, que costumam liderar qualquer retomada econômica.
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Freitas afirma que, sem regras claras e previsibilidade institucional, esse movimento tende a gerar oportunidades pontuais e ciclos especulativos, em vez de uma valorização contínua no curto prazo.
Diluentes e rearranjo internacional
O professor também chama atenção para mudanças no equilíbrio internacional. Empresas que fornecem diluentes para o petróleo pesado venezuelano podem recuperar um mercado perdido nos últimos anos.
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Ao mesmo tempo, grupos chineses e russos tendem a perder espaço, já que acordos firmados durante o governo Maduro garantiam acesso a petróleo mais barato e fornecimento de insumos como a nafta, produto exportado pela Rússiapara viabilizar a produção local.
Energia, logística e tecnologia
Na avaliação de Piellusch, uma eventual retomada mais organizada do setor de energia abriria espaço para fornecedores de equipamentos, manutenção de refinarias e reconstrução de infraestrutura. Ele inclui nessa lista empresas de logística, transporte marítimo, armazenagem e construção, além de companhias de tecnologia e engenharia especializadas no processamento de petróleo pesado.
Segundo o professor, empresas acostumadas a contratos de longo prazo e à recuperação de ativos maduros tendem a encontrar mais oportunidades. Já setores consumidores de petróleo, como companhias aérease indústrias intensivas em energia, até podem sentir algum alívio nos custos, embora esse efeito dependa de muitos fatores e fique em segundo plano.