Nesse contexto, o JPMorgan indica que, apesar da percepção mais negativa nos dados headline (números mais visíveis, agregados e amplamente divulgados), a deterioração da inadimplência tem sido mais branda do que parece. Ajustando efeitos contábeis recentes e a piora concentrada no agronegócio, a alta dos NPLs (créditos inadimplentes) é relativamente limitada (cerca de 40 pontos-base no varejo e 20 pontos-base em empresas desde 2024), o que sugere um sistema ainda resiliente.
Além disso, os indicadores de inadimplência inicial (15 a 90 dias) seguem estáveis ou até melhores que anos anteriores, reforçando a leitura de um ciclo mais controlado do que o mercado chegou a precificar.
Ainda assim, para Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank, “a margem financeira deve seguir estável entre os bancos, sem grandes oscilações”, enquanto o crédito dá sinais de desaceleração e a inadimplência tende a subir de forma moderada.
Esse movimento, porém, não é homogêneo. O Itaú segue como destaque positivo, com evolução mais controlada, enquanto Banco do Brasil, Santander e Bradesco enfrentam pressões distintas – seja por exposição ao agro, seja por maior presença em segmentos mais sensíveis como cartão e pequenas e médias empresas (PMEs).
Essa leitura é reforçada por Malek Zein, analista de ações da Suno Research. Segundo ele, embora o ambiente macro seja mais fraco, os bancos entraram em 2026 “um pouco mais otimistas do que no ano passado”, refletido em guidances (projeções) de crescimento de crédito acima da inflação (com exceção do BB). Ao mesmo tempo, ele pondera que o custo de crédito deve piorar, mas dentro de um processo de normalização. “Não quer dizer que seja uma catástrofe”, diz.
Ambiente macro explica o equilíbrio delicado
O próprio JPMorgan destaca que o Brasil ainda convive com juros elevados (Selic a 14,75%, com projeção do Copom de 13% para o fim de 2026), mesmo após o início do ciclo de cortes, e inflação pressionada, em parte influenciada por riscos geopolíticos recentes. Isso mantém o crédito caro e limita a demanda, ao mesmo tempo em que sustenta spreads (margens que os bancos cobram ao empresas dinheiro) elevados.
Na prática, isso se traduz no que Antonio Pavesi, economista, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School, chama de um ambiente de “crescimento mais fraco da carteira de crédito, pressionando a margem financeira”. Para ele, a inadimplência segue como ponto de atenção, com maior pressão relativa sobre Bradesco e Banco do Brasil, enquanto Itaú e BTG devem manter indicadores mais controlados, sustentados por carteiras mais seletivas e melhor perfil de risco.
Essa seletividade, aliás, aparece como uma das principais tendências do ciclo. Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, resume o momento como um “platô alto”: o pior da deterioração já passou, mas o custo de crédito segue elevado, ainda que estabilizando. Nesse ambiente, há uma mudança clara de postura – menos apetite em pessoa física de maior risco e mais foco em crédito corporativo e operações estruturadas.
Do ponto de vista competitivo, isso redefine o jogo
“Quem deve ganhar participação: Itaú, pela capacidade de originação com controle de risco, e BTG, pelo avanço em crédito estruturado”, afirma Araújo. Já Bradesco e Santander tendem a priorizar qualidade sobre crescimento, o que pode limitar ganho de market share (participação de mercado) no curto prazo.
Na mesma linha, André Matos, CEO da MA7 Negócios, destaca que o trimestre deve evidenciar a concentração de rentabilidade nos modelos mais eficientes.
“Itaú continua sendo o benchmark [referência de comparação] do setor”, com retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) ao redor de 24%, enquanto o Bradesco aparece como o caso mais aguardado, podendo surpreender se a reestruturação ganhar tração. Por outro lado, o Banco do Brasil surge como principal ponto de atenção negativa, especialmente pela exposição ao crédito rural.
Os dados estruturais do sistema reforçam esse risco. Segundo o JPMorgan, o endividamento das famílias está em níveis historicamente elevados, com comprometimento de renda próximo de 30% e cerca de 81 milhões de brasileiros possuem algum tipo de restrição de crédito . No lado das empresas, o número de companhias inadimplentes também cresceu de forma relevante, com destaque para pequenas e médias, mais sensíveis ao ciclo de juros.
Diante disso, a diferenciação entre bancos se torna ainda mais relevante. Igor Monteiro, CEO da EqSeed, sintetiza o setor em três grupos:
- O Itaú, com a melhor combinação entre margem e risco;
- O Bradesco, como principal caso de recuperação; e
- O Santander, ainda em processo de ajuste.
Já o BB é visto como o mais sensível ao custo de crédito, enquanto o BTG segue em uma dinâmica própria, menos dependente da margem tradicional.
“A inadimplência deve seguir pressionada no sistema, mas com muita diferença entre bancos”, conclui. Nesse cenário, previsibilidade e qualidade de crédito passam a valer mais do que crescimento acelerado.
Para o investidor, o 1T26 deve ser menos sobre surpresas e mais sobre confirmação de tendências. Margens ainda sustentadas por juros altos, crédito mais seletivo, inadimplência em normalização e uma clara separação entre vencedores e pressionados. Em outras palavras, um trimestre que testa não apenas resultados, mas a consistência dos modelos de negócio em um ciclo mais exigente.