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Investimentos

Boom de empresas gringas chega ao País e supera toda a Bolsa brasileira

Índice que representa os papéis do exterior na B3 sobe cerca de 8% em 2024, enquanto Ibovespa recua no ano

Por Isaac de Oliveira

21/02/2024 | 3:00 Atualização: 21/02/2024 | 13:37

Há quem veja risco para a continuidade dos negócios com BDRs após o aumento da oferta de contas internacionais para pessoas físicas. (Foto: Envato Elements)
Há quem veja risco para a continuidade dos negócios com BDRs após o aumento da oferta de contas internacionais para pessoas físicas. (Foto: Envato Elements)

Este tem sido um ano e tanto para o BDRX, o índice de BDRs Não Patrocinados da Bolsa. O indicador acumula ganhos  de 9,74% no ano – sendo 4,73% apenas em fevereiro – segundo dados levantados por Einar Rivero, da Elos Ayta Consultoria, até o dia 19. Enquanto isso, o Ibovespa, principal referência da Bolsa brasileira, recua 3,18% em 2024.   

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A valorização do BDRX está diretamente ligada à alta performance de ações gringas, sobretudo as negociadas nas bolsas norte-americanas. O índice representa o desempenho médio das cotações dos BDRs, que são certificados emitidos no Brasil que espelham os papéis de companhias abertas sediadas no exterior. No acumulado de 2024, até o dia 19 de fevereiro, apenas os dois índices relacionados a fundos de investimentos imobiliários (FIIs), o Ifix e o Ifil, estão no azul (1,38% e 1,32%, respectivamente) junto com o BDRX.

A boa fase que se vê neste ano, na verdade, já vem de mais tempo. Em 2023, o BDRX subiu 26,33%. O Ibovespa, na mesma base de comparação, subiu 22,28%. Outros índices foram além. O IMOB, do setor imobiliário, disparou 53,27% no ano passado – mas em 2024 está negativo em 12,20%.

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Ou seja, boa parte da virada de chave do índice de BDRs aconteceu no começo deste ano e, segundo fontes ouvidas pelo E-Investidor, pelo alto desempenho de alguns papéis que compõem o índice. “O BDRX subiu mais porque alguns ativos puxaram muito para cima o retorno do índice. Foi uma questão mais específica dos ativos que estão no índice, não exatamente uma aversão ao risco do investidor local”, analisa Felipe Pontes, sócio da L4 Capital.

Leandro Petrokas, diretor de Research e sócio da Quantzed, concorda e destaca que, tanto o S&P 500, principal índice do mercado americano, quanto o Nasdaq, do setor de tecnologia, atingiram cotações máximas da história em 2024. “O que está puxando esse índice para cima são as principais ações americanas, especialmente do setor de tecnologia, como Alphabet (dona do Google), Apple, Amazon, Meta, Microsoft e Nvidia”, diz.

 

  • Veja também: Goldman Sachs eleva projeção para o S&P 500 em 2024

O que acontece com os BDRs em 2024

O cabo de guerra entre os papéis que formam o BDRX em 2024 contou com um puxão positivo mais forte das empresas que têm maior peso no indicador do que entre aquelas que mais caíram. Conforme análise do índice em janeiro, Ponte observa que a média de contribuição para o retorno do índice dos dois grupos (altas e baixas) se deu da seguinte maneira: os 15 BDRs que mais subiram contribuíram com 0,33 ponto porcentual cada, enquanto os 15 que mais caíram contribuíram com -0,07 ponto porcentual cada.

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“Em fevereiro deve ocorrer o mesmo movimento. Algumas ações puxando muito forte o índice para cima. As 15 mais negativas puxam pouco para baixo, enquanto as 15 mais positivas puxam muito forte para cima”, observa o sócio da L4.

Petrokas, da Quantzed, afirma que o comportamento do índice não reflete uma força compradora brasileira, mas internacional. Investidores de todas as partes do mundo estão aportando recursos nessas ações estrangeiras, cujo comportamento é replicado pelos BDRs negociados na B3.

  • Nvidia vale mais do que todas as ações da B3 juntas. Há oportunidade de compra?

Além dos fatores específicos de alguns papéis, como o embalo provocado pelos avanços com a inteligência artificial, há também o entendimento de que a melhora das perspectivas para economia dos Estados Unidos criou um cenário para a escalada de algumas ações. “Os investidores estão tirando da mesa o cenário de que haveria uma recessão e estão vendo um quadro macroeconômico positivo agora para a economia americana”, diz Matheus Popst, sócio da Arbor Capital.

O setor de tecnologia teve papel preponderante para o índice. Junto com o setor farmacêutico, na visão de Petrokas, “vêm apresentando excelentes retornos nos últimos anos e parecem representar teses que ainda possuem muito espaço para crescimento”. Os papéis que mais colaboraram para o avanço de 4,78% do BDRX em janeiro foram Nvidia, Microsoft e Meta, com contribuições de 1,52%, 0,93% e 0,37%, respectivamente.

Na ponta negativa, a Tesla teve um contribuição de -0,51% para o índice, causada por um retorno de -24,40% em janeiro. O impacto da fabricante de carros elétricos se deve à participação de 2,11% na carteira do índice. “Da mesma forma, a Apple e a Intel, apesar de suas reputações e seus tamanhos no mercado, contribuíram negativamente para o índice, refletindo os desafios e as volatilidades que podem afetar até mesmo as maiores empresas tecnológicas”, observa Pontes, da L4 Capital.

Quais são as perspectivas para o ano?

Se os ventos continuarão soprando a favor dessas companhias em 2024, os especialistas preferem não se comprometer. Contudo, citam alguns balizadores de oportunidade e de risco. Embora avalie que as chances de ganhos mais polpudos já ficaram para trás entre os papéis internacionais, Popst, da Arbor, avalia que há oportunidades na tecnologia, com uso da inteligência artificial, e na área da saúde, com avanços, por exemplo, da indústria farmacêutica.

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Quem gosta do setor tecnológico deve ficar de olho nas discussões acerca de uma eventual regulação do desenvolvimento e da aplicação de inteligência artificial. “Não é de se esperar que o avanço dessa tecnologia seja prejudicado por eventuais regras e legislações que podem ser desenvolvidas e aplicadas em breve, mas é algo a ser observado pelos investidores”, considera Petrokas.

  • Leia mais: “Esse é o melhor momento da história para investir nos EUA", diz Avenue

Outro ponto de atenção para o sócio da Quantzed são os conflitos e tensões geopolíticas em curso em diversas partes do mundo. “Assim como a pandemia do covid-19 acelerou mudanças no mundo dos negócios, como o rápido avanço do e-commerce e do home office, as guerras podem impactar diretamente os setores de energia, commodities (agrícolas e metálicas), defesa aeroespacial e transportes (fretes em geral)”, detalha Petrokas.

Pontes reitera que questões globais e geopolíticas podem impactar essas empresas, uma vez elas têm atuação no mundo inteiro e não só no Brasil. “As eleições nos EUA podem afetar boa parte dessas empresas, trazendo volatilidade no curto prazo”, exemplifica. Além disso, lembra que os BDRs são impactados pela moeda norte-americana. “Se o dólar subir, os BDRs sobem também. Se o dólar cai, os BDRs caem também. Ou seja, eles não variam apenas de acordo com o desempenho das ações de empresas que eles representam, mas também da valorização ou desvalorização do real ante ao dólar”, diz.

Vale a pena investir em BDRs?

Os interessados em ser acionista de uma empresa global precisam verificar se têm perfil de risco para tal. Por se tratar de um investimento em renda variável, o investidor está suscetível às oscilações de mercado. Há quem veja risco para a continuidade dos negócios com BDRs após o aumento da oferta de contas internacionais para pessoas físicas no mercado brasileiro, uma vez que o acesso ao investimento direto nas ações dessas empresas nas bolsas em que estão listadas originalmente ficou mais fácil.

Os três especialistas vêm um caminho longo para esses certificados no Brasil, ainda que haja alguma migração ao longo do tempo. “Com o advento das contas internacionais, é de se esperar que parte do capital migre para os investimentos diretamente em ativos internacionais. Mas há uma boa parcela que ainda vai preferir manter as contas em corretoras nacionais e investir via BDR, ainda que haja o impacto do câmbio nas cotações desta classe de ativos”, avalia Petrokas.

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