Entrada de capital estrangeiro mantém suporte ao Ibovespa, enquanto bancos ajustam carteiras para equilibrar risco, renda e crescimento. (Foto: Adobe Stock)
Depois de um primeiro trimestre marcado por forte entrada decapital estrangeiro na Bolsa e valorização do mercado financeiro brasileiro, a volatilidade global dita o tom. O fluxo gringo continua sendo o grande sustentáculo da Bolsa – como mostramos aqui –, e é a partir desse eixo que bancos e corretoras vêm calibrando suas carteiras recomendadas para abril.
Segundo o banco, cerca de R$ 9 bilhões ingressaram na Bolsa apenas em março, elevando o fluxo estrangeiro acumulado no ano para R$ 51 bilhões, um vetor central para entender o posicionamento das carteiras recomendadas.
Essa leitura ajuda a explicar por que, mesmo com ajustes pontuais, a estratégia geral das casas segue relativamente estável. O foco está em buscar exposição a setores resilientes, geradores de caixa e com capacidade de navegar cenários adversos, combinando crescimento, renda e proteção.
Nesse contexto, o BTG Pactual optou por mudanças cirúrgicas. “Estamos fazendo alguns ajustes na carteira sem alterar a estratégia geral”, afirmam os analistas. A composição foi dividida em 20% em financeiras, 20% em geradoras de energia e 25% em empresas de fluxo de caixa de longa duração. Ao mesmo tempo, houve aumento de exposição a petróleoe gáse a ativos dolarizados, refletindo o ambiente global mais incerto.
A troca mais emblemática ocorreu no setor de óleo e gás. A casa decidiu substituir a PetroRio (PRIO3) por Petrobras (PETR3; PETR4), elevando a fatia do setor para 15%. Embora ambas se beneficiem de preços elevados do petróleo, a estatal ofereceria maior proteção em um eventual recuo da commodity.
“Mesmo em um cenário de petróleo a US$ 80, vemos a Petrobras entregando yield [rendimento] de fluxo de caixa livre de 9% e dividend yield [rendimento de dividendos] de 8%”, aponta o banco.
Além disso, o BTG trouxe de volta a Embraer (EMBR3), negociando a múltiplos descontados em relação aos pares globais, e reforçou a exposição ao segmento de baixa renda com a entrada da Cury (CURY3), movimento que dialoga com a busca por empresas sensíveis ao ciclo doméstico, mas com gatilhos próprios de crescimento.
Ágora aposta em gatilhos de curto prazo
Se o BTG enfatiza o equilíbrio entre proteção e captura de tendências globais, a Ágora Investimentos foca em gatilhos microeconômicos. Para abril, a corretora realizou apenas uma mudança: retirou Sabesp (SBSP3) e incluiu Copasa (CSMG3).
“Acreditamos que a proximidade de uma privatização da Copasa oferece eventuais gatilhos de curto prazo”, afirma a casa.
A avaliação é que, embora as teses sejam semelhantes (ambas empresas de saneamento com receitas previsíveis), o momento favorece a companhia mineira.
A carteira da Ágora traz uma diversificação ampla entre setores, combinando nomes clássicos e teses específicas. No setor elétrico, por exemplo, a Axia (AXIA3) aparece como uma aposta de reprecificação estrutural. Segundo os analistas, o mercado financeiro ainda embute preços de energia abaixo do custo marginal de expansão, o que limita o risco de queda e abre espaço para valorização.
Já no segmento imobiliário, a Allos (ALOS3) se destaca pela nova política de dividendos. A empresa passa a pagar proventos mensais relevantes, com yield estimado em torno de 11% em 2026 reposicionando o papel como um ativo de renda, reduzindo a duration (prazo médio para recuperar o investimento realizado na compra do ativo) do fluxo de caixa e aumentando sua atratividade em um ambiente de juros ainda elevados.
O setor financeiro segue como pilar importante. O Itaú (ITUB3; ITUB4), por exemplo, continua presente em diferentes carteiras, sustentado por crescimento da carteira de crédito, qualidade de ativos e controle de inadimplência. Ainda que o guidance (projeções da companhia) traga alguma cautela, a leitura predominante é de que o banco carrega fundamentos sólidos para atravessar o ciclo.
No campo das commodities, a visão segue construtiva, mas seletiva. A Vale (VALE3) aparece como uma das principais apostas, com suporte tanto nos fundamentos do minério de ferro quanto no avanço da divisão de metais básicos. A meta de produção de cobre de longo prazo, aliada à disciplina na alocação de capital, reforça a tese de geração de valor.
Ao mesmo tempo, empresas como Suzano (SUZB3) capturam o cenário de pressão de custos e preços globais, com reajustes recentes de celulose refletindo um ambiente ainda apertado na cadeia de suprimentos, especialmente após os impactos indiretos do conflito no Oriente Médio sobre energia e logística.
Essa mesma variável geopolítica, aliás, é central na leitura da Planner. A casa destaca que março foi “inteiramente influenciado pelo conflito no Oriente Médio”, que elevou o petróleo acima de US$ 100 e pressionou a inflação global. Esse cenário, por sua vez, impacta diretamente as expectativas para juros e crescimento e, consequentemente, o apetite por risco.
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Apesar disso, o diagnóstico para abril é de “otimismo cauteloso“. A continuidade do fluxo estrangeiro, os múltiplos ainda atrativos e a expectativa de bons resultados corporativos sustentam uma visão construtiva para a Bolsa de Valores, ainda que com volatilidade elevada.
Resultado do Itaú no 4T25 reforçou a leitura de consistência operacional e manteve a maioria das casas otimista com a ação, apesar de cautela pontual para 2026. (Foto: Adobe Stock)
Nesse ambiente, a Planner reforça a preferência por empresas com boa governança, baixo endividamento e forte geração de caixa. O Itaú aparece novamente como destaque, com rentabilidade elevada e consistência operacional, enquanto nomes como Sabesp e Totvs (TOTS3) entram como apostas em eficiência e previsibilidade de resultados.
A diversificação também se estende a setores menos óbvios, como tecnologia e seguros. A Totvs, por exemplo, é vista como relativamente protegida das turbulências externas, com crescimento consistente de receita e lucro. A Porto (PSSA3) tem seu apelo defensivo, combinando expansão de receitas com melhora operacional.
Entre macro e fundamentos: a estratégia da Terra
Já a Terra Investimentos adota uma abordagem declaradamente híbrida entre análise macro (top-down) e seleção de ativos (bottom-up). “Debatemos a agenda macroeconômica e corporativa para traçar um cenário base e, a partir dele, selecionar os setores e empresas que devem se destacar”, explica a corretora.
A carteira da Terra reflete bem essa filosofia, reunindo empresas com múltiplos atrativos e perspectivas de crescimento, mas também com perfis distintos de risco. Há espaço tanto para nomes defensivos, como Hypera (HYPE3), quanto para teses de crescimento e reestruturação, como Prio e Sabesp.
No setor financeiro, o Bradesco (BBDC3; BBDC4) aparece como uma aposta de recuperação, com expectativa de melhora gradual da inadimplência e reprecificação dos papéis. Já no consumo, Lojas Renner (LREN3) surge como uma tese de resiliência operacional, mesmo em um ambiente macro mais desafiador.
Em energia, a presença simultânea de Vibra (VBBR3) e Axia reforça a busca por exposição a diferentes elos da cadeia, distribuição e geração, capturando tanto o ciclo de combustíveis quanto a dinâmica estrutural do setor elétrico.
Não existe carteira perfeita, existe adaptação ao cenário
A combinação entre disciplina, diversificação e seletividade. Em um mercado ainda sustentado por fluxo, mas cada vez mais sensível ao cenário global, a escolha dos ativos passa menos por apostas direcionais e mais por equilíbrio.
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Para o investidor, isso significa que não há uma “carteira perfeita”, mas, sim, diferentes formas de navegar o mesmo ambiente – seja com prioridade para renda ou para crescimento ou proteção. O ponto em comum entre todas elas é a tentativa de construir portfólios capazes de atravessar a volatilidade sem abrir mão de retorno.
Carteiras recomendadas para abril
Ágora Investimentos (atualizado)
Para o mês de abril de 2026, a casa optou por realizar apenas uma alteração na composição do portfólio. Retirou as ações da Sabesp (SBSP3) e incluiu Copasa (CSMG3).
Ações
Allos (ALOS3)
Axia (AXIA6)
BTG Pactual (BPAC11)
Cyrela (CYRE3)
Itaú (ITUB4)
Petrobras (PETR4)
Copasa (CSMG3)
Suzano (SUZB3)
Vale (VALE3)
Vibra Energia (VBBR3)
Terra Investimentos (atualizado)
Para abril, o Terra realizou 2 trocas. Excluiu as ações da Prio (PRIO3) e Porto Seguro (PSSA3), e as substituiu por Sabesp (SBSP3) e Vibra (VBBR3).
Ações
Klabin (KLBN11)
Localiza (RENT3)
Vale (VALE3)
Sabesp (SBSP3)
Lojas Renner (LREN3)
Hypera (HYPE3)
Bradesco (BBDC4)
Axia (AXIA3)
Vibra (VBBR3)
Marcopolo (POMO4)
Planner (atualizado)
A Planner retirou 4 empresas da carteira: Azzas (AZZA3), Engie Brasil Energia (EGIE3), Motiva (MOTV3) e Vulcabras (VULC3). E incluiu: CPFL Energia (CPFE3), Direcional Engenharia (DIRR3), Multiplan (MULT3) e Telefônica Brasil (VIVT3).
Ações
CPFL Energia (CPFE3)
Direcional Engenharia (DIRR3)
Sabesp (SBSP3)
Itaú Unibanco (ITUB4)
Petro Recôncavo (RECV3)
Porto (PSSA3)
Totvs (TOTS3)
Multiplan (MULT3)
Telefônica Brasil (VIVT3)
Wiz Co (WIZC3)
Andbank (atualizado)
A carteira recomendada do Andbank de março atingiu um potencial de valorização de 17,81%.
Ações
Axia Energia (AXIA6)
BB Seguridade (BBSE3)
Bradesco (BBDC4)
Copel (CPLE3)
Embraer (EMBRJ3)
Itaú (ITUB4)
Itaúsa (ITSA4)
Rede D’Or (RDOR3)
Telefônica Brasil (VIVT3)
Vale (VALE3)
BTG Pactual (atualizado)
Para este mês, o banco retirou as ações da Prio (PRIO3) e da Aura (AURA33) e as substituiu pela Petrobras (PETR4) e Embraer (EMBJ3).
Ações
Nubank (ROXO34)
Itaú Unibanco (ITUB4)
Stone (STOC34)
Axia Energia (AXIA3)
Petrobras (PETR4)
Localiza (RENT3)
Motiva (MOTV3)
Eneva (ENEV3)
Embraer (EMBJ3)
Allos (ALOS3)
Genial Investimentos (atualizada)
Para abril, o banco retirou as ações da Aliansce Sonae (ALOS3), Alpargatas (ALPA4), JHSF (JHSF3), Lavvi (LAVV3) e Movida (MOVI3), e as acrescentou pela Eneva (ENEV3), Petro Rio (PRIO3) e SLC Agricola (SLCE3) e Vibra (VBBR3)