O episódio ensinou que, mesmo na renda fixa, há riscos envolvidos. Focar apenas em taxas elevadas de rentabilidade pode expor o investidor a perdas ou a longos períodos de indisponibilidade do dinheiro.
Além disso, a proteção do FGC não elimina todos os perigos: no caso do Banco Master, o pagamento da garantia levou cerca de dois meses para ser iniciado, deixando os recursos parados e reduzindo o retorno no período.
Harrison Gonçalves, CFA Charterholder e membro do CFA Society Brazil, explica que quanto maior o prazo de um investimento, maior o risco. Outra questão envolve o indexador do ativo. “Títulos prefixados, por exemplo, atualmente têm taxas atrativas, mas podem apresentar uma rentabilidade real pequena no futuro, se a inflação for maior do que a precificada”, diz.
Gonçalves cita ainda um outro perigo existente na renda fixa: o risco de crédito, ou seja, a possibilidade de uma empresa ou de um banco não ter capacidade financeira de pagar de volta o investimento.
Os produtos mais arriscados na renda fixa
Especialistas ouvidos pelo E-Investidor apontam que produtos de crédito privado, como debêntures, Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), são mais arriscados, principalmente se forem emitidos por empresas com saúde financeira frágil.
Emissores nessas condições são vulneráveis a crises e têm maior chance de atrasar ou não pagar o valor principal e os juros prometidos ao investidor. Além disso, esses produtos, diferentemente dos Certificados de Depósito Bancário (CDBs), não contam com proteção do FGC.
Rafael Bellas, coordenador de produtos da InvestSmart XP, afirma que, nos produtos de crédito privado, a qualidade das garantias oferecidas é fundamental. Em CRIs, por exemplo, estruturas com alienação fiduciária de imóveis – em que o bem fica vinculado ao credor até a quitação da dívida – ajudam a reduzir o risco da operação.
Além dos títulos emitidos por empresas, outros ativos de renda fixa demandam cautela do investidor. Apesar da alta segurança do emissor, o Tesouro IPCA+, do Tesouro Direto, está sujeito à marcação a mercado, o que pode gerar oscilações no valor do investimento antes do vencimento. “Mesmo em ativos considerados seguros, pode haver volatilidade no curto prazo, especialmente em momentos de mudança nas taxas de juros”, afirma Bellas.
No que se refere aos CDBs, a atenção deve ser maior com bancos médios ou pequenos, com estratégias de captação mais agressivas, caso do Master. “Isso não significa que todo banco menor seja ruim, mas indica que ele precisa pagar mais para captar dinheiro, o que pode refletir uma situação financeira mais delicada”, destaca Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP e especialista em investimentos.
Os sinais de alerta para o investidor
O primeiro ponto de alerta está na rentabilidade muito acima da média. Quando o retorno prometido parece bom demais para ser verdade, vale investigar os motivos por trás da oferta. Outro ponto-chave envolve a transparência do emissor: é importante verificar se a empresa ou instituição responsável pelo título divulga informações financeiras de forma clara, consistente e atualizada.
No caso do crédito privado, especialistas recomendam observar o setor em que a companhia emissora atua. Alguns segmentos sofrem mais em momentos de desaceleração econômica, aumento do custo do crédito ou queda do consumo.
O investidor também deve avaliar se aquele investimento faz sentido dentro do seu planejamento como um todo. Renda fixa de maior risco não pode ser usada para reserva de emergência (dinheiro, de fácil acesso, separado para imprevistos).
Gonçalves, do CFA Society Brazil, faz ainda uma recomendação importante: evitar a concentração da carteira em um único produto. Segundo ele, optar por um ativo de vencimento longo não coberto pelo FGC, com uma alocação limitada a algo entre 2% e 3% do portfólio, tende a ser uma estratégia saudável.
Por outro lado, quando o investidor direciona fatias maiores, como cerca de 15%, para ativos de longo prazo e maior risco, a exposição se torna mais perigosa.
O que analisar antes de investir?
No caso de bancos, alguns indicadores ajudam a entender a saúde financeira da instituição, como o lucro recorrente e as notas de crédito (ratings) atribuídas por agências especializadas, como Fitch, Moody’s e S&P Global Ratings.
Dentro do balanço de um banco, o chamado Índice de Basileia (IB) também merece atenção especial. Quanto mais alto for esse índice, maior será a capacidade da instituição para absorver perdas. O BC determina que, para ser considerado saudável, um banco deve ter um Índice de Basileia de no mínimo 10,5%.
Para empresas emissoras de títulos privados, o cuidado precisa ser ainda maior. Patzlaff, planejador financeiro, recomenda que o investidor verifique a nota de risco do papel, as garantias oferecidas e o prazo do investimento, além de checar a situação financeira da empresa.
O que perguntar para o assessor?
A escolha de um investimento, em muitos casos, passa pelo diálogo entre o investidor e o assessor de investimentos. Nesse momento, embora a orientação profissional seja bem-vinda, vale fazer questionamentos relevantes ao especialista.
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, recomenda que o investidor avalie quais são os incentivos por trás da indicação de determinado produto.
“Muitas vezes, o gerente ou assessor indica um determinado investimento por ser uma meta trazida pelo banco ou por oferecer uma comissão de distribuição maior. É ideal, nesses casos, buscar transparência e um profissional que tenha alinhamento de interesses com o cliente”, destaca.
Além disso, o investidor deve se concentrar em algumas perguntas essenciais, que envolvem o risco efetivo da aplicação, incluindo o que pode acontecer no pior cenário e o quanto o capital pode se desvalorizar nessa situação. Também vale questionar sobre o nível de liquidez do investimento, ou seja, a facilidade de resgatar ou vender o ativo antes do vencimento caso seja necessário acessar o recurso.
As opções de investimento mais seguras na renda fixa
Entre as alternativas seguras, segundo especialistas, está o Tesouro Selic, título público com liquidez diária e rendimento atrelado à Selic, atualmente em 15% ao ano. A modalidade pode ajudar a reconstruir a reserva de emergência, após o trauma com o Master. “O risco do título é o País quebrar, cenário muito mais improvável do que um banco quebrar”, diz Patzlaff.
Dentro da renda fixa, o planejador avalia que CDBs de grandes bancos, como Itaú, Bradesco e Santander, costumam pagar 100% do CDI e oferecerem maior segurança ao investidor, já que essas instituições apresentam uma chance de insolvência menor do que bancos médios ou pequenos.