O Will Bank estava em vias de ser vendido, mas a negociação ainda não tinha avançado. Agora, as preocupações recaem sobre como ficam os clientes da fintech, que tem cerca de R$ 7,5 bilhões em depósitos que devem entrar na conta do FGC com a liquidação.
Por que o Will Bank entrou no radar após o caso Master
O tema que vinha tirando o sono do mercado financeiro em geral, inclusive assessores de investimentos. Horas antes da decisão do BC desta quarta-feira, o E-Investidor havia publicado uma reportagem (esta, que foi atualizada após os novos acontecimentos) mostrando que investidores estavam sendo orientados por profissionais, nas últimas semanas, a resgatar os aportes em ativos emitidos pela fintech. O objetivo era entender se fazia sentido arcar com o deságio do resgate antecipado, que era alto para títulos de vencimento mais longo, ou manter as aplicações e confiar na cobertura de até R$ 250 mil do FGC. Agora, com a liquidação do Will, o investidor só tem a opção de aguardar o ressarcimento do segurador.
Um deles é Ewerton Vieira, que tinha uma aplicação em CDBs do WillBank, um investimento inicial de R$ 80 mil que fez pensando em sua aposentadoria. Há poucas semanas, recebeu um contato de seu assessor de investimentos na corretora em que investe sugerindo que resgatasse os valores antes do vencimento. O profissional disse que a fintech vinha perdendo credibilidade no mercado e tinha o risco de ser liquidada, como aconteceu com o Master. Por isso, a recomendação era resgatar os valores e evitar a “fila do FGC”.
A aplicação de Vieira tem vencimento em fevereiro de 2026. Por causa da proximidade do prazo, o deságio – o desconto que teria por optar pelo resgate antecipado – seria de apenas 2,55%, calculou o assessor. A aplicação, hoje em R$ 98,8 mil, passaria para R$ 96,3 mil em valores nominais, sem o desconto do Imposto de Renda (IR).
É um impacto menor do que o investidor teria se o Will fosse liquidado, o que se confirmou hoje, e o dinheiro ficasse “parado”, esperando o ressarcimento pelo FGC, por dois meses, como aconteceu no caso do Master. Mas sem a dor de cabeça. O investidor optou, então, por não seguir a recomendação de seu assessor. Como os valores vencem em menos de um mês e estão dentro do limite de R$ 250 mil por CPF garantidos pelo FGC, ele preferiu manter a aplicação.
Mas o episódio ilustra como a liquidação do Master e a espera de dois meses para ressarcimento pelo FGC criou um receio no mercadoe entre investidores, que se espalha agora para outras instituições, como o Will Bank, que estão de alguma forma ligados ao problema.
O Will Bank nasceu em 2020 como uma evolução do emissor de cartões de crédito pag! para oferecer serviços bancários e investimentos a um público desbancarizado, com foco na região Nordeste do País. O negócio foi crescendo aos poucos, com ações de publicidade e parcerias estratégicas, como a Mastercard, bandeira dos cartões da instituição. Naquele primeiro ano de lançamento, o lucro líquido cresceu 338%, com novos 400 mil clientes, superando a marca de 1,6 milhão total.
Graças a esses resultados, em 2021, ganhou o impulso de um investimento de R$ 250 milhões do fundo de private equity – investimento em empresas não listadas em bolsa – da XP Investimentos e da Atmos Capital. Ambas instituições passaram a ter uma participação minoritária na fintech, parte que posteriormente, em 2024, foi comprada pelo banqueiro Daniel Vorcaro em uma operação estruturada junto com a Reag. Naquele momento, o Will precisava de mais capital graças a problemas operacionais que começavam a aparecer.
O Master ficou com a carteira de crédito e a financeira; a Reag, com a instituição de pagamento, que posteriormente foi nomeada de Reag Pagamentos. À época da negociação, o Will tinha um passivo descoberto de quase R$ 70,9 milhões e buscava se enquadrar nos requisitos mínimos regulatórios exigidos pelo Banco Central.
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Os problemas continuaram nos últimos anos. As auditorias independentes contratadas para auditar os balanços financeiros, a Deloitte e a KPMG, fizeram ressalvas em relação aos números em 2023 e em 2024.
Interessados na compra do Will Bank
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em frente à logo da empresa (Foto: divulgação)
Ainda assim, antes mesmo da liquidação extrajudicial do Master, o Will era tratado como um ativo que poderia atrair compradores no mercado. Para isso, em outubro do ano passado, Vorcaro contratou o escritório Laplace para assessorar a venda de ativos de seu conglomerado; sobretudo a fintech.
E haviam interessados, como o Mubadala Capital. Trata-se do braço de gestão de ativos alternativos do Mubadala Investment Company, o fundo soberano de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, que começou a investir no Brasil em 2012, com foco principal na compra de empresas em dificuldades que, se superadas, teriam elevado potencial de crescimento.
O Will não entrou na massa liquidada do Master, em novembro último, porque estava registrado sob a licença do banco Master Múltiplo. Para esse braço dos negócios de Vorcaro, o BC optou pelo regime de administração especial temporária (Raet). Nele, a instituição passa a operar sob um conselho diretor indicado pela autarquia, mas mantém as operações ativas enquanto passa pela reestruturação.
Na prática, significa uma saída para ganhar tempo até encontrar uma solução de mercado para a fintech, que passa, principalmente, por avançar no acordo de venda.
O E-Investidor conversou com fontes a par do assunto que explicaram que as negociações com o Mubadala e a Mastercard ainda estavam em jogo, mas eram complexas justamente por envolver muitas partes. Havia um entendimento de que era melhor para todos os envolvidos que o Will seja vendido e não liquidado. O fundo soberano, que enxerga potencial no ativo; a Mastercard, credora da fintech que não tomaria o calote; e até o FGC, que evitaria ter de arcar com um novo ressarcimento de investidores.
Procurados, o Mubadala e o Laplace não quiseram comentar. O FGC e a Mastercard não retornaram.
O que acontece com o investidor
Antes da liquidação acontecer, especialistas indicavam que, a depender do deságio, fazia mais sentido manter os CDBs do Will na carteira do que fazer o resgate antecipado. Isso porque, em muitos casos, a penalidade era alta. Um título com vencimento em 2027, por exemplo, cobrava cerca de 30% do investidor que quisesse vender as posições; um desconto muito maior do que ele teria se, no caso de uma intervenção do BC, o dinheiro ficasse “parado” por alguns meses até ser ressarcido pelo FGC.
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Agora, não há mais opções. O investidor de Will Bank vai passar por todo o processo que os investidores de CDBs do Banco Master acabaram de superar: fazer o cadastro no aplicativo do FGC, aguardar a lista de credores ficar pronta e só então, o início dos pagamentos. O segurador prevê a garantia de até R$ 250 mil, incluindo rendimentos, por CPF.
Para Marília Fontes, sócia da Nord e especialista em renda fixa, o caso tem um paralelo com um seguro de carro: não adianta contratar depois que o acidente já aconteceu. Agora, é melhor aguardar o FGC e usar o episódio do Master e do Will Bank de lição para futuros investimentos.
Uma discussão para amadurecer o mercado como um todo. “As recomendações conflitadas, o investidor que quer retorno demais e as próprias regras do FGC, que garantem a rentabilidade e geram um incentivo perverso. Mas todo esse estresse que o investidor teve é a maior educação que ele poderia receber”, diz Fontes.