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Investimentos

Como a eleição dos EUA pode impactar investimentos no Brasil

Especialistas avaliam os impactos da disputa entre Trump e Biden nas moedas estrangeiras - e no bolso dos investidores

Por Isaac de Oliveira

28/07/2020 | 9:20 Atualização: 28/07/2020 | 16:25

Foto: Saul Loeb and Ronda Churchill/AFP
Foto: Saul Loeb and Ronda Churchill/AFP

Faltam menos de 100 dias para os Estados Unidos decidirem se o republicano Donald Trump deve continuar ou não na presidência da maior potência econômica do mundo. Até o momento, a vantagem está com o adversário democrata Joe Biden, segundo pesquisas prévias. Ainda é cedo para dizer quem levará a melhor na disputa, mas é certo que o futuro da economia norte-americana tomará caminhos bem distintos com o resultado.

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Investidores que têm ou não exposição ao mercado dos Estados Unidos devem ficar atentos aos cenários que podem se desenhar no futuro próximo, uma vez que as agendas dos candidatos são bem distintas. De um lado, Trump e sua política de negociação bilateral, com viés protecionista; de outro, Biden que prefere o multilateralismo. Independentemente de quem vença nas urnas, haverá repercussões boas ou ruins para os investimentos. O que mudará, no caso, é a posição dos investidores.

Se a política individualista de Trump tende a fortalecer o dólar e manter moedas como o real enfraquecidas, além de juros baixos atraindo investidores, a vitória de Biden poderia fazer o capital sair da bolsa norte-americana rumo a mercados emergentes, uma boa oportunidade para investimentos estrangeiros chegarem ao Brasil, caso o cenário político interno colabore, claro.

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Ainda há um intervalo de tempo até dia do pleito, em 3 de novembro. Por isso, as chances de novos acontecimentos influenciarem a disputa é alta: nova onda de coronavírus, a descoberta de uma vacina para covid-19, mais gente protestando nas ruas são alguns exemplos, conforme analistas ouvidos pelo E-investidor.

O head de gestão da Galapagos Capital, Sérgio Zanini, destaca que, além da cadeira presidencial, é preciso avaliar como ficarão os assentos no Congresso norte-americano. “Tem alguns cenários possíveis e vão ter impactos bem diferentes para os mercados”, diz Zanini.

O executivo Victor Hugo Cotoski, da Infinox Capital, ressalta que mercado já está começando a precificar a inflação das moedas. A alta impressão de cédulas, para atenuar os efeitos da pandemia, desvalorizou a moeda norte-americana, um desafio para quem estiver vier a assumir o controle da Casa Branca. Mas essa situação é reversível.

“O dólar pode ficar muito forte em questão de uma semana e recuperar todo esse movimento”, lembra Cotoski.

O que acontece se o Trump ganhar?

A Galápagos analisou, em uma pesquisa recente, os impactos do pleito deste ano. Zanini explica que, se o republicano vencer, mesmo com o Congresso dividido, haveria um cenário de continuidade do que foi visto nos últimos anos. Em suma, a manutenção do excepcionalismo americano e do lema “Estados Unidos primeiro”.

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“A gente pode ver os ativos americanos voltando a performar melhor do que os seus pares, e um talvez um segundo governo mais confrontacional com a China. Já que ele não vai ter que se preocupar com a reeleição, Trump deve ir em busca de um legado, algo mais anti-China “, analisa Zanini.

Cotoski concorda que Trump é o candidato do dólar forte e deve manter isso através de uma política monetária mais agressiva, já posta em prática. Além disso, o empresário também é lido como um incentivador do mercado de capitais. O desafio estará em recuperar a valorização da moeda.

“Como há uma inflação do dólar e os juros real negativo, o dólar deixa de ser uma moeda forte no momento. Por isso que o iene japonês e o euro estão ganhando força”, diz Cotoski.

O analista da Infinox lembra que Trump já sinalizou que não vê problemas em reduzir os juros para um nível negativo, o que manteria ainda mais atrativo o ambiente da bolsa norte-americana. “Quando se tem uma taxa de juros negativa, o dinheiro acaba indo para o mercado de ações. Com isso, ações tendem a valorizar de uma maneira mais agressiva, que é o que está acontecendo”, observa Cotoski.

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Zanini também destaca que a proximidade entre Jair Bolsonaro com Trump pode trazer facilidades ao Brasil. “Tem algumas oportunidades para o setor agrícola, tec, agro, mercado imobiliário. E acho que a gente segue neste ambiente muito positivo para os ativos domésticos”, avalia o gestor da Galapagos.

O que acontece se Biden ganhar?

A vitória do democrata deve trazer um afrouxamento da política monetária de Trump, elevando a taxa de juros, hoje perto de zero, além de cobrança de impostas e a tentativa de reduzir o déficit do país. Para os analistas, Biden na presidência pode animar os mercados, com a recuperação de outras bolsas e moedas.

“Seria um presidente menos protecionista, voltaria um pouco mais para o modelo de globalização, de discussão comercial, uma aproximação maior com a Europa, com os aliados tradicionais”, analisa Zanini.

O especialista da Galapagos avalia que o democrata deverá bater muito na questão antitrust das grandes corporações de tecnologia, o que traria um impacto para queridinhas do mercado, como Amazon, Google e Apple.

Como muitos investidores buscaram a ativos norte americanos, devido aos juros muito baixos, se o ambiente fiscal ficar menos convidativo, isso pode fazer o capital sair dos Estados Unidos para opções mais atrativas, como mercados emergentes.

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Zanini vê, assim, uma possibilidade de venda de ativos americanos e uma repatriação de recursos, especialmente de investidores europeus, que tinha muito dinheiro nos Estados Unidos ao longo dos últimos anos por conta do diferencial de juro. “Isso acelera, por exemplo, o movimento de queda do dólar contra o euro, contra o franco suíço, contra o próprio iene japonês”, aponta Zanini.

Para quem investe na moeda norte-americana, a recomendação é de atenção. Cotoski enxerga espaço, inclusive, para a moeda chegar a patamares bem abaixo do que se tem hoje, acima dos R$ 5. “A gente pode ter um dólar na linha dos R$ 4 ou até menos, caso ele venha a desvalorizar muito, de uma forma mais brusca”, afirma ele.

Além disso, uma possível saída de Trump levaria o dinheiro do mercado de ações para os bonds americanos, a renda fixa ou o Tesouro. Cotoski adiciona que esse impacto poderá ser sentido também no Brasil.

“Os fundos brasileiros são puxados por fatores externos. Se a taxa de juros nos Estados Unidos subir, que é uma das medidas que o Biden deve adotar de imediato nos primeiros três meses, a gente pode ver aí uma queda dos índices de ações e isso é o que pode ter de primeiro impacto para os brasileiros”, diz Cotoski.

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Ainda sobre o Brasil, a vitória do democrata também pode representar conflitos diplomáticos, ancorados na pauta do meio ambiente. “O nosso setor agrícola vai ter alguns desafios para enfrentar o governo democrata, com um viés mais ambientalista”, avalia Zanini.

Como os investidores brasileiros podem ser impactados?

José Falcão, especialista em renda variável da Easynvest, analisa alguns dos principais ativos que podem sofrer algum impacto com os possíveis resultados da eleição norte-americana. No caso de commodities, ele cita que novas rusgas com China e países da Europa poderiam trazer perdas para ações de empresas de setores como petróleo, mineração, proteína animal e metalurgia.

Quanto às ações de empresas de tecnologia nos Estados Unidos, Falcão entende que se Trump segue no governo, e continua a queda de braço com gigantes da área para impor medidas que as afetem, isso traria instabilidade ao mercado global como um todo.

Sobre os títulos do Tesouro norte-americano, a expectativa de Falcão é de estabilidade dos juros em um intervalo entre 0 e 0,25% (o atual). “Para que haja uma mudança, depende da reações da atividade econômica, sobretudo no pós-pandemia”, reforça Falcão.

O especialista da Easynvest também ressalta que a renda fixa no Brasil sofre com a valorização do dólar ante ao real, resvalando na inflação, já que os produtos importados ficam mais caros. “Isso faria com que o Banco Central tivesse que mexer na política monetária para estabilizar a inflação. E mexendo nos juros, isso mexeria com todos os títulos de renda fixa, que pode ficar um pouco mais atrativa, mas longe dos dois dígitos”, afirma Falcão.

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