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Investimentos

Como analisar investimentos de políticos para identificar oportunidades na bolsa: o exemplo dos EUA

Fundos investem com base nas declarações obrigatórias dos congressistas americanos; no Brasil, "investimentos dos políticos são muito mais opacos"

Retrato de busto sob fundo azul escuro.
Por Leo Guimarães
Editado por Wladimir D'Andrade

25/02/2026 | 5:30 Atualização: 25/02/2026 | 10:25

NANC aposta em tech e crescimento; GOP foca valor e conservadorismo. Estratégias opostas. Foto:  AdobeStock
NANC aposta em tech e crescimento; GOP foca valor e conservadorismo. Estratégias opostas. Foto: AdobeStock

A ex-presidente da Câmara dos Estados Unidos Nancy Pelosi é uma espécie de Warren Buffett da política norte-americana. Suas transações na Bolsa – e do marido Paul Pelosi – são rastreadas por investidores e o sucesso das suas aplicações, que batem com folga o S&P 500, inspirou até a criação de um fundo de índice (ETF), chamado de NANC. Além disso, suas movimentações sempre alimentaram debates no país sobre potenciais conflitos de interesse em investimentos de políticos na bolsa. Poderiam eles ser tão ativos no mercado de capitais?

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O  fundo criado pela Tidal Financial Group investe, na verdade, em ações negociadas por todos os congressistas do partido Democrata, mas seu nome vem da influência da deputada no mercado financeiro. A empresa também tem a versão dos parlamentares republicanos, o ETF GOP (sigla para o apelido Grande Velho Partido, em inglês), antes chamado de KRUZ, em referência ao senador Ted Cruz. Veja nesta matéria as opções para abrir uma conta global e investir em ETFs norte-americanos.

O slogan desses dois ETFs, “Follow the Leaders“, resume bem a visão geral de que os parlamentares têm acesso a informações privilegiadas e, portanto, valeria a pena “seguir os líderes” por meio desses produtos de investimento.

“Os políticos têm informações que a gente não tem. Eles sabem o que está sendo conversado nos corredores do poder, quais são os planos do partido, da maioria”, diz Marcos Praça, analista da Zero Markets Brasil. “E se o político tem uma informação de uma empresa listada em bolsa, ele acaba querendo se posicionar também.”

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Lei de Obama permitiu rastreamento das ações dos políticos

Esse tipo de ETF que rastreia os investimentos dos parlamentares norte-americanos é possível devido à Stock Act (Lei das Ações, em tradução livre), lei sancionada em 2012 pelo ex-presidente Barack Obama que obriga os parlamentares a divulgar, em até 45 dias, as suas movimentações no mercado acionário. Altos funcionários do Poder Executivo, autoridades e servidores do Poder Judiciário também estão sujeitos às exigências da lei.

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A regra surgiu em um contexto de baixa aprovação do Congresso dos EUA. Antes da Lei das Ações, as transações dos congressistas no mercado era uma área cinzenta que aumentava a insatisfação dos eleitores, que passaram a exigir maior transparência diante da desconfiança de uso de informação privilegiada.

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Mas seguir os líderes não se assemelha como um oásis no deserto. Enquanto o ETF dos democratas está na casa dos 80% de valorização desde sua criação em 2023, acima do S&P 500 do período (70%), o ETF dos republicanos perdeu para o principal índice do mercado dos EUA, com uma performance na casa de 55% no período.

Em entrevista à plataforma Seeking Alpha, o gestor dos dois fundos, Dan Weiskopf, disse que o ETF NANC tende a ter empresas de perfil de crescimento, com cerca de 50% do portfólio em tecnologia. Já o GOP tem uma estratégia mais conservadora e foca em companhias de valor, que têm geração de caixa estável e crescimento mais moderado, com cerca de 19% em ações do setor tecnológico.

“Na verdade, tem muito viés nisso, de esquerda ou de direita. Os democratas acabam seguindo setores que acreditam, mais ligados à sua visão de mundo. O mesmo serve para os republicanos. Então, não é só seguir carteira do político que vai dar bom”, comenta Praça.

Vale a pena copiar carteiras de políticos?

Justamente por isso que a estrategista-chefe da Nomad, Paula Zogbi, não acredita nos dois fundos como tese de investimento. Na prática, avalia, os  ETFs são produtos baseados em copiar carteiras de outras pessoas, com a premissa de que elas têm informações privilegiadas, mas que, por outro lado, não são especialistas em investimentos. “E pior, as informações vêm com 45 dias de atraso. Pode ser que essa posição mude e, no momento em que você investir, a tese já não vale mais”, diz.

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Zogbi também enxerga possíveis problemas de liquidez. Na sua visão,  os produtos não são tão populares assim, com volume de negociação diária de US$ 1 milhão, no caso do NANC, e de US$ 300 mil no caso do GOP. Na visão de Zogbi, isso pode gerar prejuízo na hora de resgatar, no caso de investimentos mais expressivos.  “Esse volume diário é baixo para os padrões do mercado de ETF dos Estados Unidos.”

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Apesar de sua visão crítica, a estrategista da Nomad avalia que a existência desse tipo de produto é muito positiva. “Acho que acompanhar, e talvez tirar uma ideia de trade disso, pode ser interessante. Ler as notícias, acompanhar a carteira que eles divulgam… mas eu não assumiria que o ETF em si é uma boa forma de fazer esse acompanhamento”, completa.

Plataformas rastreiam os movimentos dos parlamentares na bolsa

A ex-presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, comprimentada pela sua equipe em Washington, EUA.
A ex-presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi (democrata da Califórnia), é recebida por sua equipe após anunciar que deixaria o cargo de liderança, no Capitólio, Washington, em 17 de novembro de 2022. (Imagem: Erin Schaff/The New York Times)

Neste sentido, há muitas formas de rastrear os investimentos dos parlamentares norte-americanos. Uma das mais conhecidas é a plataforma Capitol Trades, que monitora e divulga, quase que em tempo real, as operações de parlamentares dos EUA.

No caso de Nancy Pelosi, a plataforma mostra que, entre as últimas operações registradas pela parlamentar, no dia 26 de janeiro, estão movimentações envolvendo ações da Alphabet, a dona do Google (GOGL34).

Em 30 de dezembro de 2025 ela realizou a venda parcial de ações, entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões, além de outros exercícios de opções de compra (calls) da companhia com vencimento em 15 de janeiro. Esses movimentos são acompanhados de perto e costumam movimentar o preço dos papéis. Neste período em que os Pelosi estavam comprados em Alphabet (GOOG), as ações valorizaram 6%.

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Em um ano, a parlamentar e seu marido movimentaram um volume de operações de US$ 51,8 milhões e a Alphabet é a segunda empresa mais negociada por eles, depois da Apple (AAPL34).

Pelosi é considerada uma das parlamentares mais pontuais nas suas declarações, divulgando seus trades antes do prazo de 45 dias. Mas há os que não respeitam os prazos e ficam sujeitos a multas irrisórias, de US$ 200 para investimentos milionários.

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Esses desvios ampliaram a discussão nos EUA para proibir que congressistas invistam diretamente em ações, com o público enxergando problema ético nesses atrasos.

E no Brasil, existe algo parecido?

No Brasil, o quadro se mostra bem diferente. Os políticos só precisam abrir a evolução de seus patrimônios de quatro em quatro anos durante o período eleitoral.

Por outro lado, as pessoas politicamente expostas têm um monitoramento mais rigoroso de suas contas por parte de bancos e corretoras. Essa informação, no entanto, não é compartilhada com o público, mas apenas com o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão de inteligência financeira ligado ao Banco Central (BC) que serve para combater a lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo.

“Isso acaba gerando essa discussão ética e uma discussão de governança. No caso brasileiro, os investimentos dos políticos são muito mais opacos”, comenta Henrique Castro, professor de Finanças da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP).

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Castro lembra que há discussões em vários países sobre a questão de parlamentares operarem ações com a possibilidade de tirar vantagens no mercado. O professor  acredita que uma limitação a esse tipo de investimento seria inóqua, já que o político poderia operar via de parentes, por exemplo.

“Uma solução é chamada de blind trust“, diz, referindo-se aos fundos cegos adotados em alguns países, em que o político entrega seu dinheiro para um gestor independente de forma que ele não sabe, e não pode opinar, onde será feito o investimento. “Isso elimina o conflito de interesses“, comenta.

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Por outro lado, Castro se diz cético em relação à criação, no Brasil, de leis que tragam maior transparência aos investimentos de políticos na bolsa, mas acredita que o tema pode tomar corpo com pressão da sociedade. Uma iniciativa vinda do Judiciário também seria improvável, já que os juízes poderiam ficar expostos ao controle público. “A gente está distante disso, mas temos exemplos de governança no mundo. E se queremos tornar o nosso mercado cada vez mais maduro, é nessa direção que devemos seguir.”

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