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Investimentos

The Economist: Por que 2020 foi uma porcaria para os fundos quantitativos?

A resposta pode estar nas poucas vantagens que os seres humanos ainda têm sobre as máquinas – inclusive no mercado financeiro

Por E-Investidor

20/11/2020 | 13:00 Atualização: 20/11/2020 | 21:10

O aperto de mão entre homem e máquina (Foto: Evanto Elements)
O aperto de mão entre homem e máquina (Foto: Evanto Elements)

(The Economist) – Qual é a sensação de perder para uma máquina? Em 1997 o melhor enxadrista do mundo, Garry Kasparov, foi derrotado pelo Deep Blue – um supercomputador de US$ 10 milhões
fabricado pela IBM. Vinte anos depois, ele escreveu o livro “Deep Thinking”, no qual relata essa
experiência. Na narrativa, o autor deixa muito claro que todas as partidas foram extremamente
cansativas. Ou seja: até os maiores enxadristas do mundo, como é o caso de Kasparov, sentem
exaustão e frustração, e a dúvida se infiltra sorrateiramente. De seu lado, o Deep Blue precisou
apenas ser reiniciado de vez em quando.

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Esse jogo está virando. Agora, a pergunta é: qual a sensação de vencer uma máquina? No dia 31 de
dezembro de 2020, até o mais limitado investidor adepto da estratégia de comprar papéis de um
fundo de índice para mantê-los por um bom tempo poderá se gabar de uma vitória como essa. Este
ano foi uma porcaria para os fundos quantitativos, que usam computadores poderosos para
vasculhar dados do mercado em busca de padrões que permitam prever preços futuros. Nos últimos
meses, uma das melhores táticas desses fundos foi aquela conhecida como “momentum”: comprar
ações que ganharam recentemente e vender ações que perderam recentemente. Entretanto, no dia
9 de novembro, a notícia de uma possível vacina eficaz contra a covid-19 trouxe consigo o pior dia
para essa linha de investimentos.

Os fundos quantitativos (ou “quants”, para os íntimos) dependem do que já aconteceu no passado.
Diante de um evento sem precedentes – com o surgimento de uma vacina em meio a uma pandemia
– eles ficam confusos. É verdade que alguns quantitativos hedge estão enfrentando perdas
consideráveis, e que talvez alguns fundos comandados por administradores humanos tenham
arrebentado a boca do balão. O terreno em que um gestor de carne e osso é capaz de derrotar uma
máquina é exíguo, mas o dia 9 de novembro veio mostrar que isso pode acontecer. Trata-se de uma
pequena vitória para a nossa espécie.

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Não deixa de ser irônico que a estratégia “momentum” se aproveite de fraquezas humanas. Uma
delas é o “viés conservador”: investidores tendem a se aferrar com unhas e dentes a visões já
existentes, e a mudança é lenta, resultado de uma reação ao surgimento de informações novas.
Talvez esses investidores atribuam importância excessiva ao preço pago por um papel como
indicativo de seu valor real – e, consequentemente, talvez eles vendam ações vencedoras cedo
demais, ou mantenham nas mãos ações ruins por tempo demais. Além disso, existe a tendência
oposta de exagerar a dimensão de sucessos passados. Assim, além de reagir menos do que o
necessário diante de novas informações, posteriormente as pessoas reagem mais do que o
necessário diante de acontecimentos passados. A estratégia “momentum” explora exatamente isso.

Muitas abordagens do tipo “long-short” – incluindo a abordagem “momentum” – classificam as
ações com base num atributo específico e compram o decil (ou quintil) superior daquele grupo,
vendendo a parte de baixo. Essa movimentação exige computadores. Peneirar milhares de títulos
em alta velocidade é uma habilidade que vai muito além dos parcos talentos de um gestor vivo. É
preciso ter algoritmos capazes de determinar e em seguida fazer o ajuste fino do período ideal para
realizar essa análise. Além disso, é necessário ter acesso veloz e ininterrupto a plataformas de
negociação automática e a dados do mercado. Ninguém se arriscaria a encarar tal tarefa usando
apenas as mãos e um cérebro.

No xadrez, a força bruta do poder de computação acaba ganhando a parada. No mundo do
investimento, a potência dos traders sintéticos está em ler toneladas de informações produzidas na
linguagem das máquinas, como as variações mínimas no preço das ações. Os computadores mais
potentes entendem até dados não-estruturados – mais conhecidos como big data. Ocorre que
acontecimentos como a descoberta de uma vacina são capazes de desnortear até as máquinas mais
inteligentes. E, aqui, os humanos têm uma vantagem. Eles conseguem afunilar infinitas
possibilidades usando seus atalhos mentais. Uma pessoa é capaz de imaginar situações nunca vistas
antes e fazer raciocínios como “considerando o investimento financeiro e os esforços envolvidos, é
possível que uma vacina esteja disponível em breve”, ou então “a notícia de que a vacina pode
chegar ao mercado tem o potencial de disparar a venda de ações que se beneficiam da quarentena e
reanimar as ações que se beneficiam da circulação normal nas cidades”.

Mas, afinal de contas, por que a mudança nos preços foi tão drástica? Um guru dos fundos
quantitativos afirma que, via de regra, quanto mais rápida a negociação menor a capacidade de usar
estratégia. Uma tática veloz de compra e venda, como é o caso do “momentum”, depende de
mercados líquidos para manter o custo dos negócios sob controle. E, quando o fundo quantitativo
sofre perdas, as regras de gestão de risco podem forçá-lo a fechar posições. Nesse caso, com todo
mundo correndo para cair fora ao mesmo tempo, a oscilação nos preços fica mais acentuada. Em
parte, é justamente por isso que os fundos quantitativos mais sofisticados não param de mudar. Eles buscam conjuntos de dados únicos, que possam ser usados para ensinar e treinar seus
computadores – ou tentam descobrir novas maneiras de analisar sinais sutis, que os outros são
incapazes de identificar em meio ao ruído do mercado.

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Os quantitativos passaram por maus bocados, mas nem de longe estão em retração. Pelo contrário:
seus domínios tendem a se ampliar. A margem de vantagem das negociações comandas por
gestores vivos – em outras palavras, pela engenhosidade humana – vai diminuir. Vale lembrar que
Kasparov venceu a primeira partida disputada contra o Deep Blue, em 1996. Agora, conforme o
próprio enxadrista já ressaltou, qualquer um pode baixar joguinhos grátis de xadrez bem mais
potentes do que aquele. Vamos saborear nossas vitórias contra as máquinas enquanto é tempo.

(Tradução: Beatriz Velloso)

© 2020 The Economist Newspaper Limited. Direitos reservados. Publicado sob licença. O texto original em inglês está em www.economist.com

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