As Bolsas de Nova York, que já vinham em baixa desde o início de 2026 graças à rotação dos portfólios globais, foram fortemente impactadas pela guerra. Parece um movimento contrário à resposta tradicional do mercado financeiro em momentos de incerteza, que geralmente levam o capital internacional a se refugiar em ativos de menor risco. Mas faz sentido tendo em vista o que vinha ocorrendo antes de a guerra eclodir, explica Rodrigo Sgavioli, head de Alocação da XP Investimentos.
“Por mais que o clima de aversão a risco de março tenha impactado todo mundo, o pano de fundo não mudou. A tese principal que ainda está em curso é de uma mudança de alocação marginal em bolsas globais saindo de mercados desenvolvidos, principalmente Estados Unidos, e entrando em emergentes”, explica. “Sofreu mais quem, na margem, já estava ficando um pouco para trás, que eram índices de países desenvolvidos e os próprios índices de ações americano.”
O ajuste não foi pequeno. O S&P 500 caiu 5,09% em março, enquanto o Nasdaq teve queda de 4,75%.
A perda só não foi maior porque no último pregão do mês, a terça-feira (31), os mercados globais deram um salto de recuperação após sinalizações do Irã indicando que estaria disposto a negociar com os Estados Unidos pelo fim do conflito. Antes disso, o S&P 500 caía mais de 7% no acumulado mensal.
Para se ter uma ideia do tamanho do impacto, o último mês tão negativo em Nova York foi março de 2025, quando o Nasdaq perdeu 8,21% e o S&P500 caiu 5,75%, segundo levantamento da Economatica.
Há 12 meses, o mercado americano sofria com a incerteza gerada pela promessa de guerra tarifária do presidente dos EUA Donald Trump. O anúncio das “tarifas recíprocras”, que ganhou a alcunha de Liberation Day, veio em 2 de abril – o desempenho na ocasião também foi fortemente negativo naquele semana, mas, aos poucos, à medida que o presidente americano recuava no discurso, as Bolsas se recuperavam. Em abril, o S&P 500 caiu apenas 0,76%; o Nasdaq teve leve alta de 0,85%.
A queda de 2026 é de mesma magnitude, mas parece bem mais silenciosa. “Em geral, a percepção do mercado era de que essa guerra seria passageira e que em algum momento as coisas voltariam ao normal. As tarifas iriam impactar as empresas para o resto da vida, por 12, 24 meses, até, eventualmente, caírem ou não. Era algo muito mais relevante e para um universo maior de empresas do que o impacto do preço de óleo e gás”, explica William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.
A guerra no Oriente Médio, porém, acelerou um movimento de desvalorização que já vinha acontecendo nos primeiros meses deste ano, com investidores globais recalibrando carteiras que passaram muitos anos sobrealocadas nos EUA. Mas há ainda outros fatores. A incerteza com o momento da economia, com o Federal Reserve pressionado pela inflação ainda fora da meta e um mercado de trabalho desacelerando, é um deles. Há também questionamentos sobre os investimentos bilionários ligados a inteligência artificial (IA).
“Os EUA vinham ainda de um momento de muita dúvida e incerteza em relação ao segmento de software, com todas as novidades de AI podendo disruptar diferentes mercados e diferentes empresas. Alguns setores que vinham performando bem, como o industrial, sofreram bastante”, destaca Alves.
Janela de oportunidade
A queda das Bolsas de NY em 2026, acentuada pelo desempenho de março, trouxe uma correção importante em papéis que já há algum tempo são considerados “caros” pelo mercado. Nos meses finais de 2025, a alta dos índices, puxada principalmente por nomes de tecnologia, fez muita gente se questionar se a tese da inteligência artificial não seria a próxima bolha a explodir. Houve muita discussão sobre o tópico, como mostramos aqui.
Fato é que, em termos de lucro, as empresas continuam entregando resultados expressivos. O preço das ações na Bolsa, no entanto, deu alguns passos atrás. Para os especialistas, a guerra reabriu a janela para se investir nesses papéis.
“Muita coisa chama a atenção, especialmente nas empresas de tecnologia. Faz tempo da última vez que vimos a Nvidia negociar a 15 vezes lucro, Broadcom a 17x, Microsoft menos de 20x. Bancos como JP Morgan a 12 vezes lucro, Bank of America a 10x também chamam a atenção”, destaca Will Castro Alves, da Avenue. “Para quem pensa em montar uma posição de longo prazo em Estados Unidos, é um bom momento.”
A nova janela de alocação fez a XP alterar as estratégias de carteira para abril, adicionando um passo a mais de ações globais. A ideia não é entrar “all in”, justamente pela incerteza com a continuidade do conflito, mas sim aproveitar a queda dos preços para aumentar as posições de S&P 500, especialmente das techs. “Vínhamos falando que queremos ter Bolsa americana, queremos ter IA, mas os valuations estavam esticados. Veio a guerra e corrigiu parte desses preços para níveis que abrem uma janela de oportunidade para quem quer começar ou quer rebalancear o portfólio para aumentar a exposição a tecnologia”, diz Rodrigo Sgavioli.
Essa não é uma visão apenas de players brasileiros. Jeremiah Buckley e Michael Keough, gerentes de portfólio da Janus Henderson, destacam que a gestora está usando as quedas para aumentar posições em empresas que tenham vantagens competitivas duradouras, focando em nomes de qualidade e que ofereçam previsibilidade de fluxo de caixa. Nas techs, a preferência é por semicondutores e softwares.
“A geopolítica é inerentemente imprevisível e pode causar movimentos rápidos no mercado baseados no medo. No entanto, historicamente, a menos que esses eventos alterem drasticamente a trajetória econômica global ou o crescimento dos lucros das empresas a longo prazo, seu impacto tende a ser de curta duração para os investidores de ações“, diz Buckley. “Mantemos nossa convicção de que o custo de oportunidade de estar fora do mercado durante uma recuperação costuma ser maior do que o risco de enfrentar a volatilidade de curto prazo.”