Alta do diesel e dos fertilizantes pressiona o agronegócio brasileiro e afeta desde o produtor rural até empresas listadas e fundos ligados ao setor. (Foto: Adobe Stock)
A escalada da guerra no Oriente Médio recolocou o petróleo no centro do tabuleiro global e, com ele, abriu um canal direto entre geopolítica, inflação e o bolso do investidor brasileiro. No agro, diesel mais caro e fertilizantes pressionados começam a comprimir margens, afetando desde o produtor rural até empresas listadas na Bolsa e fundos que dependem da renda gerada pelo setor.
“O que vivemos agora é um choque duplo sem amortecedor”, resume André Matos, CEO da MA7 Negócios. Diferentemente de 2022, quando a alta de custos veio acompanhada de valorização das commodities, o cenário atual combina insumos mais caros com preços agrícolas relativamente estagnados. O diesel S10, por exemplo, já acumula forte alta de 13,6% em março, ante o mês anterior, levando o litro a R$ 7,10.
Já o preço do diesel comum cresceu 12,34% no mesmo período, segundo a pesquisa Índice de Preços Edenred Ticket Log (IPTL). Etanol hidratado e gasolina também subiram neste mês, com alta de 1,26% e 3,41% ante fevereiro, para R$4,83 e R$6,67 por litro, em média, respectivamente.
Diante da escalada, o governo federal tenta costurar um acordo com os Estados para conter o avanço do diesel. Em nota conjunta divulgada na noite desta terça-feira (31), o Ministério da Fazenda e o Comsefaz afirmaram que mais de 80% dos Estados já sinalizaram adesão à proposta de subvenção ao combustível.
A medida, que ainda depende de publicação de uma medida provisória, prevê um subsídio de R$ 1,20 por litro por dois meses, com custo estimado em R$ 3 bilhões, dividido entre União e Estados. O objetivo é evitar desabastecimento, diante da defasagem entre os preços domésticos e os internacionais.
Ainda há resistências. O Rio de Janeiro, por exemplo, informou que vai aguardar os detalhes da MP antes de decidir, citando impacto potencial de cerca de R$ 30 milhões por mês na arrecadação estadual.
Mesmo com a tentativa de alívio, o efeito no campo já é imediato.
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Enquanto isso, fertilizantes são comprados sob pressão para a próxima safra – um descasamento que, segundo Matos, “é o mais severo em anos”.
Na prática, isso se traduz em compressão imediata de margem no campo e também em desafios operacionais no curto prazo. Bruno Benassi, analista de Ativos na Monte Bravo, destaca que o problema não é apenas preço, mas disponibilidade. Segundo ele, com o diesel mais caro e até mais escasso em alguns momentos, há risco de atrasos e encarecimento da colheita. Em culturas como soja, milho e até cana-de-açúcar, “a gente deve ter alguma pressão logística por conta de custo de combustível”, o que pode elevar custos ou até comprometer o ritmo das operações.
Como explica Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, “a alta do diesel eleva diretamente o custo operacional e logístico […] enquanto fertilizantes pressionam o custo por hectare, especialmente em culturas intensivas como soja e milho.”
O produtor, nesse contexto, perde poder de repasse: vende a preços internacionais, mas arca com custos domésticos elevados.
Esse efeito se espalha em cadeia. Primeiro, atinge os grãos; depois, chega à logística, pressionada pelo frete em um momento de safra recorde; e, com alguma defasagem, alcança o setor de proteínas, via encarecimento da ração. “As proteínas têm defasagem de um a dois trimestres, mas o choque chega”, diz Matos, destacando o impacto gradual sobre frigoríficos e integradores.
Para Benassi, “se grãos subirem muito, a gente pode ter alguma pressão, principalmente na parte de frango“, justamente o setor em que as margens vinham mais elevadas nos últimos anos.
Quem sofre e quem consegue se proteger
Na Bolsa, esse choque de custos cria uma divisão clara entre vencedores e perdedores. De um lado, empresas mais expostas ao custo puro tendem a sofrer.
“Negativamente expostas: SLC Agrícola e BrasilAgro via aumento direto de custo agrícola”, aponta Lima, citando também operadores logísticos que enfrentam pressão no curto prazo.
Benassi menciona possíveis efeitos negativos em companhias como BRF (BRFS3) e Seara, braço da JBS (JBSS3), caso a pressão de custos de ração se intensifique e não seja totalmente compensada por hedge (proteção).
De outro lado, há companhias com algum grau de proteção e até potenciais beneficiárias. “Empresas com hedge natural embutido no modelo”, como destaca Matos, conseguem amortecer parte do impacto. É o caso de frigoríficos exportadores, cuja receita em dólar ajuda a compensar a pressão de custos, ainda que não elimine totalmente o problema.
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Mas nem toda exposição cambial garante proteção.
Como alerta Luis Ferreira, CIO do EFG Private Wealth Management, “o verdadeiro ‘hedge de guerra’ não é simplesmente a ação que sobe com o dólar. É a empresa que consegue preservar margem, caixa e previsibilidade”.
Ou seja, mais do que receita dolarizada, importa a combinação de custos controlados, capacidade de repasse e balanço saudável.
Esse ponto é crucial porque o mercado tende a precificar rapidamente o benefício do câmbio, mas demora mais para incorporar os efeitos negativos sobre atividade global, demanda e cadeias logísticas. “A pergunta relevante não é apenas quem vende em dólar, mas quem consegue transformar essa exposição em geração sustentável de valor”, diz Ferreira.
Ainda dentro da Bolsa, Benassi aponta casos específicos que podem se beneficiar marginalmente do cenário. Ele cita a Rumo (RAIL3) como uma potencial vencedora, já que o encarecimento do diesel pode aumentar a urgência de contratação de transporte ferroviário. Com uma safra grande a ser escoada, isso pode melhorar volumes e até condições comerciais da companhia. Além disso, ele vê espaço para impacto positivo em empresas como São Martinho (SMTO3), dependendo da dinâmica entre etanol, açúcar e preços de combustíveis.
“O risco mais sério está nos FIAGROs [Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas do Agronegócio] de papel com carteiras concentradas. Produtor com margem zero não paga CRA [Certificado de Recebíveis do Agronegócio]”, afirma Matos.
Benassi vai além e afirma que o segmento já vinha pressionado antes mesmo do novo choque. Segundo ele, o crédito no agro continua frágil e pode até piorar com a nova rodada de incertezas envolvendo diesel e fertilizantes. Por isso, sua recomendação é cautelosa. O momento não é de aumentar exposição a FIAGROs, especialmente os mais concentrados.
Já os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) logísticos tendem a ser mais resilientes, embora não imunes. Com o frete mais caro, a demanda por armazenagem cresce, sustentando parte da receita. Ainda assim, há risco de curto prazo nos inquilinos ligados ao agro, que podem enfrentar aperto de caixa antes de renegociar contratos.
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Na avaliação de Benassi, porém, os fundos logísticos tradicionais devem sentir impacto limitado. Com imóveis bem localizados e inquilinos de maior qualidade, a tendência é de estabilidade no curto prazo. Ele pondera que empresas como grandes players de e-commerce podem sofrer alguma pressão de margem com o aumento do custo logístico, mas não o suficiente, por ora, para gerar revisões contratuais relevantes.
Nos fundos de renda urbana, o efeito pode até ser misto. Se por um lado o choque de custos pressiona a economia, por outro, a inflação de alimentos pode beneficiar ativos expostos ao varejo alimentar. Segundo o analista da Monte Bravo, esse movimento pode acelerar o crescimento de receita de redes como atacarejos e supermercados, o que tende a se refletir positivamente nos fundos com esse perfil de locatário.
Inflação, Selic e o efeito no bolso
O impacto não para no setor produtivo, ele chega à inflação. O encarecimento de alimentos e energia pressiona o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e contamina expectativas, reduzindo o espaço para queda de juros.
“O efeito líquido é manutenção de juros elevados por mais tempo”, afirma Lima, destacando que isso exige ajustes no portfólio, com preferência por ativos indexados à inflação e maior cautela com setores domésticos cíclicos.
Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, explica que “o cenário para política monetária se torna mais desafiador”, com inflação pressionada pela guerra e necessidade de maior cautela por parte do Banco Central. Ainda que haja expectativa de cortes graduais, o ciclo tende a ser mais lento e menos intenso.
André Matos é mais direto ao afirmar que “subir a Selic não resolve choque de oferta.”
Para ele, o risco é de um ambiente de estagflação leve (com inflação resistente e crescimento mais fraco) o que complica ainda mais a vida do investidor.
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Na prática, esse cenário já começa a influenciar decisões de alocação. Benassi afirma que, diante da maior incerteza, a estratégia tem sido reduzir exposição a setores mais sensíveis a juros e atividade, como incorporação, locadoras e shoppings, e aumentar posições em empresas mais defensivas, com receitas previsíveis e menor dependência do ciclo econômico.
Do diesel ao dividendo: como ajustar a carteira
Diante desse quadro, o investidor precisa ir além da leitura setorial e olhar para a estrutura da carteira. A recomendação dos especialistas converge para três pilares:
Qualidade;
Seletividade; e
Diversificação.
Na renda variável, isso significa priorizar empresas com capacidade de preservar margens, baixa alavancagem e algum poder de repasse, em vez de simplesmente buscar exposição ao dólar ou commodities. Setores mais defensivos, como utilidades públicas, também ganham espaço.
No crédito, a palavra-chave é diversificação. FIAGROs concentrados em poucos devedores tendem a carregar mais risco em um cenário de estresse, enquanto estruturas com garantias reais e carteira pulverizada oferecem maior proteção.
Na renda fixa, o ambiente de juros elevados por mais tempo favorece pós-fixados e títulos atrelados à inflação, ainda que haja espaço tático para prefixados em horizontes mais longos.
Mas talvez o principal ajuste seja conceitual. Luis Ferreira afirma que “uma boa carteira não tenta prever o próximo choque. Ela busca impedir que o patrimônio inteiro dependa da mesma direção.”
Em um mundo mais volátil, o objetivo não está em apostar no ativo certo, mas em construir um portfólio capaz de sobreviver aos cenários errados.