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Investimentos

Guerra no Oriente Médio pode atrasar queda da Selic? Alta do petróleo reacende debate, diz Marília Fontes

Escalada do conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos eleva preços do petróleo, aumenta o prêmio de risco global e faz mercado rever apostas sobre cortes de juros no Brasil

Por Isabela Ortiz

05/03/2026 | 13:26 Atualização: 05/03/2026 | 13:26

Alta do petróleo provocada pela escalada das tensões no Oriente Médio reacendeu entre investidores o debate sobre inflação e o ritmo de queda dos juros no Brasil. (Foto: Adobe Stock)
Alta do petróleo provocada pela escalada das tensões no Oriente Médio reacendeu entre investidores o debate sobre inflação e o ritmo de queda dos juros no Brasil. (Foto: Adobe Stock)

A escalada das tensões no Oriente Médio voltou a colocar os mercados financeiros em estado de alerta e reacendeu as dúvidas sobre o futuro da taxa básica de juros. Para a analista Marília Fontes, sócia fundadora da Nord Investimentos, o aumento da incerteza geopolítica já começa a afetar as expectativas do mercado, especialmente por causa do impacto potencial do petróleo sobre a inflação.

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Segundo ela, o conflito, que já entra no sexto dia, elevou rapidamente o nível de preocupação entre investidores globais. “Com o Irã demonstrando resistência aos ataques coordenados de Israel e Estados Unidos“, os mercados costumam reagir de forma quase imediata, explica a especialista.

“O risco de interrupções no fluxo de petróleo, incluindo ameaças ao Estreito de Ormuz, provocou um choque imediato nos mercados de energia”, diz Fontes.

Esse corredor marítimo é particularmente sensível. Cerca de 20% de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo passa pela região, o que faz com que qualquer ameaça logística ali tenha impacto direto nos preços da commodity.

De acordo com a analista, quando episódios dessa natureza acontecem, o comportamento do mercado segue um padrão conhecido. “Quando um evento desse tipo acontece, os mercados reagem rapidamente, tentando antecipar suas possíveis consequências. O resultado costuma ser um aumento generalizado do prêmio de risco”, explica.

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Essa reação ficou evidente já nas primeiras sessões após o agravamento do conflito. Bolsas globais recuaram, commodities energéticas dispararam e ativos considerados proteção ganharam força. Nos EUA, por exemplo, os futuros do S&P 500 chegaram a cair cerca de 1,4% no início da semana, enquanto o Dow Jones perdeu mais de 600 pontos intraday, refletindo o aumento da incerteza geopolítica.

Mas o movimento mais relevante ocorreu no mercado de energia. O petróleo Brent saltou rapidamente para a faixa de US$ 80 a US$ 85 por barril, após ter sido negociado próximo de US$ 70 poucos dias antes. A alta refletiu o temor de interrupções logísticas no Estreito de Ormuz e reacendeu um debate sobre o risco de um novo ciclo inflacionário.

Isso pode trazer a inflação de volta e atrasar a queda dos juros?

A preocupação se explica pelo efeito em cadeia que a energia costuma provocar na economia. Quando o petróleo sobe de forma rápida, o impacto tende a se espalhar por diversos setores – do transporte aos alimentos, passando por fertilizantes e custos industriais.

“Quando o preço da energia sobe rapidamente, existe sempre a possibilidade de contaminação ao longo das cadeias produtivas”, afirma.

Diante desse cenário, investidores passaram a rever temporariamente as apostas sobre cortes de juros em várias economias. E o movimento não demorou a chegar ao Brasil.

Nos últimos dias, os juros futuros brasileiros voltaram a subir depois de semanas de trajetória de queda. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2031, que havia chegado a negociar abaixo de 13%, voltou para a região de 13,5% com o aumento da tensão internacional.

Para Fontes, o movimento reflete um receio relativamente simples: se o petróleo subir de forma persistente, a inflação global pode voltar a pressionar, o que reduziria o espaço para cortes de juros por parte dos bancos centrais.

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No caso brasileiro, o tema ganha ainda mais relevância porque o mercado vinha trabalhando com a expectativa de início de um ciclo de redução da Selic ao longo do ano. Uma alta significativa do petróleo poderia atrasar ou suavizar esse processo, já que os combustíveis têm impacto direto na inflação doméstica.

Por que o ministro da Fazenda está otimista

O debate chegou ao governo. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou recentemente que acredita que a guerra não altera, por ora, a trajetória de queda dos juros no Brasil. Ainda assim, a própria necessidade de abordar o tema evidencia o grau de preocupação no mercado.

Apesar da reação inicial mais intensa, Fontes ressalta que é importante manter alguma perspectiva. Nos últimos dias, parte do movimento já começou a ser devolvida. Bolsas globais voltaram a subir levemente e o petróleo recuou um pouco após o pico inicial.

Isso ocorre porque, até agora, os investidores parecem interpretar o conflito como relativamente circunscrito ao Irã, sem uma escalada militar envolvendo vários países da região. Caso essa leitura se confirme, o impacto econômico tende a permanecer limitado.

Coloque o pé no freio

Para a analista, ainda é cedo para tirar conclusões definitivas. Conflitos geopolíticos são imprevisíveis e frequentemente provocam reações exageradas nos primeiros momentos. Episódios anteriores mostram que a volatilidade inicial nem sempre se traduz em efeitos duradouros sobre a economia.

Nesse contexto, ela defende cautela nas decisões de investimento.

“Para o investidor, a principal mensagem continua sendo manter a calma e evitar decisões precipitadas em momentos de ruído de curto prazo”, afirma.

Em outras palavras, o cenário atual não justificaria mudanças abruptas de estratégia.

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Do ponto de vista de alocação, Fontes destaca que a preferência estrutural continua sendo por títulos indexados à inflação dentro da renda fixa. Segundo ela, esses ativos tendem a oferecer proteção adicional em momentos de incerteza geopolítica, especialmente quando o petróleo está no centro das preocupações.

“Em cenários como este, títulos atrelados ao IPCA preservam o poder de compra caso a inflação volte a surpreender”, explica.

Para a economista, mais importante do que tentar prever o próximo movimento do mercado é manter uma carteira preparada para diferentes cenários. “Em momentos como este, mais do que tentar prever o próximo movimento do mercado, o mais importante é estar bem posicionado para diferentes cenários”, ressalta.

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