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Nota de R$ 200 vai estimular população a guardar ‘dinheiro no colchão’

Além de o BC resgatar memória inflacionária, nova cédula desestimula a educação financeira

Nota de R$ 200 vai estimular população a guardar ‘dinheiro no colchão’
Imagem da cédula de R$ 200 com o lobo-guará (Foto: Raphael Ribeiro/BCB)
  • BC apresentou e colocou em circulação, nesta quarta-feira (2), a nova cédula de R$ 200
  • Segundo a instituição, a nota foi criada atendendo uma demanda da sociedade e para diminuir os custos com a impressão de dinheiro
  • Para especialistas, a circulação da cédula de R$ 200 não deve impactar os investimentos. Porém, resgata memória inflacionária e desestimula a educação financeira

Nesta quarta-feira (2), o Banco Central (BC) apresentou e já colocou em circulação a nova cédula de R$ 200, que tem como personagem o lobo-guará. A nota foi aprovada no fim de julho pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que conta com representantes da autarquia e do Ministério da Economia.

De acordo com o BC, de fevereiro a junho deste ano, a busca Papel Moeda em Poder do Público (PMPP) cresceu 28,9%, indo de R$ 210,227 bilhões para R$ 270,899 bi – o maior valor da série histórica do BC, iniciada em dezembro de 2001.

À época do anúncio, Marilia Fontes, sócia da Nord Research e colunista do E-Investidor, analisou a decisão do BC pelo Twitter: “O dinheiro não está voltando, o que pode significar que as pessoas estão ‘guardando’ esse dinheiro. Esse entesouramento em papel moeda fez aumentar muito a demanda por dinheiro”.

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Com esse cenário, causado pela crise da covid-19, o BC informou que a criação de uma nova cédula vai irrigar a economia com de R$ 90 bilhões – ou 450 milhões de unidades de R$ 200.

Para entender como a impressão e a circulação dessa nova nota de R$ 200 pode impactar nos investimentos, o E-Investidor conversou com especialistas do mercado. Quem é investidor pode ficar tranquilo que não há impacto. Porém, a decisão mexe com a educação financeira por estimular as pessoas a guardar o dinheiro “embaixo do colchão”.

Além disso, o BC poderia agir de outras maneiras para injetar liquidez no mercado e cortar custos. A nota de R$ 200 pode assustar as pessoas, pois relembra um passado não tão distante de alta inflação e cédulas com muitos números – a maior em circulação foi a de Cr$ 500.000.000 (quinhentos milhões de cruzeiros), que circulou em 1993, antes do Plano Real.

O secretário do Tesouro Nacional, Bruno Funchal, descartou a possibilidade de a nova cédula de R$ 200 gerar inflação. Segundo ele, os índices de preços estão baixos no Brasil.

Além disso, o secretário afirmou que a nova nota atende uma necessidade da sociedade. E a sua produção também reduzirá o gasto com impressão de novas cédulas. “Como vamos produzir menos notas, de fato o gasto será menor”, disse Funchal.

Marcio Loréga, analista da Ativa

“A primeira impressão que a nova nota de R$ 200 causa é um pouco de receio. Isso porque ela remete a um passado que vimos notas de valores altos em moedas passadas e isso dá a entender que podemos ter um cenário de maior desvalorização no real. Então, o primeiro impacto é um susto.

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“Com relação à visão do governo, ele pensa em economizar com a nota, mas vemos que menos de 10% da população carrega notas de R$ 100. Ou seja, ela não tem um impacto muito grande, mas o governo afirma que está fazendo isso para cortar custos. Então, é um cenário que podemos levantar algumas dúvidas.

“Em relação aos investimentos, o primeiro impacto também não é positivo. Quando a pessoa pega esses R$ 200 em moeda, ela pode não colocar em um investimento e começar a guardar ‘dinheiro vivo’ em casa e começa e mitigar ainda mais os investimentos.

“É como se o governo tivesse desincentivando parte das pessoas a buscarem educação financeira e a investir. É como se ele falasse para a pessoa pegar o dinheiro e guardar que é melhor. A meu ver, essa não é uma coisa positiva do governo fazer.

“O melhor impacto seria ele investir em educação financeira e emitir uma nota de R$ 200. Se ele fez isso pensando em redução de custos, existem outras formas melhores de se fazer.

“Em relação ao mercado acionário, a emissão pode gerar um impacto não muito positivo para os bancos, pois se as pessoas seguirem a tônica do governo, vão começar a guardar menos recursos nas instituições financeiras e mais em casa. Então, pode prejudicar a área financeira que não vai ter mais tantos recursos para investir e impulsionar a economia e também a área de serviços de transações financeiras”.

Caio Mastrodomenico, CEO da Vallus Capital

“Em momentos de crise, as pessoas tendem a fazer saques e acumular reservas, tanto que vimos o volume de dinheiro vivo aumentar muito neste ano. A maioria das pessoas que está recebendo os benefícios acaba guardando o dinheiro em casa por medo das incertezas do cenário futuro. Com uma nota de valor de face mair, essa prática vai aumentar.

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“Com a nota mais alta, as pessoas ficarão mais propensas a guardar ela do que a gastar. E isso atrapalha a roda da economia como um todo, porque a circulação de dinheiro está sendo muito demandada. Mas ele será menos gasto e não será investido.

“É difícil mensurar uma correlação da nota de R$ 200 com um impacto expressivo nos investimentos. Porém, é um fato que as pessoas realmente estão fazendo saques para deixar de fazer pequenos investimentos. E com a nova nota isso vai aumentar.

“Além disso, a insegurança momentânea também faz com que algumas pessoas não invistam. Então, olhando para um todo, existe uma relação de que as pessoas guardam mais ‘dinheiro vivo’ em momento de crise e a nota alta vai aumentar essa prática”.

Maurício Gallego, gestor de carteiras da Constância Investimentos

“A nota de R$ 200 não altera em nada de dinâmica de investimentos no Brasil, porque hoje as transações com investimentos são via meios eletrônicos e não mais por meio de aplicação na boca do caixa, como ocorria há mais de 10 anos.

“Podemos dizer que a nota vai facilitar quem faz pagamentos à vista, pois diminui a quantidade de dinheiro transportado e quem faz algum tipo de poupança em casa com dinheiro vivo.

Porém, isso não é recomendado, porque a pessoa acaba perdendo poder de compra por causa da inflação; o dinheiro não rende nada. É sempre bom deixar o dinheiro investido, mas a nova cédula impacta pouco na dinâmica dos investimentos”.

Eduardo Levy, diretor de investimentos da Kilima Gestão de Recursos

“O lançamento da nota de R$ 200, por si só, não tem efeito nenhum na base monetária e nos investimentos. Mas a ideia de imprimir dinheiro e expandir a base monetária me parece precipitada nesse momento. Acredito que o Banco Central tem como injetar liquidez no mercado com outros mecanismos sem necessariamente imprimir dinheiro.

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“O Brasil ainda tem problemas fiscais muito sérios. Não estamos fora de perigo. Então, pensar em aumentar a base monetária como está sendo feito é perigoso neste momento. E talvez isso nem seja necessário.

“Ou seja, a emissão da nova nota não tem impacto e o BC tem como injetar liquidez no mercado com outros mecanismos sem necessariamente imprimir dinheiro. Ele poderia comprar ativos para ajudar a sustentar vários preços e, consequentemente, os agentes do mercado”.

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