Onde investir o ressarcimento do FGC dos CDBs do Banco Master: opções seguras e rentáveis
Caso traz lições ao investidor e reforça que a taxa de retorno não deve ser o único critério na escolha de um investimento; veja o que dizem os especialistas
Investidores do Master aguardavam pagamento pelo FGC. (Foto: Werther Santana/Estadão)
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) deu início ao pagamento a quem tinha Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Banco Master, o que significa que investidores vão procurar onde investir o ressarcimento. A instituição comandada por Daniel Vorcaro foi liquidada pelo Banco Central (BC) em 18 de novembro de 2025 e, desde então, investidores aguardavam a liberação dos valores.
O FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por instituição. Além disso, há um teto de R$ 1 milhão a cada período de 4 anos, no caso de quebra de mais de uma instituição financeira no mesmo intervalo de tempo.
O fundo devolve o valor investido, incluindo a remuneração prometida por esses CDBs do Banco Master até o dia 18 de novembro, quando a liquidação extrajudicial foi decretada pelo Banco Central. A soma de aportes mais rendimentos precisa ficar abaixo do teto para que haja ressarcimento pelo fundo garantidor.
Com a garantia em mãos, o investidor pode aplicar o dinheiro em diferentes modalidades de investimentos. Segundo especialistas consultados pelo E-Investidor, o cenário atual de juros elevados no Brasil permite essa realocação sem que seja necessário assumir riscos excessivos em busca de retorno.
Investiu mais de R$ 250 mil nos CDBs do Master e ficou sem a proteção do FGC? Veja o que fazer
A recomendação agora é clara: não olhar apenas para as taxas dos produtos financeiros. O investidor também deve observar o risco implícito nos papéis, além de procurar seguir os limites de cobertura do FGC e diversificar emissores.
Opções seguras e rentáveis para investir agora
Entre as alternativas seguras, está o Tesouro Selic, título público com liquidez diária e rendimento atrelado à taxa básica de juros (Selic), atualmente em 15% ao ano. A modalidade pode ajudar a reconstruir a reserva de emergência (dinheiro de fácil acesso para imprevistos), após o trauma com o Master.
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, também vê oTesouro IPCA+ como uma boa opção, principalmente os títulos com vencimentos mais longos, como os de 2029 e 2030, que oferecem taxas atrativas e proteção contra a inflação.
“O investidor precisa entender seus objetivos, perfil de risco e o prazo durante o qual está disposto a abrir mão desses recursos”, orienta.
Apesar de ser um investimento considerado vantajoso, o Tesouro IPCA+ envolve riscos, por sofrer com a marcação a mercado – ajuste diário do valor desses papéis com base nos preços praticados no mercado financeiro, refletindo oscilações nas taxas. Dessa forma, vender esses títulos antes do vencimento pode trazer perdas.
Além dos títulos públicos, os CDBs seguem como opção segura para o investidor, se bem escolhidos. Vale pesquisar o emissor do papel, procurar alternativas que paguem pelo menos 100% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI, principal parâmetro de rendimento de investimentos) e respeitar o limite de R$ 250 mil coberto pelo FGC.
Para quem deseja escapar do Imposto de Renda (IR), as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) de bancos sólidos oferecem segurança. Os investimentos são garantidos pelo FGC e podem melhorar o retorno líquido da aplicação. O ponto de atenção, nesse caso, vem do prazo de carência (tempo mínimo de espera para resgatar o dinheiro) de 6 meses para títulos prefixados ou indexadas ao CDI.
Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, sugere ainda uma outra opção ao investidor conservador: os fundos DI ou de renda fixa simples com carteira concentrada em títulos públicos. “Eles funcionam como conta-corrente turbinada, embora a taxa de administração ‘coma’ uma parte relevante do CDI”, pontua.
O que observar antes de investir?
Araújo destaca a importância de levar em consideração fatores como prazo e liquidez, “casando” o vencimento do investimento com a necessidade de uso do dinheiro. Vale conferir se o papel tem liquidez diária ou só no vencimento e se há possibilidade de resgate antecipado com deságio ou marcação a mercado.
Na hora de analisar taxas, o consultor recomenda comparar o retorno prometido por um papel com outros de diferentes emissores. “Se o prêmio parecer bom demais, isso pode ser sinal de um risco que não está sendo bem precificado, como ocorreu com parte dos CDBs de bancos médios mais frágeis”, diz.
Antes de escolher um investimento, outra dica envolve entender sobre rentabilidade e cenário econômico. Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP e especialista em investimentos, explica que opções pós-fixadas tendem a ter um desempenho melhor quando a Selic sobe. Já ativos atrelados à inflação garantem um ganho real e costumam ser mais defensivos para preservar o poder de compra a longo prazo.
“Os investimentos prefixados são boas alternativas para travar uma taxa alta por um certo período de tempo, sendo normalmente utilizados quando a Selic tem projeções de queda”, acrescenta.
Vai investir em CDB? Veja quais cuidados tomar
Mesmo que o episódio do Master tenha gerado insegurança entre os investidores, os CDBs continuam sendo instrumentos atrativos e considerados seguros, desde que haja uma análise criteriosa do emissor. Avaliar a solidez da instituição passa por observar fatores como porte, histórico de atuação, modelo de negócios e o grau de dependência da captação via CDB.
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Dentro do balanço de um banco, o chamado Índice de Basileia (IB) merece atenção especial. Quanto mais alto for esse índice, maior será a capacidade da instituição para absorver perdas. O BC determina que, para ser considerado saudável, um banco deve ter um Índice de Basileia de no mínimo 10,5%.
Segundo Rafaela de Sá, planejadora financeira CFP pela Planejar, outro ponto relevante é a nota de créditoatribuída por agências independentes. “Embora nem todos os bancos possuam nota pública, essa informação ajuda a entender como o mercado enxerga a capacidade da instituição de honrar seus compromissos”, explica.
O investidor pode buscar esse dado nos sites das próprias instituições financeiras, nos relatórios divulgados ao mercado e nos sites das agências de rating, como Fitch, Moody’s e S&P Global Ratings. O Banco Central também disponibiliza dados públicos sobre instituições financeiras, como indicadores de capitalização e informações cadastrais, que ajudam a formar uma visão mais clara sobre a saúde do emissor.
As lições do caso Master
O caso traz algumas lições aos investidores. A primeira, segundo Patzlaff, planejador financeiro, é não investir apenas porque a corretora recomendou ou porque apareceu uma notificação no aplicativo. “Procure entender se esse investimento faz realmente sentido para você. Não tenha medo de questionar”, aconselha.
Também não existe retorno elevado com risco baixo: quando uma oferta parece boa demais para ser verdade, geralmente há um risco oculto de liquidez ou de crédito que não está evidente à primeira vista.
Já o FGC deve ser tratado como o airbag de um carro. O investidor sabe que ele existe, mas espera nunca precisar usar.
“Comprar um título já contando com o fundo garantidor é como bater o carro de propósito só porque tem seguro. O processo de ressarcimento tem burocracias e o custo do tempo parado é irrecuperável“, alerta Patzlaff.
Como acessar a garantia do FGC?
O pagamento não é automático. O investidor precisa solicitar a garantia: pessoas físicas podem fazer isso diretamente pelo aplicativo do FGC, enquanto as pessoas jurídicas realizam o processo pelo site do fundo.
Ao finalizar o pedido, o investidor poderá visualizar o valor que irá receber. Em seguida, deverá assinar digitalmente um termo confirmando a solicitação do pagamento da garantia. As pessoas jurídicas também assinam o termo, enviado após a análise dos documentos.
Com a assinatura digital – e estando tudo de acordo com os dados bancários –, o FGC efetiva o pagamento em até 48 horas úteis, direto na conta de titularidade do credor e, assim, o investidor poderá decidir onde investir o dinheiro do ressarcimento.