Payroll é um dos principais indicadores acompanhados pelo Federal Reserve para calibrar a política de juros nos EUA. (Foto: Adobe Stock)
O payroll de janeiro divulgado nesta quarta-feira (11) indica um ritmo mais moderado de geração de empregos nos Estados Unidos, porém, longe de sinalizar deterioração. Para os investidores, a leitura tende a ser de neutra a impacto no Brasil levemente positivo, pois, de acordo com especialistas, reduz temores de superaquecimento da economia do país sem indicar risco imediato de recessão, pista importante para os próximos passos do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).
O indicador revelou criação de 130 mil vagas de empregos em janeiro, acima das 66 mil esperadas e também superior ao dado revisado do mês anterior. A taxa de desemprego ficou estável em 4,3%, enquanto o salário médio por hora avançou 0,4% no mês e 3,7% em 12 meses. Embora abaixo de períodos em que os EUA criavam mais de 200 mil vagas mensais, o resultado sugere desaceleração gradual e não enfraquecimento abrupto do mercado de trabalho.
A geração de vagas concentrou-se em saúde (+82 mil), com destaque para serviços ambulatoriais e hospitais, além de assistência social (+42 mil) e construção (+33 mil). Por outro lado, houve cortes no governo federal (-34 mil), movimento ligado à saída de servidores que aderiram a programas de desligamento diferido, e em atividades financeiras (-22 mil). Outros grandes setores mostraram pouca variação no mês.
No recorte da pesquisa domiciliar, a taxa de participação na força de trabalho ficou em 62,5%, enquanto a razão emprego-população permaneceu em 59,8%, ambas praticamente estáveis. O número de trabalhadores em tempo parcial por razões econômicas caiu para 4,9 milhões, mas segue acima do nível de um ano atrás. Já o contingente de desempregados de longo prazo (27 semanas ou mais) manteve-se em 1,8 milhão, representando 25% do total.
Além dos números de janeiro, o relatório trouxe revisões negativas para novembro (-15 mil) e dezembro (-2 mil), reduzindo em 17 mil vagas o saldo combinado dos dois meses. O processo anual de revisão, que incorpora dados mais amplos do mercado de trabalho, também levou a ajustes relevantes na série histórica de 2025.
Payroll de janeiro ancora percepção sobre corte de juros nos EUA
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o relatório trouxe uma surpresa positiva. “O payroll mostrou que a economia dos Estados Unidos abriu um número de vagas acima do esperado, com criação de empregos mais robusta do que muitos analistas esperavam para janeiro, enquanto a taxa de desemprego se manteve estável em torno de níveis baixos”, afirma.
Essa surpresa positiva indica que, apesar dos sinais de desaceleração no crescimento do emprego ao longo de 2025 e de incertezas específicas sobre o mercado de trabalho, “a demanda por mão de obra ainda tem alguma resiliência e não se deteriorou de forma abrupta mesmo após um ano de forte contenção econômica global e ajustes de política monetária nos EUA”, explica Lima.
Segundo ele, o dado “balança a percepção de onde o Federal Reserve posicionará sua política monetária a partir de agora”, já que um payroll mais forte pode adiar expectativas de cortes agressivos de juros nos EUA e sustentar taxas elevadas por mais tempo.
Ainda assim, Lima destaca que as bolsas de valoresamericanas devem reagir positivamente, pois o resultado foi interpretado como sinal de resiliência econômica e não de superaquecimento inflacionário, uma vez que a criação de empregos não veio acompanhada de pressão relevante nos salários.
“O payroll reforça a narrativa de soft landing, com crescimento sólido e menor risco de recessão, favorecendo principalmente setores cíclicos e tecnologia”, diz, acrescentando que parte do mercado financeiro estava posicionada de forma defensiva antes da divulgação, o que amplia o movimento de recomposição de risco no curto prazo.
‘Conforto’ para o Fed cortar juros
Para Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, existe uma “linha tênue” nessa interpretação. Segundo ele, o investidor busca um arrefecimento construtivo: desaceleração gradual na criação de vagas, redução de horas trabalhadas e moderação salarial, sem destruição líquida de empregos ou disparada do desemprego.
“Isso dá ao Fed conforto para cortar juros sem parecer que está correndo atrás do prejuízo”, diz.
Com 130 mil vagas e salários avançando 0,4% no mês, Trevisan alerta que o sinal muda rapidamente quando o enfraquecimento deixa de indicar ajuste e passa a apontar contração. “Quando começam revisões negativas expressivas, alta rápida do desemprego ou perda líquida de postos, o mercado deixa de ler como alívio inflacionário e passa a precificar risco real de recessão”, afirma.
Emprego vs inflação na decisão do Fed
O Federal Reserve reafirmou o compromisso com a meta de inflação de 2% no longo prazo e defendeu a estratégia atual de política monetária, destacando estabilidade de preços, transparência e apoio ao pleno emprego. Imagem: Adobe Stock)
Embora o payroll influencie expectativas, o Fed calibra sua política monetária com base no duplo mandato, estabilidade de preços e pleno emprego. No momento, a inflação corrente pesa mais na reação.
“O Fed está claramente mais dependente da inflação corrente, especialmente do núcleo e dos componentes de serviços, do que do mercado de trabalho”, diz Trevisan.
Ele cita o Índice de Preços ao Consumidor (CPI), com atenção especial ao núcleo, que exclui alimentos e energia, e ao chamado “supercore” de serviços (excluindo habitação), indicador sensível à dinâmica salarial.
Na leitura do gestor, o payroll aponta a direção da economia, enquanto o CPI mostra o patamar atual da inflação nos EUA. “Neste ponto do ciclo, o Fed tende a reagir mais ao CPI”, afirma. O mercado de trabalho só ganharia precedência diante de enfraquecimento abrupto capaz de gerar preocupação com estabilidade econômica e financeira.
Marcelo Freller, estrategista de investimentos do C6, contextualiza que o equilíbrio atual difere do cenário pós-pandemia. “Desde a pandemia, o risco de inflação superava o risco de recessão. Dados de desemprego mais altos vinham como boa notícia, porque indicavam juros mais baixos”, relembra.
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Agora, segundo ele, os riscos caminham de forma mais equilibrada. A inflação roda abaixo de 3% ao ano, enquanto o desemprego permanece em patamar historicamente baixo. “A geração de empregos tende a ser mais baixa, mas não necessariamente isso significa problema”, afirma. Para ele, a economia dos EUA mantém crescimento acima de 2%, com bolsas próximas das máximas.
Reflexos no Brasil
A leitura do payroll também atravessa o Atlântico. O resultado se enquadra mais como um sinal de desaceleração gradual do mercado de trabalho, sem indicar deterioração relevante ou risco imediato de recessão, o que tende a ser visto como neutro a levemente positivo pelos investidores. O dado costuma impulsionar emergentes por três canais:
Queda dos rendimentos das Treasuries(títulos públicos norte-americanos) longas; e
Maior apetite global por risco.
Nesse ambiente, setores domésticos sensíveis a juros tendem a liderar. “Varejo, consumo, construção civil e small caps costumam responder melhor”, afirma Trevisan. Já exportadoras de commodities cíclicas podem perder tração caso surjam dúvidas sobre crescimento global.
Freller observa que o fluxo recente privilegiou a Bolsa brasileira. “O fluxo que veio para o Brasil veio inteiro para Bolsa”, diz. O Ibovespaavançou, enquanto os juros reais, como os das NTN-Bs, títulos públicos indexados à inflação, acompanharam de forma mais contida.
Com manutenção do cenário externo favorável, ele projeta maior equilíbrio entre Bolsa e renda fixa. “É mais provável que a gente reverta à média do que amplifique tendências”, afirma, sugerindo espaço para desempenho superior dos juros reais caso a conjuntura global permaneça construtiva.
No fim das contas, o payrollde janeiro com suas 130 mil vagas, desemprego em 4,3% e salários avançando 3,7% em 12 meses reforça que a interpretação vai além do número cheio. A diferença entre boa e má notícia no impacto para o Brasil aparece menos na surpresa frente ao consenso e mais na leitura sobre o que o conjunto dos dados sinaliza para inflação, juros e crescimento.