Marcelo Michaluá é co-CEO da RB Asset, gestora independente com R$ 4 bilhões sob gestão (Foto: RB Asset/Arte E-Investidor)
O mercado de crédito privado enfrenta um novo ciclo de estresse em meio a uma sequência de eventos recentes que vão desde a liquidações bancárias, como o caso Master, até pedidos de recuperação judicial de companhias de peso na bolsa, como Raízen (RAIZ4), GPA (PCAR3) e Ambipar (AMBP3). Embora esses episódios tenham como elemento central as dificuldades financeiras das empresas, agravadas pela escalada dos juros nos últimos anos, eles também expõem a relevância de outro risco, até então, menos óbvio para o investidor de varejo: o “risco moral”.
Segundo Marcelo Michaluá, sócio-diretor e Co-CEO da RB Asset, a variável entrou no radar dos gestores em janeiro de 2023, com a descoberta da fraude contábil da Americanas (AMER3). À época, o episódio parecia ser um caso restrito à varejista, mas os novos eventos indicam que o problema pode ser mais comum do que se imagina e de difícil precificação. “O risco moral se tornou tão importante quanto o risco de crédito das empresas porque vimos que os balanços financeiros podem ser alterados”, diz Michaluá.
A realidade obrigou a gestora independente, com R$ 4 bilhões sob gestão, a aperfeiçoar a análise de risco dos ativos que compõem o portfólio de crédito privado. Michaluá explica que, além dos aspectos financeiros, as companhias são avaliadas sob a ótica de governança corporativa. Por isso, a reputação da empresa na mídia e executivos com dupla função, também entram no radar da asset.
“A combinação da nota de crédito e a análise fundamentalista de governança nos ajudam a elencar exatamente as empresas elegíveis a receber nossas alocações”, destaca o Co-CEO.
A carteira de crédito privado da RB Asset é formada por três fundos focados em debêntures incentivadas, sendo o RB Capital Debêntures Incentivadas FIC o de maior histórico, com 10 anos de operação.
Desde a sua originação até hoje, o produto enfrentou períodos de estresse do mercado — como o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, pandemia da covid-19 e recentes conflitos geopolíticos — e, ainda assim, acumula uma rentabilidade de 155,77%, contra 145,48% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário, uma taxa com lastro em operações realizadas entre instituições bancárias).
Crise do crédito privado?
Como mostramos nesta reportagem, os fundos de crédito privado registraram R$ 12,3 bilhões em resgates líquidos em apenas três semanas, de 20 de março a 6 de abril. O movimento reacende dúvidas sobre a solidez do mercado em meio à aversão ao risco dos investidores, especialmente com as incertezas dos efeitos da guerra no Oriente Médio para a economia.
Para Michaluá, as saídas não refletem, de modo geral, uma deterioração dos fundamentos da classe de ativos, mas sim um processo de reajuste do mercado diante da escalada dos juros nos últimos anos. Segundo o gestor, as empresas que emitiram dívidas durante a pandemia, quando a Selic estava a 2%, passaram a enfrentar maior pressão financeira com a alta expressiva da taxa, que chegou a 15%, em 2025.
“Se uma empresa estruturou uma debênture com vencimento em oito anos a CDI+2%, em 2020 ou em 2021, estava com uma dívida nominal de 5%. Hoje, esse custo subiu para algo próximo de 17%”, explica o executivo.
Esse movimento resultou em descasamentos entre ativos (bens) e passivos (obrigações financeiras), contribuindo para uma onda de inadimplência do mercado. Embora ainda estejam em níveis controlados, os episódios elevaram os spreads dos papéis diante do aumento da percepção de risco dos investidores. A taxa trata-se da remuneração adicional exigida pelos bancos ou qualquer outro credor para assumir o risco de inadimplência
Mas, para o executivo, os fundos com portfólios diversificados tendem a atravessar o período com maior resiliência do que outros produtos mais concentrados. A lógica se aplica, inclusive, para segmentos mais defensivos, como as debêntures incentivadas que estão ligadas a projetos de infraestrutura de serviços essenciais, como saneamento básico. “Para nós, as duas regras principais são: diversificação e casamento entre ativo e passivo”, afirma.