As explosões em Teerã e em outras cidades iranianas foram seguidas por retaliações com mísseis e drones, enquanto aumentaram os temores de interrupção no fluxo de petróleo na região, especialmente no Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde escoa entre 20% e 30% da produção mundial. O mercado reagiu imediatamente.
Na abertura dos negócios no exterior, o petróleo chegou a disparar mais de 12%. Por volta das 7h45, os contratos futuros do Brent avançavam 5,55%, enquanto o WTI subia 4,89%, após movimentos ainda mais fortes no overnight. Já na sexta-feira (27), quando os ruídos sobre uma ofensiva se intensificavam, a commodity havia subido cerca de 3%, acumulando alta próxima de 8,6% no último mês.
Para o Citi, o Brent pode ser negociado entre US$ 80 e US$ 90 por barril ao longo da semana. Nesse cenário, empresas com maior sensibilidade ao preço da commodity tendem a se destacar. O banco aponta que um petróleo mais caro beneficiaria especialmente companhias como a Brava e a PetroReconcavo, dado o elevado ponto de equilíbrio de fluxo de caixa livre (FCF) de ambas. Ou seja, preços mais altos ampliam de forma relevante sua geração de caixa.
Ao mesmo tempo, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) anunciou no domingo a retomada gradual da reversão de cortes voluntários de produção, com ajuste de 206 mil barris por dia previsto para abril de 2026. A decisão, tomada em reunião virtual entre Arábia Saudita, Rússia e outros membros, busca mitigar pressões sobre a oferta global. Para o Barclays, o movimento pode impulsionar o dólar no curto prazo, um fator adicional de pressão para mercados emergentes.
Petrobras no centro das atenções
No Brasil, a principal empresa a concentrar os holofotes é a Petrobras (PETR3; PETR4). A companhia encerrou a sexta-feira (27) a R$ 39,33 (PETR4) e acumulava alta de 4,16% em fevereiro até então. Maior produtora do País (responsável por mais da metade da produção nacional em 2025) a empresa domina a exploração em águas profundas e ultraprofundas e possui atuação integrada, do upstream ao refino e à distribuição.
Essa estrutura faz com que a estatal seja altamente sensível às oscilações do petróleo e aos eventos globais. Como principal porta de entrada para o investidor acessar a dinâmica de óleo e gás na B3, seus ADRs também devem refletir o humor externo.
Fábio Murad, economista e CEO da Super-ETF Educação, afirma que “o petróleo deve continuar abrindo forte. Quando há choque geopolítico envolvendo Oriente Médio e risco ao Estreito de Ormuz, o mercado precifica imediatamente interrupção de oferta”. Segundo ele, energia tende a liderar ganhos globais. No Brasil, a Petrobras pode amortecer parte de uma eventual queda do Ibovespa, embora a pressão sobre juros e câmbio limite recuperações mais consistentes.
Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, segue a mesma linha e projeta um pregão de forte valorização para o setor. “Seguindo a tendência que a gente está vendo nas outras bolsas, é um dia que aponta para cima. Deve ser uma valorização bem relevante da Petrobras e das outras petroleiras”, afirma. Ele lembra que o petróleo chegou a subir 12% em alguns momentos da manhã, recuou para perto de 6% e voltou a acelerar, movimento que pode se intensificar quando o mercado americano, o mais líquido do mundo, abrir.
Para Cruz, o peso da estatal no índice pode gerar uma dinâmica particular no Brasil. Como a Ibovespa tem forte participação da Petrobras em sua composição, o índice pode não cair tanto quanto alguns investidores esperam. “Pode haver uma disparidade grande entre o índice e várias ações”, diz. Por outro lado, ele alerta que o movimento tende a ser negativo para companhias aéreas, dado que o querosene de aviação é um dos principais custos do setor.
Fernando Bresciani, do Andbank, segue linha semelhante e afirma que as petroleiras devem subir e “limitar uma queda mais forte do Ibovespa”, ainda que o índice, no geral, possa operar pressionado.
Prio, Brava e as independentes
Entre as produtoras independentes, a Prio (PRIO3) fechou a sexta-feira a R$ 54,49, acumulando alta de 6,86% em fevereiro.
Já a Brava Energia (BRAV3), formada a partir da fusão entre Enauta e 3R Petroleum, encerrou o último pregão a R$ 18,64, com leve queda de 1,38% no acumulado de fevereiro até sexta. Com estrutura mais enxuta e foco em campos maduros, tende a ter maior sensibilidade à variação da commodity, ponto ressaltado por analistas ao mencionar o elevado break-even de geração de caixa.
ADRs e BDRs no radar
No exterior, os ADRs de empresas brasileiras e globais do setor também devem reagir. A Vale (VALE3), embora ligada ao minério de ferro, e não ao petróleo, entra no radar pelo peso no índice e pelo comportamento das commodities. Na Dalian Commodity Exchange, o contrato mais negociado de minério de ferro para maio de 2026 subiu 0,87%, a 754,5 yuans por tonelada (cerca de US$ 110). A mineradora fechou sexta a R$ 88,47, acumulando alta de 4,92% em fevereiro.
Entre as multinacionais com presença relevante no Brasil, a Shell (SHEL) encerrou o último pregão a R$ 83,51, com ganho de 8,41% no mês até então. Já a TotalEnergies (TTE), cujos ADRs também são negociados, fechou a R$ 80,04, acumulando alta de 10,97% em fevereiro. Embora a TotalEnergies EP Brasil não tenha ticker próprio na B3, sua forte atuação em projetos como Atapu e Sépia, em parceria com a Petrobras, conecta seus resultados globais ao desempenho do setor no País.
Petróleo, juros e dólar: o tripé da abertura
Se o petróleo é o primeiro termômetro do dia, o câmbio tende a ser outro ponto crucial. Para Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, a abertura será guiada por três eixos: direção do petróleo, inclinação da curva de juros e percepção de risco externo. “Se a commodity sustentar alta, o impacto tende a ser duplo: fortalecimento das petroleiras e pressão sobre expectativas inflacionárias”, afirma. Isso pode contaminar a precificação dos juros futuros, especialmente nos vértices mais longos.
Lucca Bezzon, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, avalia que o principal fator de volatilidade para o mercado cambial hoje é a escalada militar no Oriente Médio. Segundo ele, o ambiente é de maior aversão ao risco, com desvalorização de moedas emergentes e busca por ativos considerados porto seguro.
Bezzon destaca que, em momentos de incerteza, dólar e ouro tendem a subir. Apesar de questionamentos recentes sobre o papel da moeda americana como refúgio, ele lembra que os títulos do Tesouro dos Estados Unidos continuam sendo vistos como principais ativos de segurança, ao lado do ouro. Nas últimas semanas, a valorização do petróleo vinha beneficiando o real indiretamente, via alta das ações da Petrobras. No entanto, com a escalada do conflito e a explosão dos preços da commodity, “nem mesmo a possível alta da Petrobras consegue conter a desvalorização do real”, afirma, ao classificar a moeda brasileira como ativo de maior risco.
Além do conflito, ele observa que a divulgação de PMIs industriais no Brasil e nos Estados Unidos pode influenciar o humor do mercado, mas reforça que o foco central do dia permanece no Oriente Médio.
Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, ressalta que o impacto, porém, dependerá da duração do conflito. Caso seja pontual, parte do prêmio de risco pode ser devolvida rapidamente; se houver prolongamento, o petróleo elevado pode pressionar inflação e juros.
“Para o investidor, o foco deve ser gestão de risco, não reação emocional”, defende Lima. Redução de alavancagem, ajuste de posição e diversificação seriam medidas mais eficazes do que tentar antecipar manchetes.
Um pano de fundo estrutural
O momento ocorre em meio a um mercado brasileiro que vinha vivendo uma transição de regime. Dados recentes da Elos Ayta mostram forte entrada de capital estrangeiro na B3 em 2026 até fevereiro, além de rali disseminado entre índices locais. Ao mesmo tempo, o ouro consolidou-se como porto seguro dominante nos últimos 12 meses, refletindo tensões geopolíticas e busca por proteção.
Hoje, o investidor deve manter no radar: Petrobras, Prio e Brava entre as brasileiras; Shell e TotalEnergies entre as globais; e Vale pelo peso no índice e pelo comportamento do minério. A reação inicial tende a ser guiada pelo petróleo, mas a sustentação do movimento dependerá da evolução do conflito e da resposta dos juros e do dólar ao longo do pregão.