Acordo Mercosul-União Europeia: os setores que ganham e os que perdem com a nova concorrência
Agronegócio e commodities reforçam vantagens competitivas com acesso ao mercado europeu, enquanto indústria química, automotiva e manufaturados enfrentam maior pressão sobre preços e margens
Acordo Mercosul-UE amplia o comércio bilateral e redefine vencedores e perdedores entre agronegócio, indústria e mercados acionários. (Foto: Adobe Stock)
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia cria uma dinâmica clara de ganhadores e perdedores setoriais, ao ampliar a concorrência em segmentos industriais e, ao mesmo tempo, reforçar vantagens competitivas já existentes no agronegócio e nas commodities. Para o investidor, o ponto central não é apenas o crescimento agregado da economia, mas quais setores conseguem capturar valor e quais passam a operar sob maior pressão de preços e margens.
Agronegócio exportador aparece como o principal beneficiado. Carnes, grãos, açúcar, café e celulose ganham acesso preferencial a um mercado que paga preços mais altos e possui elevada previsibilidade regulatória. Segundo Gustavo Gomes, head de renda variável da AVIN, os ganhos se concentram justamente nos segmentos em que o Brasil já possui vantagem comparativa revelada.
A fração de proteínas, o BTG Pactual destaca que, embora os volumes adicionais sejam limitados, o acordo melhora o mix de vendas, especialmente porque a União Europeia paga prêmios relevantes. No caso da carne bovina, os preços europeus ficaram cerca de 60% acima da média das exportações brasileiras em 2025. Para aves, o impacto tende a ser mais relevante ao longo do tempo, já que o Brasil responde por cerca de 90% da produção do Mercosul e deve capturar a maior parte das novas cotas.
Em açúcar e etanol, o ganho também vem mais pelo preço do que pelo volume. A eliminação de tarifas dentro da cota de açúcar melhora o preço realizado, enquanto o etanol passa a contar com um mercado externo maior, que paga valores mais elevados, um alívio importante diante da expansão da capacidade produtiva doméstica.
Entre os bens de consumo, o café se destaca. As tarifas serão gradualmente eliminadas sem imposição de cotas, fortalecendo a posição do Brasil no principal destino de suas exportações, responsável por quase metade dos volumes embarcados. O arroz também se beneficia via cotas, com potencial impacto positivo para empresas com operações no Mercosul, como a Camil (CAML3).
Além do produtor rural, setores indiretamente beneficiados incluem logística, transporte e infraestrutura, impulsionados pelo maior fluxo de comércio, e o setor financeiro, com aumento de operações de financiamento ao comércio exterior e investimentos transfronteiriços.
Setores que tendem a perder ou enfrentar maior pressão
Se o acordo reforça vantagens em que o Brasil já é competitivo, ele expõe fragilidades históricas da indústria nacional. Os maiores perdedores tendem a ser os setores com menor escala, menor intensidade tecnológica e maior dependência do mercado doméstico.
A indústria química e farmacêutica aparece entre as mais vulneráveis. A Europa concentra alguns dos maiores grupos globais desses segmentos, com alta capacidade de inovação e custos diluídos. O Brasil já é importador relevante desses produtos, e a redução de barreiras tende a intensificar a concorrência com fabricantes locais.
“O acordo aumenta o temor da indústria brasileira quanto à presença de concorrência estrangeira, especialmente em químicos e farmacêuticos”, afirma Vitor Alcantara, estrategista da Victrix Capital.
A indústria automotiva também entra na zona de risco. Montadoras europeias já têm presença significativa no Brasil, e a abertura comercial pode ampliar a importação de veículos e autopeças com maior valor agregado. Fabricantes locais e fornecedores de autopeças nacionais tendem a enfrentar compressão de margens e perda de participação de mercado.
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Outro grupo sensível é o de bens duráveis e manufaturados, como vestuário, produtos metálicos e artigos industriais. Mesmo em nichos específicos, a queda de tarifas aumenta a competição com produtos europeus mais sofisticados, pressionando preços e exigindo ganhos rápidos de produtividade.
Segundo Gustavo Gomes, esse movimento pode forçar ajustes estruturais. “Setores com menor competitividade internacional tendem a enfrentar compressão de margens, perda de market share e necessidade de investimentos em inovação e reposicionamento nas cadeias de valor”.
Concorrência externa e o efeito na Bolsa
Do ponto de vista do mercado acionário, a tendência é que setores industriais mais expostos à concorrência europeia sejam penalizados primeiro, mesmo que os impactos reais do acordo se materializem de forma gradual. O mercado costuma antecipar perdas de participação e margens, gerando movimentos defensivos.
Ao mesmo tempo, o acordo favorece empresas europeias listadas em bolsas como França e Alemanha, especialmente nos setores automotivo, químico, farmacêutico, máquinas e equipamentos e bens de capital – justamente aqueles que pressionam companhias brasileiras. Para o investidor, isso cria uma assimetria clara, os ganhadores de um lado tendem a ser os concorrentes diretos do outro.
O acordo Mercosul-UE premia setores em que o Brasil é estruturalmente competitivo e penaliza aqueles que dependem de proteção ou do mercado interno.