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Mercado

Ant Group: por dentro do caos da suspensão do IPO

Só as mais altas autoridades da China são capazes de saber o que vai acontecer

Um escritório da Ant Financial na China (Foto: Shu Zhang/Reuters)
  • Investidores estrangeiros tentam entender os últimos – e caóticos – dias, e algumas perguntas seguem sem resposta: por que a China teria interesse em melar o IPO da Ant na última hora, após meses de preparação nos mínimos detalhes? E qual será o futuro de uma das maiores empresas do país?
  • Embora entrevistas com funcionários de agências reguladoras, bancos e executivos da própria Ant tragam esclarecimentos, até quem acompanha a situação de perto afirma que só as mais altas autoridades do país são capazes de saber o que vai acontecer

(Bloomberg) – Um grupo de burocratas de segundo escalão deu um chá de cadeira no homem mais rico da China enquanto se preparava para uma reunião que abalaria o mundo das finanças.

Era manhã de segunda-feira, e Jack Ma fora convocado para comparecer à Comissão Reguladora de Valores Mobiliários (CSRC, na sigla em inglês) do país, com sede em Pequim. A reunião foi marcada para poucos dias antes da abertura de capital do Ant Group, que seria o maior IPO de todos os tempos.

Quando os oficiais finalmente apareceram na sala, deixaram de lado as amenidades e foram direto ao assunto amargo: os dias de supervisão governamental frouxa e baixa exigência de capital tinham chegado ao fim. Embora o encontro não tenha discutido a oferta inicial de ações da Ant, havia indícios de que talvez as coisas não saíssem como planejado.

O posterior desenrolar do que teria sido a venda de US$ 35 bilhões em ações empurrou a gigantesca fintech de Ma para o olho do furacão e serviu de alerta: nem mesmo o mais festejado empresário chinês está imune aos caprichos de um Partido Comunista que, sob a batuta de Xi Jinping, vem encurtando a rédea da segunda maior economia do mundo.

Investidores estrangeiros tentam entender os últimos – e caóticos – dias, e algumas perguntas seguem sem resposta: por que a China teria interesse em melar o IPO da Ant na última hora, após meses de preparação nos mínimos detalhes? E qual será o futuro de uma das maiores empresas do país?

Embora entrevistas com funcionários de agências reguladoras, bancos e executivos da própria Ant tragam esclarecimentos, até quem acompanha a situação de perto afirma que só as mais altas autoridades do país são capazes de saber o que vai acontecer. A maioria das pessoas ouvidas para esta reportagem preferiu não se identificar, para ter mais liberdade de abordar questões sensíveis.

A reunião com Ma em Pequim na segunda-feira disparou um atropelo de dúvidas da Ant e de banqueiros chineses, que pedem mais transparência do governo. Mesmo que os representantes da CSRC tenham afirmado não saber de qualquer alteração nos planos da empresa de abrir capital, a comissão publicou um post cifrado nas redes sociais naquele mesmo dia, citando o que chamou de “entrevista de supervisão”. A publicação foi suficiente para dar início a uma onda de boatos que atingiu de Hong Kong a Nova York.

Na terça à tarde o clima havia piorado, e rumores de que o IPO seria postergado chegaram a Xangai. Por volta das oito da noite, a bolsa de valores da cidade ligou para a Ant e informou que a oferta inicial estava suspensa.

Menos de uma hora depois, saiu o comunicado oficial. O texto falava em “mudanças importantes” no ambiente regulatório e não trazia detalhes sobre o que levou as autoridades a jogar areia no IPO dois dias antes das ações entrarem no pregão.

Naquela mesma noite, novas reuniões foram marcadas às pressas entre os banqueiros da Ant e a CSRC. Os representantes do governo informaram que a empresa precisaria de mais capital e de novas licenças para cumprir regras aplicáveis a conglomerados financeiros, adotadas no início de novembro. Ninguém mencionou uma nova data de reinício do processo de abertura de capital.

Um porta-voz da Ant afirmou que a exigência de mais capital e novas licenças não foi tema da reunião, mas se recusou a dar mais informações.

Entre os integrantes do órgão regulador, havia a preocupação de que essas regras mais severas não tivessem sido totalmente reveladas no prospecto do IPO. Além das novas imposições para conglomerados financeiros, na segunda-feira o governo havia divulgado também uma proposta de regras mais duras para a oferta de crédito ao consumidor. Segundo o novo projeto, a Ant teria de financiar no mínimo 30% dos recursos de empréstimos que oferece em nome de bancos e outras instituições financeiras. No momento, a empresa financia 2% dos empréstimos que oferece, e o resto fica nas mãos de terceiros ou é “empacotado” na forma de títulos.

Várias autoridades defenderam que foi melhor parar o IPO aos 45 minutos do segundo tempo em vez de deixar o processo seguir e expor investidores a possíveis perdas.

Pelo menos um investidor institucional expressou opinião semelhante. Ele contou que, durante uma reunião realizada no hotel Mandarin Oriental de Hong Kong, havia praticamente implorado a um executivo da Ant que lhe garantisse uma alocação no IPO. Agora, com uma ideia mais clara dos riscos regulatórios, ele demonstra alívio com o engavetamento do processo.

Num comunicado divulgado na quarta-feira, a CSRC escreveu que evitar um IPO “precipitado” da Ant em meio a mudanças no cenário regulatório foi uma medida responsável, tomada para proteger o mercado e os investidores.

Mesmo assim, alguns observadores da situação chinesa têm uma teoria alternativa sobre a atitude do governo: a administração de Xi queria mandar um recado.

Ma já foi professor, e é um homem reverenciado na China. Mas, numa conferência realizada em Xangai no dia 24 de outubro, ele reprovou publicamente as regras financeiras do país – que, segundo ele, asfixiam a inovação. Depois disso, foi duramente criticado pela imprensa estatal. Os comentário de Ma foram feitos logo depois que o vice-presidente Wang Qishan (confidente de Xi) defendeu o equilíbrio entre a inovação e uma regulação forte, capaz de reduzir riscos financeiros.

Um relatório escrito por Andrew Batson, diretor de pesquisa da Gavekal Research, descreveu o episódio da seguinte maneira: “com ou sem intenção, o executivo passou a impressão de estar desafiando abertamente a estratégia de regulação financeira do governo”.

No fim de semana anterior à convocação de Ma para a reunião em Pequim, o Comitê de Estabilidade e Desenvolvimento Financeiro, chefiado pelo vice-premiê Liu He, ressaltou a importância de regular as fintechs.

Na quarta-feira, pessoas que acompanham o caso destacaram mais um início de que as autoridades podem continuar pressionando a Ant: os órgãos reguladores pretendem desestimular o uso das plataformas de crédito da fintech por parte dos bancos. A orientação atinge em cheio o modelo da Ant, ancorado na cobrança de comissões sobre empréstimos. Graças a esse modelo a empresa teve receita de 29 bilhões de yuans (ou US$ 4,4 bilhões) no período de seis meses que terminou em junho.

Respondendo às perguntas enviadas pela Bloomberg, a Ant afirmou: qualquer sugestão de que os bancos vão parar de usar as plataformas da empresa é infundada.

Alguns investidores se preparam para um período complicado tanto para a Ant quanto para o resto do império de Ma. As ações da Alibaba Group Holding – dona de cerca de um terço da Ant – registraram queda de 8% na terça-feira em Nova York – o maior tombo dos últimos cinco anos. A derrapada reduziu em cerca de US$ 3 bilhões a fortuna de Ma, que baixou para US$ 58 bilhões e fez com que ele descesse para a segunda posição no ranking dos mais ricos da China – ficando atrás de Pony Ma, da Tencent Holdings.

A derrocada do IPO levantou preocupações mais abrangentes em relação ao compromisso da China com transparência, justamente num momento em que o país tenta atrair investimentos externos.

Na terça-feira, a confusão em torno da suspensão da oferta inicial causou uma enxurrada de telefonemas de gestores perplexos para os banqueiros da Ant. Em alguns casos, a sensação de ter levado uma rasteira era ainda mais acentuada: apenas uma ou duas horas antes do anúncio da suspensão, a equipe de relações com investidores da Ant tentava confirmar presença num jantar de gala pós-IPO em Hong Kong. Um dos maiores investidores estrangeiros da empresa acredita que o episódio pode causar danos duradouros à confiança no mercado chinês de capitais.

É possível também que os efeitos se espalhem até Hong Kong, cuja posição de grande centro financeiro já foi questionada devido à crescente influência exercida por Pequim. Segundo alguns cálculos, um quinto da população da cidade havia se inscrito na fila para comprar ações da Ant. Mas muita gente que tinha contado com um golpe de sorte acabou se vendo presa ao pagamento de juros sobre contas margem inúteis.

“A falta de transparência é um lembrete de que o ‘jeito chinês’ continua repleto de problemas”, diz Fraser Howie, autor de “Red Capitalism: The Fragile Financial Foundation of China’s Extraordinary Rise” [“Capitalismo Vermelho: O Frágil Alicerce Financeiro da Extraordinária Ascenção Chinesa”, inédito no Brasil].

Voltando à Ant, é pouco provável que a suspensão do IPO represente um nocaute final. Em junho a empresa tinha 71 bilhões de yuans em caixa e equivalentes, e segue sendo uma das instituições mais importantes da China. A última coisa que as autoridades desejam é uma onda de perda de confiança e instabilidade numa companhia fundamental para as engrenagens financeiras do país.

Para a Ant, o risco mais plausível é uma queda no ritmo vertiginoso de crescimento e na avaliação do seu elevado valor de mercado. As novas regras chinesas vão forçar a empresa a agir mais como credor tradicional e menos como fornecedora de serviços tecnológicos asset-light para a indústria financeira. É quase certo que isso vá reduzir o índice preço/lucro das ações, caso elas de fato passem a ser negociadas em bolsa.

Também paira no ar a ameaça de uma moeda digital introduzida pelo banco central chinês, que poderia corroer o domínio da Ant na área de pagamentos e causar efeitos sobre outros negócios da empresa: a plataforma de crédito da marca, por exemplo, usa uma gigantesca massa de dados de pagamento para avaliar a situação de tomadores que com frequência não oferecem qualquer tipo de garantia ou histórico formal de comportamento financeiro.

Tudo isso não é nada bom para os acionistas que turbinaram o valor de mercado da Ant para US$ 315 bilhões – mais alto que o do JPMorgan Chase & Co. Mas talvez seja positivo para agências reguladoras e líderes do partido, que acham que a criação de Ma está ficando grande demais, rápido demais.

(Tradução: Beatriz Velloso)

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