A promessa de trégua ajudou a descomprimir o prêmio de risco que pairava sobre ativos globais. O petróleo, que saltou mais de 40% ao longo de março com a guerra e o fechamento total de Ormuz, começou o pregão desta terça-feira (8) com queda forte de 16%. Depois, no início da tarde, o Irã voltou a fechar Ormuz.
No vai e vem de notícias, predomina no mercado um otimismo cauteloso, com a ideia de que o conflito caminha para uma desescalada. Thiago de Aragão, diretor de estratégia da Arko Advice e colunista do E-Investidor, assessora diretamente dezenas de fundos estrangeiros entre Washington DC, Nova York e Brasília. E diz que, lá fora, não há ninguém tratando o cessar-fogo como uma saída definitiva para a guerra.
“Em Wall Street, o foco está muito mais em ‘quando vem o cessar-fogo formal e a reabertura operacional de Ormuz’ do que em um cenário de guerra aberta e prolongada; a precificação embute prêmio de risco, mas não colapso”, diz. “Em resumo, o mercado compra a tese de desescalada gradual, porém com volatilidade alta a cada manchete contraditória.”
Confira a entrevista exclusiva:
E-Investidor – Na segunda-feira, quando o presidente Donald Trump disse que “uma civilização inteira desapareceria”, os mercados ficaram no zero a zero, como se não estivessem comprando a ideia de uma nova escalada. Como está o humor em NY em relação ao cessar-fogo?
Thiago de Aragão – O humor em NY hoje é de alívio tenso, não de euforia. O fato de os índices terem ficado praticamente de lado depois da frase “uma civilização inteira morrerá” mostra que o mercado leu o discurso do Trump mais como peça de negociação de alto risco do que como sinal concreto de escalada imediata. Em Wall Street, o foco está muito mais em “quando vem o cessar-fogo formal e a reabertura operacional de Ormuz” do que em um cenário de guerra aberta e prolongada; a precificação embute prêmio de risco, mas não colapso. Em resumo, o mercado compra a tese de desescalada gradual, porém com volatilidade alta a cada manchete contraditória.
Dá para falar em fim definitivo da guerra?
Ninguém sério em mercado está tratando isso como “fim definitivo” da guerra. O que se enxerga é um armistício tático, condicionado à reabertura do Estreito de Ormuz e a algum tipo de arranjo de segurança aceitável para Washington e Teerã. A leitura dominante é a de que o conflito entra agora numa fase de congelamento: menos mísseis e mais diplomacia coercitiva, mas com risco permanente de recaída se algum lado testar os limites do acordo.
Qual é o desafio de reabrir o Estreito de Ormuz e normalizar o fluxo de petróleo da região?
Reabrir Ormuz não é apertar um botão, é reconstruir confiança operacional numa rota responsável por cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente e parte relevante do GNL. Tecnicamente, é preciso: garantir segurança mínima para petroleiros (escoltas navais, seguros de guerra viáveis, regras claras de inspeção), coordenar a liberação de reservas estratégicas (como a decisão recente de liberar centenas de milhões de barris) para suavizar o choque de oferta e calibrar a logística de desvio via oleodutos alternativos na Arábia Saudita e Emirados, que não conseguem substituir integralmente o fluxo de Ormuz. Ainda há risco concreto de choques adicionais. Qualquer incidente com navio, drone perdido ou sanção mal desenhada pode reprecificar imediatamente petróleo e frete, mantendo um prêmio de risco estrutural na curva.
Antes da guerra, os mercados globais vinham de meses de rotação dos portfólios, com capital saindo dos EUA em direção a outras geografias, especialmente emergentes. Passada a incerteza geopolítica, essa tendência volta com mais força ou investidores globais tendem a se manter mais cautelosos?
A rotação para fora dos EUA em direção a outras geografias, em especial emergentes, não era um capricho conjuntural, mas resposta a valuations esticados nos EUA, dólar mais fraco e expectativa de crescimento relativamente melhor em emergentes. Esses vetores estruturais continuam de pé, então a tendência de diversificação tende a reaparecer, possivelmente com mais disciplina: menos “risk-on cego”, mais seletividade por país, governança e liquidez.
O que muda com o susto geopolítico é o beta. Investidores globais devem retomar o movimento, mas com gestão de risco mais rígida, exigindo prêmio maior para aumentar exposição a mercados próximos ao teatro do conflito e privilegiando emergentes com contas externas mais sólidas e instituições razoavelmente previsíveis.