Ouro despenca, dólar sobe: o que a correção dos metais revela sobre proteção, especulação e o erro do investidor
Queda acentuada do ouro e da prata reflete desmonte de posições altamente alavancadas, enquanto bancos centrais seguem sustentando o metal no longo prazo
Barras de ouro: especialistas afirmam que a recente correção do metal reflete excesso de posicionamento alavancado, e não mudança estrutural de fundamentos. (Foto: Adobe Stock)
A correção intensa do ouroe da prata, depois de semanas de valorização acelerada, expôs uma assimetria subestimada pelo mercado. Após quedas de 11% (a maior desde 2016) e 31%, respectivamente, os metais vêm recuperando o fôlego de forma progressiva. Embora o movimento tenha coincidido com a indicação de Kevin Warsh para o comando do Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano), especialistas apontam que o baque refletiu menos uma mudança de fundamentos e mais o desmonte de um excesso de posicionamento concentrado e altamente alavancado, com o mercado chinês desempenhando papel central.
Para Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, a leitura do episódio exige separar os diferentes horizontes de análise. “Tem que separar muito o que é movimento do dia, do mês e do ano”, afirma. No recorte estrutural, ele reforça que o ouro continua amparado por um processo contínuo de compra por bancos centrais, motivado por preocupações crescentes com a trajetória da dívida americana.
Segundo Cruz, esse processo já se estende por cerca de dois anos e inclui o próprio Banco Central do Brasil. A valorização do metal ganhou novo impulso após a eleição de Donald Trump, quando aumentaram os temores sobre a deterioração fiscal dos Estados Unidos.
“Quando o Trump ganha a eleição, isso incentiva as pessoas a comprarem ainda mais, temendo que a dinâmica fiscal americana vai ficar ruim”, afirma.
Especulação chinesa acelerou o rali (e também a queda)
Ao mesmo tempo, esse pano de fundo estrutural passou a conviver com um comportamento claramente especulativo no curto prazo. Cruz destaca que janeiro concentrou uma intensificação das apostas, sobretudo na China, com forte participação de pessoas físicas. “Teve uma especulação um pouco mais forte de investidores, especialmente pessoas físicas chinesas que lotaram joalherias e também compraram alavancados”, afirma.
Segundo ele, o ambiente de alta contínua estimulou operações mais agressivas, inclusive a compra de opções fora do dinheiro, em níveis elevados. Esse tipo de estratégia amplia tanto os ganhos quanto as perdas. “Quando eles tentam fazer uma compra para ter um retorno ainda mais intenso, isso acaba provocando uma dinâmica de alta mais forte no preço”, diz.
O problema aparece quando o movimento se inverte. “Se começa a cair, você pode ter uma queda ainda mais brusca, como foi o que aconteceu na última semana”, explica o estrategista.
Ele ressalta que o evento de sexta-feira (30) apenas acionou mecanismos já armados, fazendo com que “várias pessoas tivessem que acionar seu limite de perda, gerando uma liquidação em cadeia.”
A leitura de que o dólar, isoladamente, não explica a magnitude da queda também aparece na análise de Luan Aral, especialista em câmbio da Genial Investimentos. Para ele, o problema central passou pelo enquadramento do ouro pelos investidores.
“O ouro não falhou como proteção. O erro foi basicamente o enquadramento”, afirma.
Segundo Aral, o metal funciona como ativo estrutural, pensado para preservar valor no longo prazo. “Não é usado para trade [compra e venda rápida de ativos]”, ressalta.
Ele chama atenção para a crescente popularização do ouro nos últimos meses, impulsionada pela oferta de alavancagem por corretoras internacionais. “Quando o investidor passa a tratar o ouro como trade, reagindo a notícias de Fed ou dólar, ele força um ativo que é de proteção a se comportar como um ativo direcional”, afirma. Para ilustrar, ele explica que é como usar um seguro esperando lucro mensal.
Esse movimento, segundo Aral, transformou o hedge (proteção para tentar diminuir os efeitos da volatilidade do mercado financeiro sobre seus ativos) em consenso. “Quando todo mundo tenta se proteger do mesmo jeito, esse hedge vira um trade consensual”, afirma. O problema é que “trade consensual não protege, ele amplifica a volatilidade e a alavancagem.”
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Sobre a relação entre ouro e dólar, para ele, a indicação de Kevin Warsh acelerou um ajuste já maduro. “Essa indicação não foi o fator determinante, mas com certeza foi o maior catalisador”, afirma. “Ele não criou a queda, deu o empurrão final em um mercado que já estava desequilibrado”, defende.
Ouro não funciona como aposta tática
A avaliação de que o ouro não deve servir como aposta de curto prazo também marca a opinião de Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos. “Não acredito que faça sentido tentar especular em cima do ouro”, afirma. Segundo ele, o metal cumpre papel de proteção diante de incertezas amplas, especialmente geopolíticas, e de diversificação estrutural.
Boragini avalia que o dólar funcionou como catalisador, mas não como causa principal. “O dólar pressiona as commoditiesprecificadas em dólar, mas a magnitude da queda sugere que existia excesso de alavancagem”, afirma.
Já Marcelo Freller, estrategista do C6 Bank, reforça que, mesmo após a correção, o desempenho do ouro segue expressivo. “Nos últimos três anos ele teve uma performance excelente”, afirma. Segundo ele, o metal saiu da casa dos US$ 2 mil antes da guerra entre Rússia e Ucrânia para níveis próximos de US$ 5 mil.
Mesmo em 2026, após a queda, Freller destaca que o ouro ainda acumula alta relevante no ano. O que mudou foi a volatilidade.
“O ouro geralmente tem uma volatilidade perto de 10% a 12%, e recentemente essa volatilidade chegou a bater 50% anualizado”, afirma, ao associar o movimento à entrada massiva de pessoas físicas após um rali muito rápido.
De proteção a ativo especulativo
Freller pondera que o ouro ainda tem espaço em portfólios, mas faz uma ressalva importante. “Nesse patamar de preço, o ouro acabou ganhando um perfil mais especulativo”, afirma. Para ele, nesse momento, o metal “deixa de ser um ativo conservador e vira um ativo que vai trazer volatilidade para as carteiras”.
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Aral, da Genial, acrescenta que também ocorre uma mudança estrutural na composição das reservas globais. “Antes era muito comum os bancos centrais terem títulos públicos americanos ou japoneses como sinônimo de segurança”, afirma. Após episódios como o bloqueio de ativos russos pelos Estados Unidos, segundo ele, cresceu a percepção de risco político sobre títulos soberanos. “O volume mesmo foi para metais”, diz.
Como investir em ouro?
Fábio Murad, economista e CEO da Super-ETF Educação, explica que existem diferentes veículos de acesso ao ouro, cada um com características próprias. Antes de apresentá-los, ele destaca três critérios essenciais que o investidor precisa avaliar: custo, liquidez e risco operacional.
O ouro físico oferece a sensação de controle direto, mas envolve custos elevados de custódia, seguro e transporte, além de menor liquidez na hora da venda. Na Bolsa de Valores brasileira, esse mercado terminou no primeiro trimestre de 2024 – confira nesta reportagem.
Fundos tradicionais de ouro, por sua vez, costumam ter taxas mais altas, prazos de resgate longos e menor transparência. Nesse contexto, os ETFs (Exchange Traded Funds) de ouro ganharam protagonismo.
Esses produtos são lastreados em ouro físico armazenado em cofres certificados e auditados, replicando com precisão o preço do metal e com baixo tracking error, termo técnico que representa o quanto um fundo de investimentos consegue acompanhar fielmente o preço do ativo que ele replica. A ressalva fica com diferenciar esses ETFs de produtos ligados a mineradoras ou contratos futuros, que podem ter oscilações bem maiores e comportamento distinto do ouro propriamente dito.
Momento pede cautela do investidor
Mesmo com estruturas eficientes, o consenso entre os especialistas é de cautela no timing. Com o ouro próximo das máximas históricas, a estratégia mais prudente é evitar entradas concentradas. Na prática, isso significa definir uma parcela do portfólio destinada ao ouro e construir essa posição aos poucos, ao longo do tempo, diluindo o risco de comprar tudo no topo.
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O próprio Goldman Sachs reforça essa lógica ao tratar o ouro não como uma aposta direcional de curto prazo, mas como um seguro de portfólio em um mundo mais instável. No relatório, o banco destaca que “commodities seguem desempenhando um papel central de proteção em carteiras globais, à medida que riscos geopolíticos e de oferta se intensificam”.