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O ‘monopólio’ da Tesla está próximo do fim?

Entenda os desafios para as ações da montadora de carros elétricos após recorde histórico no 1º tri de 2021

Por Jenne Andrade

05/05/2021 | 10:22 Atualização: 05/05/2021 | 10:22

Elon Musk, fundador da Tesla e da SpaceX (Foto: Andrew Harrer/Bloomberg)
Elon Musk, fundador da Tesla e da SpaceX (Foto: Andrew Harrer/Bloomberg)

A Tesla, montadora norte-americana de carros elétricos, parece ser envolta em uma aura futurista que gera fascínio em investidores do mundo todo. O principal representante da empresa, Elon Musk, é muitas vezes comparado ao herói dos quadrinhos Homem de Ferro: excêntrico, bilionário e gênio da tecnologia.

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Toda essa roupagem vem de algumas das promessas da companhia, como a de popularizar os carros elétricos – mercado em que a Tesla foi pioneira e tem praticamente um ‘micro monopólio’. Para chegar neste patamar, a empresa investe em novas tecnologias para baixar os custos de produção. Como já ficou clara a importância da diminuição de emissão de poluentes na atmosfera, a troca de matriz energética já se tornou uma tendência mundial. “As outras montadoras mais tradicionais, centenárias, sempre trabalharam com carros movidos à combustível fóssil”, afirma Henrique Castiglione, sócio e diretor comercial da EWZ Capital. “A Tesla foi disruptiva em trazer essa inovação, de ser uma montadora 100% focada em carros elétricos.”

O início do ‘sonho’

O sonho da Tesla de popularizar os carros elétricos parece ter ficado um pouco mais palpável. Esse avanço já pode ser observado nos números. A empresa lucrou US$ 438 milhões no 1º trimestre de 2021, com impacto positivo de US$ 101 milhões proveniente da venda de bitcoins. A receita relacionada aos automóveis foi de US$ 9 milhões, número 75% maior em comparação ao obtido no mesmo período de 2020, de US$ 5,1 milhões.

Outro destaque do trimestre foi a produção de 180 mil veículos e entrega de outros 185 mil, além da diminuição dos custos envolvidos na fabricação, que caíram de US$ 84 mil para US$ 38 mil por automóvel. O Modelo 3, da Tesla, foi o modelo sedã premium mais vendido no mundo. É importante lembrar que a companhia registrou lucro anual pela primeira vez em 2020, de US$ 721 milhões.

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“Isso demonstra que um veículo elétrico pode ser de uma categoria líder e vender mais que suas contrapartes movidas a gás”, declara a montadora, em relatório. Após os resultados, o Goldman Sachs passou a recomendar a compra de Tesla, com preço-alvo de US$ 860 – uma diferença de 27,6% em comparação a cotação atual, de US$ 673,60, registrada no fechamento de terça-feira (4). Em 12 meses, a TSLA já acumula valorização de 388%.

Os recibos da empresa negociados no Brasil (BDR), TSLA34, são cotados a R$ 113,31 e sobem 340% em 12 meses. “O resultado veio em linha com as expectativas, com números maiores que os registrados em 2020”, diz Castiglione, da EWZ.

Novos concorrentes, preços muito altos

Atualmente, as ações da empresa de Musk são negociadas a preços muito maiores do que os concorrentes. “O que mais chama a atenção na Tesla é o fato de que o mercado considera a empresa quase como um monopólio de carros elétricos. Por isso o valuation está tão acima, negociado a múltiplos muito mais altos do que o de outras montadoras”, diz Castiglione.

Entretanto, há novos players entrando no segmento de carros elétricos, de olho em adequar os negócios às novas demandas globais de emissão de carbono. “Até o ano que vem, a Volkswagen e a General Motors devem ultrapassar a Tesla em venda de número de carros elétricos”, diz o especialista. “É um ponto de atenção.”

Essa também é a visão de Alberto Amparo, analista internacional da Suno Research. “A Tesla vai ter muita competição. Todas as montadoras famosas europeias vão competir com a empresa de Musk, além da chinesa Nio, entre outras. Não há uma vantagem competitiva clara”, afirma. “Se você olha para as evidências, para os fundamentos da empresa, os preços da Tesla não fazem sentido algum, são praticamente obscenos.”

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De acordo com Amparo, a companhia de carros elétricos é avaliada em torno de US$ 800 bilhões – quase o valor de todas as empresas do Ibovespa. “A Tesla gerou US$ 3 bilhões de dólares de caixa nos últimos 12 meses, ou seja, ela está avaliada em mais de 200 vezes o quanto de dinheiro que a empresa gera”, afirma. “É uma empresa que faz carros, não consegue crescer de uma maneira tão veloz sem investir em infraestrutura, como um Google ou Facebook. Para a montadora crescer, tem que investir pesado para um dia chegar ao tamanho de uma Volskwagen.”

Outra questão é que a Tesla também fazia a venda de créditos de carbono para outras montadoras, uma parte relevante no faturamento da empresa. Um ‘crédito de carbono’ equivale a não emissão de 1 tonelada do gás na atmosfera e pode ser comercializado entre companhias.

A tendência, portanto, é que essas vendas fiquem cada vez mais diluídas, paralelamente ao acirramento da concorrência no mercado de carros elétricos. “Existe uma possibilidade de desvalorização. O mercado tende com o tempo a se balancear”, diz Castiglione. “O aumento da concorrência gera um impacto negativo nas ações da Tesla caso ela não siga revolucionando como fez nos últimos anos”. O especialista também acredita que a Tesla está supervalorizada por conta de Elon Musk ser um “visionário” e da expectativa de que ele traga uma nova revolução.

Já para o analista da Suno, quem compra os papéis da companhia no preço atual pode demorar para ver o retorno. “O que vai ser ruim para as ações da Tesla é simplesmente o mercado acordar que essa não é uma empresa de energia renovável, de foguetes, é uma companhia que produz carros. E por melhor que seja o Elon Musk, ela está avaliada quase como um Facebook. Para mim é um absurdo”, diz. “Imagino que em algum momento, mesmo executando muito bem, os papéis serão penalizados. Quando você paga muito caro, você está pagando por muito crescimento antes do tempo e em algum momento a realidade vem à tona.”

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