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Mercado

‘Investir fora do Brasil tem mais a ver com a expansão do horizonte’, diz CEO da Franklin Templeton

Para Marcus Gonçalves, País permanece atrativo devido às condições internacionais

Marcus Vinicius Gonçalves, CEO da Franklin Templeton no Brasil (Foto: Diego Aguiar/Divulgação)
  • Apesar da nova configuração da presidência da Câmara e do Senado ter correspondido às expectativas do mercado, Gonçalves se diz cauteloso
  • Do ponto de vista de operação no Brasil, os setores de mineração, siderurgia, bancos e comércio eletrônico estão entre os favoritos da gestora internacional, que aumentou seu interesse pelo País após a compra do grupo Legg Mason, dono da Western, por US$ 4,5 bilhões, no ano passado
  • "É preciso avaliar se os juros permitem que a economia cresça de uma maneira sustentável, saudável, sem que o governo precise se financiar desesperadamente no mercado", diz o CEO

O cenário global de extrema liquidez, juros baixos por longo tempo e dólar com potencial de queda contribuem para deixar o Brasil atrativo. A avaliação é de Marcus Gonçalves, CEO da Franklin Templeton no País, em entrevista ao E-Investidor. Porém, ele acredita que é necessário avançar nas pautas internas para que o mercado local permaneça sendo um bom negócio.

Apesar da nova configuração da presidência da Câmara e do Senado ter correspondido às expectativas do mercado, Gonçalves se diz cauteloso. “Não sabemos como essa nova confluência política vai impactar a questão fiscal”, explica o gestor, citando a discussão do novo auxílio emergencial. “A popularidade do governo reage muito em sincronia com esse tipo de pauta, mas o governo entende a necessidade de ter um fiscal equilibrado.”

No cenário local, os setores de mineração, siderurgia, bancos e comércio eletrônico estão entre os favoritos da gestora, que aumentou seu interesse pelo País após a compra do grupo Legg Mason, dono da Western, por US$ 4,5 bilhões, no ano passado. Ao todo, a Franklin detém mais de US$ 1,4 trilhão de ativos sob gestão. Em âmbito brasileiro, a operação ainda precisa ser aprovada pelo Banco Central (BC).

“Ainda que as operações se mantenham separadas, ou se vai ter uma eventual integração, a questão-chave é que o controlador já está tendo uma presença maior no Brasil. O País passou a ser mais relevante no balanço da Franklin do que era antes da aquisição”, afirma.

A grande migração de pessoas físicas para a B3 é vista como irreversível para o gestor. Para o gestor, o crescimento da bolsa reflete o aumento da importância do setor privado na economia, o que deveria também ser acompanhado de uma redução da necessidade de financiamento do setor público ao longo do tempo. “Se os juros voltarem a subir, será que o investidor brasileiro vai querer continuar financiando dívida pública a custo perdido? Até que ponto um juro de 10%, 15% faz com que a economia cresça? É preciso avaliar se os juros permitem que a economia cresça de uma maneira sustentável, saudável, sem que o governo precise se financiar desesperadamente no mercado”, defende Gonçalves.


Confira a seguir a entrevista completa com o CEO da Franklin Templeton no Brasil, em que ele também comenta sobre investimentos no exterior, o papel de gestores frente à gestão automatizada e as repercussões do caso Gamestop.

E-Investidor: No auge da crise, o senhor chegou a dizer que o Brasil estava uma pechincha. Essa avaliação continua? Se sim, até quando?

Marcus Gonçalves: O Brasil ainda é atrativo. Não chamaria mais de pechincha porque do auge da crise para agora, a bolsa teve um comportamento exponencial. Mas continua sendo um mercado muito atrativo, sobretudo por causa das condições lá fora. O cenário global ainda é de extrema liquidez, de juros baixos por longo tempo, não tem grandes pressões de preço de energia, que é outro ponto que favorece muito crescimento. Também há um cenário de enfraquecimento gradativo do dólar lá fora por conta de todos os estímulos que foram feitos nos Estados Unidos. Então o cenário nunca foi tão bom para mercados emergentes, como o Brasil, que é um dos maiores. Mas o cenário lá fora é uma pré-condição e precisamos fazer a lição de casa. O que vai determinar se o Brasil fica interessante ou não é a dinâmica doméstica.

O cenário de Brasil atrativo permitiu criar metas ambiciosas para 2021? O que a Franklin Templeton planeja para o País?

Fizemos uma aquisição global no ano passado que foi o grupo Legg Mason. Aqui no Brasil, esse grupo tem uma estrutura muito grande, que é a Western, uma das assets da holding. Mas aqui essa transação está sob aprovação do BC, que tem até junho para analisar. Lá fora já integramos, mas aqui no Brasil as operações ainda estão separadas. Isso já é uma ilustração de que a nossa presença no Brasil cresceu muito. A Western tem mais de R$ 60 bilhões sob gestão e nós temos por volta de R$ 5,5 bilhões.

Além disso, temos feito investimentos em criação de novos produtos com exposição internacional. Existe muito interesse tanto da pessoa física quanto do institucional. Também estamos investindo bastante em toda a temática de previdência, que vai crescer muito nos próximos anos.

Qual a expectativa pela aprovação do BC quando à compra da Western?

Preferimos não comentar sobre o que vai acontecer, porque isso poderia até influenciar a decisão do BC negativamente. Mas, para leitura de mercado, o Brasil é um país importante demais no mercado de gestão e a Franklin tem um interesse grande de ter operações aqui. Ainda que estas se mantenham separadas ou se vai ter uma eventual integração, a questão-chave é que o controlador já está tendo uma presença maior no Brasil. Então o País passou a ser mais relevante no balanço da Franklin do que era antes da aquisição.

Quais setores vão estar nas carteiras da gestora?

Alguns setores ligados ao crescimento global, como siderurgia e mineração, vão se beneficiar. Temos essas posições na carteira e devemos manter. Os bancos brasileiros, historicamente, são muito eficientes e têm um padrão mundial de qualidade de gestão e de corte de custos. A forma como esses bancos conseguiram se ajustar é impressionante. Acreditamos que eles vão seguir pressionados por causa da revolução de fintechs. De alguma forma, eles vão ter que se especializar mais, buscar nichos onde eles têm diferencial competitivo. Mas, como são empresas muito bem geridas, manteremos na carteira. Além disso, gostamos de toda a parte de nova economia, novas tendências que envolvem, por exemplo, comércio eletrônico, tudo que traz inovação, tecnologia, processos e aumento de produtividade.

E quais empresas ou setores ficarão de fora?

Não excluímos nenhum setor. Muitas vezes acontece de ter boas empresas em setores que às vezes não estão na moda. Um exemplo que falei é banco. O setor está pressionado, mas a gestão é muito boa e eles conseguem tirar leite de pedra. Hoje, as nossas posições principais são mineração, siderurgia, bancos e comércio eletrônico. Além disso, temos previdência, que estão entre as megatendências devido ao envelhecimento populacional. O que também nos faz olhar muito para o setor de saúde – laboratórios, hospitais, plano de saúde, seguros -, que tem um caminho interessante para crescer e se desenvolver muito ao longo dos próximos anos.

Têm preferência por algum banco?

Varia muito com o timing de mercado, mas o Itaú é o papel que a gente costuma ter com mais perenidade.

Sobre as tarefas domésticas do País, como as novas presidências da Câmara e do Senado melhoram as perspectivas de investimentos, já que o mercado esperava a vitória de nomes alinhados ao governo para passar as reformas?

O mercado teve reação otimista e inclusive antecipou. Do nosso lado, somos mais cautelosos e temos monitorado com um pouco mais de cuidado porque não sabemos como essa nova confluência política vai impactar a questão fiscal. Por exemplo, tem a discussão do novo auxílio emergencial, se sai ou não. Isso tem um apelo muito forte, sobretudo nas regiões mais pobres do País. Afinal de contas, a popularidade do governo reage muito em sincronia com esse tipo de pauta. Mas o governo entende a necessidade de ter um fiscal equilibrado. O próprio BC coloca isso como uma pré-condição para manter o juro onde está. Também sabemos que sempre existe uma grande preocupação com reeleição, que está batendo à porta. Outra coisa importante de se colocar é o risco de pressão inflacionária.

Falando em eleição, a expectativa é de que o cenário político permaneça mais hostil. O investidor deve ver as aplicações no exterior como proteção?

Tento abordar isso com uma lógica independente. Não se deve atrelar tanto o investimento no exterior com relação à proteção e às intempéries locais. Acaba sendo um efeito colateral quando acontece. Mas ele se justifica independentemente disso. Ainda que tenhamos surpresas positivas, por exemplo, se o Congresso resolver aprovar todas as reformas que o Paulo Guedes mandar, ou privatizar empresas, nada disso inviabiliza investimento no exterior. Então não são auto-excludentes. O fato do brasileiro começar a investir fora tem mais a ver com a expansão do horizonte de oportunidades.

Como o investidor precisa ficar atento a essa possibilidade?

Ainda que se tenha IPOs vindo, ainda não se encontra na bolsa brasileira a quantidade e a qualidade das empresas de fora na parte de tecnologia e inovação. Não só nos Estados Unidos, mas na Europa, na Ásia. Tem um aspecto de proteção, mas também de diversificação. Os ciclos não são coincidentes. Muitas vezes acontece de um mercado estar crescendo e outro não. Nos momentos em que a economia brasileira crescer menos do que as outras, vale a pena o investidor buscar resultados em outros mercados. Essa vantagem de aproveitar o crescimento de outros países não significa que o Brasil não vai crescer. Mas outros países talvez cresçam em um ritmo mais interessante e vale a pena buscar coisas lá fora como complementaridade.

Houve uma corrida para a bolsa em 2020. Essa realidade é irreversível ou uma alta da Selic pode causar uma debandada?

É um caminho sem volta porque há uma leitura de que o setor corporativo está ficando mais robusto. As empresas têm aproveitado isso no mundo todo para melhorar os seus balanços, ajustarem  estruturas de custos, focarem nos seus negócios principais, refinanciarem as suas dívidas, emitir equity quando possível, que é o caso desses IPOs. Então o movimento da bolsa reflete um pouco o aumento da importância do setor privado e das empresas na economia, e a forma de financiamento facilitada pela bolsa. Por outro lado, se os juros voltarem a subir, passa um pouco pela leitura de que “será que o investidor brasileiro vai querer continuar financiando dívida pública a custo perdido?” Até que ponto um juro de 10%, 15%, faz com que a economia cresça? É preciso avaliar se onde o juro está permite que a economia cresça de uma maneira sustentável sem que o governo precise se financiar desesperadamente no mercado. Aí é que entra a questão fiscal e das reformas. A necessidade de financiamento do setor público deveria, ao longo do tempo, segundo a percepção do mercado, diminuir.

Mas até as grandes economias aumentaram os investimentos devido à crise.

Não é o caso hoje, porque estamos passando por uma pandemia, então é esperado no mundo todo que os governos inchem os seus balanços. Mas também tem que existir um plano de saída disso e a saída não pode ser por pagar um juro que seja proibitivo, como vimos anos atrás. Vai passar muito pela questão da inflação, que passa por uma melhora da utilização de custos. Então a produtividade da economia tem que crescer e os preços do setor público também não podem ter um movimento muito violento.

A gestão automatizada vem ganhando muito espaço no mercado. Como ficará o papel dos gestores?

Todos os setores estão sendo impactados por isso. Mas, assim como em outros segmentos, vai ser uma junção de forças. A máquina não vai substituir o homem, pelo menos no médio prazo. Mas quem souber usar a máquina melhor vai se beneficiar mais. Nas nossas estratégias, aqui e lá fora, temos cada vez mais trabalhado e investido em análises de dados. Esse é um caminho sem volta também: ter um pouco mais da inteligência [artificial] na análise de dados, no processamento e na forma como transaciona. Outro ponto é que, ao longo do tempo, a gestão ativa vai ganhar importância e não perder. Os investidores vão se dar conta de que precisam entender o que é necessidade de volatilidade, de retorno. Assim como o investimento no exterior e no Brasil se complementam, a qualidade dos profissionais vai determinar o que vai acontecer com a máquina. Mas quem não usar a tecnologia vai ficar para trás.

Qual o aprendizado para os grandes gestores no caso GameStop?

Não gosto da leitura de que houve uma luta entre grandes e pequenos por alguns motivos. Primeiro, não sei exatamente quem eram os pequenos. Não temos essa visibilidade. Ainda que acompanhemos os comentários no Reddit, não sabemos até que ponto o pessoal que se beneficiou desse movimento era gente pequena ou não. Pode ser que tenha muito hedge fund por trás. Outro efeito negativo são as críticas em quem opera vendido. Em alguns casos, houve inclusive ataques pessoais, com gente que teve os seus dados vazados. Mas o short tem uma função muito importante na busca de eficiência de preço. Quem opera vendido está desafiando o status quo. Tem muita coisa que está errada e precisamos apontar os erros.

Qual a lição para o pequeno investidor?

Esse caso não foi o primeiro. Do nosso lado, não nos movemos da leitura fundamentalista. Nessa história de dizer que uma empresa vale 500 milhões e por causa de um movimento de short squeeze passa a valer 25 bilhões entra a ilusão do ganho fácil. Porque mexe com o psicológico das pessoas. Mas as empresas que são lastro dessas apostas têm um fundamento por trás. E, a médio e longo prazo, esse fundamento vai se justificar ou não. Mas se tiver um movimento desses, lutar contra a corrente é muito difícil porque, no curto prazo, as coisas saem do racional. É muito perigoso, em uma hora como essa, as pessoas tentarem colocar o dedo na água, porque podem mergulhar demais. Não é como fazer uma fezinha em um bilhete de loteria.

No Brasil, já se criaram grupos, por exemplo, para fazer “justiça” pelo IRB. Qual a chance de acontecer um movimento tão grande por aqui?

Não quero dizer nunca porque isso volta para assustar, como fantasma. Mas no Brasil é mais difícil de acontecer porque aqui é tudo mais centralizado. Tem uma discussão grande de infraestruturas de mercado. Lá fora, tem uma separação evidente entre o que é custodiante, liquidante. Aqui, a B3 tem um poder maior, mais discricionariedade e ela controla um pouco melhor esse sistema. Nesse aspecto, a estrutura aqui tem mais defesa.

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