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Fed na mira: entenda por que investigação contra Jerome Powell acende alerta no mercado

Powell disse ter recebido ameaça de uma acusação criminal do Departamento de Justiça dos EUA

Por Beatriz Rocha

12/01/2026 | 16:11 Atualização: 12/01/2026 | 18:42

Sede do Federal Reserve, em Washington: declarações de Jerome Powell reacendem temores sobre interferência política na política monetária dos EUA e pressionam os mercados. (Foto: Adobe Stock)
Sede do Federal Reserve, em Washington: declarações de Jerome Powell reacendem temores sobre interferência política na política monetária dos EUA e pressionam os mercados. (Foto: Adobe Stock)

O Federal Reserve (Fed) recebeu uma intimação do grande júri do Departamento de Justiça (DoJ, na sigla em inglês) dos Estados Unidos na última sexta-feira (9) com a ameaça de uma acusação criminal contra o presidente Jerome Powell. A informação foi revelada pelo próprio Powell em um vídeo na noite de domingo (11). A notícia gera insegurança no mercado, por temor de uma interferência política no banco central americano.

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Em comunicado, o presidente do Fed explicou que a ameaça de acusação criminal diz respeito a seu testemunho prestado no comitê bancário do Senado dos EUA em junho passado, a respeito do projeto de renovação de edifícios históricos do Fed. Powell afirmou que a ação faz parte de uma campanha contínua do governo Donald Trump contra sua gestão, que não tem cedido às pressões por cortes mais intensos de juros.

“Ninguém, certamente não o presidente do Federal Reserve, está acima da lei. Mas essa ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua do governo”, afirmou.

O presidente do Fed alegou que a ameaça não tem relação com a reforma dos prédios da instituição e que essa justificativa seria apenas um pretexto. “Esses são pretextos. A ameaça de acusações criminais é uma consequência do Federal Reserve definir as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que servirá ao público, em vez de seguir as preferências do presidente [Donald Trump]”, comentou Powell.

A questão central, segundo o presidente do Fed, é se o banco central americano será capaz de continuar a definir as taxas de juros com base em evidências e nas condições econômicas ou se a política econômica “será dirigida por pressão política ou intimidação”.

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Powell encerrou a sua declaração lembrando que serviu ao Fed sob quatro administrações, tanto republicanas quanto democratas. Em todos os casos, ele disse ter desempenhado suas funções sem medo ou favorecimento político, com foco exclusivo no mandato de estabilidade de preços e máximo emprego.

“O serviço público às vezes exige firmeza diante de ameaças. Continuarei a fazer o trabalho para o qual o Senado me confiou, com integridade e um compromisso de servir ao povo americano”, concluiu.

Trump nega interferência

Trump negou ter qualquer conhecimento da investigação do Departamento de Justiça sobre o Fed. “Não sei nada sobre isso, mas certamente ele não é muito bom no Fed, e não é muito bom em construir prédios”, disse o republicano sobre Powell em uma entrevista à NBC News na noite de domingo.

Desde que assumiu o seu segundo mandato, Trump tem criticado o presidente do Fed por não fazer cortes significativos nas taxas de juros, já tendo ameaçado demitir Powell. O mandato dele termina em maio deste ano, quando Trump deve indicar outro nome.

O republicano disse à NBC News que as intimações do Departamento de Justiça não têm nada a ver com taxas de juros. “Não. Eu nem pensaria em fazer isso dessa forma. O que deveria pressioná-lo é o fato de as taxas estarem muito altas. Essa é a única pressão que ele tem”, disse. “Ele magoou muita gente. Acho que o público está pressionando-o”, acrescentou Trump.

Mercados reagem de forma branda

Na visão de William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, o mercado reagiu de forma branda ao episódio. “O esperado seria ver o dólar enfraquecendo, a curva longa dos juros abrindo e as ações repercutindo negativamente. Mas não vemos isso de uma forma forte hoje. A reação foi mais leve, em um primeiro momento”, reflete.

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O ouro e a prata atingiram novos recordes intradiários nesta segunda-feira (12), diante do aumento de apreensão sobre a autonomia do Fed. O ouro para fevereiro de 2026 tocou o nível de US$ 4.640,5 por onça-troy na máxima, enquanto a prata para março bateu o patamar de US$ 86,340 por onça-troy.

O dólar, por sua vez, recuou em relação a outras moedas de economias desenvolvidas. O índice DXY, que compara a divisa americana com outros seis pares fortes, cedeu 0,27%, aos 98,862 pontos nesta tarde. Em Wall Street, os índices acionários tiveram desempenho positivo: enquanto o Dow Jones avançou 0,17%, S&P 500 e Nasdaq tiveram ganhos de 0,16% e 0,26%, respectivamente.

Para Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad, o episódio relacionado a Powell pode ser visto como uma ameaça significativa, principalmente quando se olha o contexto de desacordo sobre a política monetária em que as investigações surgem. “A situação não gera apenas uma maior incerteza em relação à credibilidade institucional com a tentativa de minar a autonomia do Fed: o reflexo desencadeia também um maior questionamento sobre a trajetória de juros“, afirma.

Segundo ele, à medida que esse risco se torna mais presente, os ativos americanos podem se tornar menos atrativos para os investidores, reforçando a tendência de diversificação global, o que direciona o capital para outras geografias ou para instrumentos de proteção, como o ouro, que já sobe mais de 6% em 2026.

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No caso do Brasil, Lobo avalia que o efeito pode resultar em entrada de capital em busca de oportunidades alternativas ao mercado americano. O mesmo pode acontecer com outros emergentes. “Contudo, se as taxas de juros dos EUA de longo prazo subirem muito devido à incerteza política, isso pode acabar drenando liquidez de mercados como o Brasil e direcionando para outras alternativas mais seguras”, diz.

Troca na presidência do Fed

O mandato de Powell termina em maio. Na lista de possíveis finalistas para indicação à presidência do banco central americano, estão o ex-diretor do Fed Kevin Warsh, o diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett, o diretor de investimentos em renda global da BlackRock, Rick Rieder, e o diretor do Fed Christopher Waller.

Em entrevista ao E-Investidor, a economista-chefe da Mirae Asset, Marianna Costa, avaliou que a troca na presidência do Fed será um dos eventos mais importantes para investidores em 2026, já que a percepção de um um banco central americano mais suscetível a pressões políticas pode influenciar a parte curta da curva de juros americana.

Alves, da Avenue, concorda que essa decisão terá um impacto direto no mercado. “Esse é um dos principais riscos que eu aponto para 2026, com um presidente do banco central americano que precisa conquistar a confiança dos investidores”, afirma.

Para Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, o mercado não tem um nome favorito para substituir Powell. “Independente de qual for, Trump já deixou bem claro que, quem ele escolher, estará muito empenhado e enviesado a uma política de cortes de juros mais agressiva. Com isso, já temos em mente o que esperar do novo presidente do Fed“, destaca.

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