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Guerra no Irã levanta dúvidas sobre fluxo estrangeiro para a Bolsa brasileira

Volatilidade já estava na conta, mas capital gringo no mercado doméstico depende da duração do conflito no Oriente Médio; veja projeções e o que dizem os analistas

Por Caroline Aragaki e Maria Regina Silva

17/03/2026 | 5:30 Atualização: 16/03/2026 | 20:46

Fluxo estrangeiro na Bolsa brasileira pode ter prazo para acabar, tudo depende da duração da guerra no Irã. (Arte: Victoria Fuoco/Imagens: Adobe Stock)
Fluxo estrangeiro na Bolsa brasileira pode ter prazo para acabar, tudo depende da duração da guerra no Irã. (Arte: Victoria Fuoco/Imagens: Adobe Stock)

Depois do aporte consistente de R$ 41,709 bilhões por investidores estrangeiros na Bolsa brasileira no primeiro bimestre de 2026, a guerra entre Estados Unidos e Irã acrescenta volatilidade e dúvidas sobre a extensão do movimento. Especialistas de investimentos apontam que a tendência ainda é de um conflito com duração limitada, de modo que o cenário base prevê que parte da diversificação de recursos fora dos EUA venha para o País, que tem pela frente um ciclo de flexibilização monetária e uma eleição no radar.

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“Se a guerra acabar razoavelmente rápido, em até dois meses e meio, o fluxo estrangeiro para a Bolsa brasileira deve continuar”, afirma o superintendente de Renda Variável da SulAmérica Investimentos, Gilberto Nagai. Se este for o caso, o preço do petróleo deve voltar a ceder e afetar, também para baixo, inflação e juros, o que é bom para ativos de risco.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já disse que a guerra deve durar de quatro a cinco semanas, mas enfatizou que o País tem capacidade de “ir muito além disso”. Neste fim de semana, o principal assessor econômico da Casa Branca, Kevin Hassett, reforçou a previsão, citando o Pentágono: quatro a seis semanas para “completar a missão”.

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O diretor de investimentos do Bradesco BBI, André Moor, considera que o conflito no Oriente Médio só altera um pouco o cronograma para o fluxo ao Brasil. Segundo ele, sua equipe já imaginava que a janela ia se construir com os percalços de uma geopolítica global volátil, o que se concluiu. “O direcional continua sendo o mesmo, de uma janela robusta pelo menos até o meio do ano“, afirma.

“Já estava na conta, esperávamos volatilidade, como se concretizou no fim de semana. Não deve ter um impacto muito negativo. Estamos com operações para lançar”, reforça George Costa e Silva, diretor de mercado de capitais de ações do Bradesco BBI.

Na mesma linha, o diretor de investimentos da Franklin Templeton, Frederico Sampaio, afirma que não aposta que os aportes externos ao Brasil cessarão, ao menos não até os próximos cinco meses. “Não sei até quando vai, mas não apostaria que acabará por ora”, avalia.

Apesar da maior alta de 1,87% do dólar em março em meio à tensão geopolítica, Costa e Silva pontua que a desvalorização da moeda norte-americana, que já vem ocorrendo e tem sido um ponto de entrada do investidor estrangeiro para o Brasil em meio à rotação de ativos, pode continuar.

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O estrategista Bruno Takeo, da Potenza Capital, diz que ainda não sabe se o conflito é suficiente para inverter o fluxo externo para a Bolsa de Valores. Contudo, enfatiza que “deve diminuir as entradas enquanto a incerteza estiver alta”.

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Nas contas de Nagai, da SulAmérica, se os fundos estrangeiros tirarem 1% da carteira de ativos dos Estados Unidos para diversificar a outros países, a tendência é de que haja um fluxo de cerca de R$ 90 bilhões ao País.

Para a XP Investimentos, o Brasil permanece como um dos principais beneficiados do movimento de rotação global. Neste cenário, elevou sua projeção para o Ibovespa de 190 mil pontos para 196 mil pontos no fim de 2026, com o cenário otimista prevendo o Índice Bovespa a 242 mil pontos.

Fluxo em blue chips

Sampaio, da Franklin Templeton, considera que o fluxo para a Bolsa brasileira foi pautado em um movimento disseminado global, não se atendo tanto à dinâmica individual de cada região. “A tendência é de que continue vindo dentro de índices” se for o caso, afirma.

Neste sentido, o índice MSCI de mercados emergentes e mesmo o MSCI Brasil têm foco em empresas blue chips (companhias consolidadas com grande liquidez na Bolsa), assim como o Ibovespa, como é o caso de Vale (VALE3), Petrobras (PETR3; PETR4) e o setor financeiro.

Portanto, a tendência ainda é de que o fluxo se mantenha em ações de primeira linha, aumentando o diferencial de valuation (valor de mercado) em relação às chamadas small caps, empresas de baixa capitalização.

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O Bank of America (BofA) mencionou em relatório no fim de fevereiro que as small caps brasileiras ficaram para trás no rali do Ibovespa e continuam sendo negociadas com desconto. O índice SMLLBV Index (principalmente empresas de consumo e indústria) está cerca de 1 desvio-padrão abaixo da média e o índice de small caps tem desempenho inferior ao do Ibovespa desde o início de 2025, acrescenta.

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Nagai, da SulAmérica, concorda que o investidor estrangeiro não tende a mudar seu foco para small caps, por um fator conceitual: normalmente não há analistas específicos que olhem para o Brasil no exterior. “A maior parte compra via ETF (fundo de índice) ou praticamente replicando o índice, para não ter muita dor de cabeça”, afirma, mencionando que normalmente olham as ações top 15, e decidem que abaixo disso não vão comprar para não precisarem acompanhar a empresa no detalhe.

Small caps focadas no investidor doméstico

Neste sentido, uma eventual alta acentuada das small caps seria mais focada no investidor doméstico do que no estrangeiro, e um possível gatilho é a política monetária. O Banco Central (BC) já havia indicado na reunião de janeiro que irá iniciar o ciclo de flexibilização monetária em março, sem dar informações sobre o ritmo dos cortes na Selic.

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O diretor de mercado de capitais de ações do Bradesco BBI diz que o direcional mais importante é a perspectiva de início de afrouxamento monetário pelo Banco Central. Em sua visão, o mercado já se adiantou a um corte da Selic começando em março. Atualmente, a taxa está em 15% ao ano.

“Se houver queda agora e nas sucessivas reuniões ao longo do ano, seja para uma taxa de 12%, 12,50%, no final de 2026, já deveria impulsionar por si o mercado de capitais”, afirma.

O conflito no Oriente Médio, contudo, também começa a embaralhar as apostas do mercado financeiro em relação ao ritmo de afrouxamento. Na sexta-feira (6), antes da escalada das tensões geopolíticas, a precificação pela curva de juros era chance de praticamente 100% de redução de 0,5 ponto porcentual da Selic em março. Nos últimos dias, no entanto, a aposta para corte de apenas 0,25pp ganhou força e passou a ser majoritária.

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