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Mercado

Fundos de debêntures atraem bilhões em capital, mas têm um desafio em 2025

Produtos, que compram títulos de dívida emitidos por empresas, passavam longe dos olhos dos investidores pessoa física. Mas isso mudou em 2024

Por Jenne Andrade

08/03/2025 | 7:15 Atualização: 08/03/2025 | 2:15

Debêntures são boas opções na renda fixa, mas é preciso critério para escolher. (Imagem: Adobe Stock)
Debêntures são boas opções na renda fixa, mas é preciso critério para escolher. (Imagem: Adobe Stock)

Há cinco anos, a expressão “fundo de debêntures” soava como um palavrão. Esses produtos, que compram títulos de dívida emitidos por empresas, passavam longe dos olhos dos investidores – especialmente das pessoas físicas. Mas isso mudou bruscamente, em especial a partir do no ano passado.

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De acordo com um levantamento feito pela ComDinheiro, essas aplicações em debêntures captaram aproximadamente R$ 307 bilhões em 2024. Nos últimos 12 meses, os aportes líquidos foram de R$ 270 bilhões. O cálculo foi feito utilizando os fundos que alocam 20% ou mais do patrimônio em debêntures e possuem pelo menos mil cotistas.

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Por trás desse fluxo bilionário, está uma “tempestade perfeita” para os fundos de debêntures. Em primeiro lugar, houve a taxação dos fundos exclusivos no final de 2023. Depois, o governo limitou as emissões de Certificados de Recebíveis Imobiliários e do Agronegócio (CRAs e CRIs), assim como de Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio (LCIs e LCAs) – que eram queridinhas dos investidores que buscavam ativos com isenção de Imposto de Renda (IR).

Depois, as novas altas da taxa Selic carimbaram um cenário de aversão a risco, tanto para os investidores quanto para as empresas, que passaram a privilegiar levantar capital via dívida em vez de tentar pelo mercado tradicional. As emissões de debêntures somaram R$ 473,7 bilhões em 2024 e, somente entre janeiro e novembro, as emissões de debêntures incentivadas (com isenção de IR) chegaram a R$ 120,3 milhões, 77,4% superior ao acumulado de 2023. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

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Essa conjuntura fez os investidores passarem a olhar os fundos de debêntures, em especial aqueles de debêntures incentivadas, como uma opção para elevar os ganhos. “Até porque no final do dia o benefício tributário do investidor é maior conforme os juros sobem. Se hoje, por exemplo, tenho 15% de juros, com investimentos isentos deixo de pagar 15% de imposto de renda só em cima dos juros. Ou seja, 2% de spread”, afirma Pierre Jadoul, diretor-executivo e gestor responsável pela estratégia de crédito da ARX Investimentos.

Fundos hedgeados driblam marcação a mercado

A ARX é a gestora do “ARX Hedge Master”, que, entre os fundos que mais estão expostos a debêntures (80% ou mais do patrimônio aplicado diretamente nos títulos), possui maior retorno nos últimos quatro anos, de 78,11%. Somente em 2024, a valorização foi de 17,27%. Jadoul explica que o fundo tem a estratégia de investir em debêntures incentivadas, mas com um diferencial de ser “hedgeado”. Ou seja, apesar da maioria dos títulos de dívida serem indexados ao IPCA+, o gestor consegue trocar esse benchmark pelo CDI por meio derivativos. Em outras palavras, evita as perdas de marcação a mercado quando o rendimento dos títulos IPCA+ sobe.

Os fundos “Sparta Master Incentivado” e “RB Capital Master Incentivado” também seguem essa estratégia: possuem mais de 80% do patrimônio em debêntures e tiveram retornos de 71% e 66% desde 2020 e de 13,98% e 16% somente no ano passado . Os dados foram levantados por Einar Rivero, sócio-fundador da Elos Ayta.

“Foi o primeiro fundo da indústria com esse perfil, que a gente chama de debênture incentivada hedgeado. A estratégia começou em 2017 e ele possui uma carteira super diversificada”, aponta Ulisses Nehmi, CEO da Sparta. “Os fundos da RB são hedgeados. A estratégia do fundo tem sido bastante assertiva nesse sentido”, diz Rafael Ohmachi, sócio e portfólio manager da estratégia de infraestrutura da RB.

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Os fundos que não possuem essa estrutura sofreram mais no ano passado pelo aumento dos prêmios nos títulos IPCA+, que impactaram negativamente os preços dos títulos. No geral, as aplicações de varejo voltadas a debêntures renderam cerca de 10,16% em 2024, em média, contra 10,73% em 2023. Entre os produtos mais expostos a esses títulos, com mais de 80% de alocação voltada a debêntures, a média de retornos foi ainda menor, de 5,88% em 2024 contra 15% em 2023.

Ainda assim, o número não é considerado uma performance ruim. Segundo dados da Elos Ayta, o Índice IMA-B Geral, que é referência para títulos indexados ao IPCA, caso da maioria das debêntures incentivadas, teve uma variação de -2,44% no ano passado.

“Eles são ativos conservadores. Via de regra, as debêntures incentivadas são emitidas por empresas de alta qualidade de crédito”, aponta Alexandre Donini, gestor de renda fixa e crédito da Genial Investimentos. Mesmo para as debêntures convencionais, a exposição a altos riscos de crédito não tem aderência entre os investidores. Jadoul, da ARX, vê um mercado ainda muito avesso ao risco e fechado para captação de empresas com menor qualidade de crédito. As emissões explodiram em 2024, mas na análise dele, com uma oferta muito concentrada em companhias historicamente resilientes.

“Eu não estou vendo o mercado na situação atual olhando nomes novos, muito pelo contrário”, diz Jadoul. “É até difícil saber qual foi a última emissão de uma varejista discricionária, por exemplo. Essas empresas não têm mais acesso.”

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Uma régua mais baixa para 2025

A maior parte dos gestores e analistas consultados pelo E-Investidor espera que o ano de 2025 seja mais próximo da média histórica. O sentimento é de que o “boom” nas captações deve ficar restrito ao ano passado e que os resultados fiquem mais em linha com os benchmarks. Isto porque os spreads, prêmios oferecidos pelas empresas que emitem os títulos de dívida, tendem a ficar menores enquanto a Selic deve continuar subindo e apertando as despesas financeiras das companhias.

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“Não é um negócio que vai trazer um problema generalizado para a indústria, mas precisaremos olhar com mais cautela nome a nome para selecionar os ativos”, afirma Jean Pierre Cote Gil, responsável pela área de crédito da Vinland Capital. “Fica mais difícil, para os fundos, gerarem retornos semelhantes ao de 2024. Os spreads vieram de um patamar de CDI+2% para CDI+1%, e aí os rendimentos acabam ficando muito parecidos com o do próprio título público.”

Jadoul, da ARX, também tem expectativas menores para 2025. “O cenário base é ter uma captação mais neutra. Quando você olha os fundos incentivados, até para o próprio ARX Hedge, a expectativa (de retorno) para frente vai ser muito mais próxima do CDI porque poderemos ter um fechamento dos spreads”, afirma.

Contudo, isto não significa que será um ano ruim para os fundos de debêntures. Até porque o mercado continua com aversão ao risco e privilegiando a renda fixa. Para Nehmi, CEO da Sparta, as aplicações voltadas ao setor de infraestrutura devem driblar a possível piora das condições macro. A casa possui entre seus carros-chefe um fundo de debêntures incentivadas no setor de infraestrutura. O Sparta Debêntures Incentivadas rendeu 13% no ano passado e deve continuar bem este ano.

“Estamos bem animados”, diz Nehmi, CEO da Sparta. “Poderíamos entender que em um ambiente de taxas de juros subindo, os riscos de crédito aumentam. Então talvez o investidor de debêntures precisasse ser um pouco mais cauteloso ao investir em crédito. Por outro lado, se existe um setor que é o mais resiliente entre todos os outros, na nossa opinião, é justamente o de infraestrutura. Normalmente são empresas reguladas, com uma previsibilidade muito grande.”

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