Mercado reage com cautela à mudança de CEO diante de desafios operacionais (Foto: Adobe Stock)
A saída de Jorge Pinheiro do cargo de CEO da Hapvida (HAPV3), anunciada nesta segunda-feira (6), para assumir uma posição no conselho de administração, sinaliza uma nova fase da empresa e traz um recado importante ao mercado: a possibilidade da operadora de saúde atender as demandas da sua base acionária.
Após 27 anos no cargo, o executivo liderou um processo de expansão baseado em integrações, ganhos de escala e busca por eficiência no modelo de saúde, mas reconheceu, em comunicado, a necessidade de ações que possam reverter o quadro financeiro da companhia.
Na última semana, a Hapvida voltou ao centro das atenções dos investidores após a Squadra Investimentos encaminhar uma carta à empresa, exigindo uma série de mudanças na gestão. A asset, com R$ 18 bilhões sob gestão, detém 6,98% de participação do capital da companhia, ficando atrás apenas dos acionistas controladores.
O novo CEO será Luccas Augusto Adib que assumirá a missão de recuperar a rentabilidade, reduzir a alavancagem da empresa e mitigar a insatisfação dos investidores. Apesar da mudança, há um ceticismo do mercado quanto à capacidade da nova gestão em adotar essas medidas.
Na terça-feira (7), as ações da Hapvida sofreram uma queda de 3,93%, cotadas a R$ 10,26. A depreciação adicionou mais um episódio de elevado estresse para o papel que, desde abril de 2018, quando estreou na bolsa de valores, acumula perdas acima de 80%. O Ibovespa avançou 121% no mesmo período, segundo dados do TradeMap.
Procurada, a Hapvida não quis comentar o assunto.
Apesar da reação do mercado, Sérgio Carvalho, sócio fundador da MATCH Capital, consultoria especializada em aquisições, fusões e governança, avalia a troca de CEO como uma notícia positiva – mas reconhece que é insuficiente para resgatar a credibilidade financeira da empresa.
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Em meio a uma sequência de resultados trimestrais frustrantes, a remuneração destinada a CEO e aos membros do Conselho de Administração permaneceu em descompasso com a sua realidade financeira. Em carta, a Squadra citou que os pacotes de remuneração aos membros do CA, nos anos de 2023 e de 2024, chegaram a R$ 67 milhões e R$ 60 milhões, respectivamente.
Em 2026, a previsão é de que a empresa destine R$ 57 milhões para o CA. O valor representa cerca de 20% das estimativas de lucro. A título de comparação, a remuneração supera aos dos membros do CA do BTG Pactual e da Suzano que devem receber cerca de R$ 38 milhões e R$ 31 milhões, respectivamente.
A remuneração do CEO também tem sido relevante. No mesmo período, Jorge Pinheiro recebeu aproximadamente R$ 110 milhões, um dos CEOs mais bem pagos no Brasil. “É quase uma bolsa empresário”, opina Carvalho. “A empresa precisa ter um novo acordo de gestão que estabeleça regras mais transparentes que justifiquem essas remunerações elevadas”, acrescenta o especialista.
Já Renato Chaves, especialista e ativista em governança corporativa, explica que essa política desalinhada ao momento da empresa tem impacto direto para os investidores minoritários. “Se há uma parcela significativa dos recursos disponíveis sendo direcionado para o bolso dos executivos e conselheiros, provavelmente vai ter uma restrição de dividendos. O caixa da empresa (do porte da Hapvida) não suporta pagamentos excessivos”, avalia Chaves.
A Squadra citou ainda a necessidade de mudanças na composição do CA da empresa, com a presença efetiva de membros independentes que tenham capacidade técnica para viabilizar o real alinhamento dos interesses de todos os acionistas.
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Na carta, a gestora sugeriu que a eleição dos membros na próxima Assembleia Geral Ordinária, prevista para o fim de abril, ocorra com a adoção do processo de voto múltiplo e indicou três candidatos que, na sua avaliação, têm experiência para corrigir a rota da empresa: Tania Sztamfater Chocolat, Bruno Magalhães e Silva e Eduardo Parente Menezes.
Depreciação de valor
O salário dos executivos não é o único fator que incomoda os investidores, especialmente para Squadra. Na carta, a gestora cita uma deterioração acentuada nos resultados operacionais e financeiros da Hapvida, mesmo em um contexto de recuperação para o setor de saúde suplementar.
Como mostramos nesta reportagem, no quatro trimestre de 2025, a receita líquida da Hapvida somou R$ 7,9 bilhões, mas o Ebitda ajustado (indicador que mede o desempenho operacional da empresa) ficou em R$ 556 milhões, queda de 34% em um ano e abaixo das estimativas. A margem Ebitda, que mostra quanto da receita sobra para a operação, recuou para 9%. Outro incômodo para o mercado foi o aumento da sinistralidade, que mede o peso dos custos médicos sobre a receita. O índice subiu para 75,5%, acima do padrão sazonal.
Os números resultaram na revisão das avaliações para o papel. No fim de março, o Goldman Sachs rebaixou a recomendação das ações da Hapvida (HAPV3) de compra para neutro e reduziu o preço-alvo de R$ 18 para R$ 11. Em 2026, as perspectivas também não são boas. Segundo Rafael Ragazi, sócio e Head de Ações da Nord Investimentos, o mercado espera uma queda significativa do lucro ajustado da companhia.
“O mercado projeta uma queda de R$ 1,2 bilhão, em 2025, para R$ 366 milhões do lucro ajustado da companhia em 2026 e esse número ainda pode ser revisado para baixo”, diz Ragazi. “ Até 2028, não há projeções de que o lucro volte para o patamar de 2025”, acrescenta.
A realidade financeira, segundo a Squadra, reflete uma série de decisões equivocadas adotadas pela gestão nos últimos anos. Na carta, a gestora cita a combinação de negócios com a Notre Dame Intermédica (NDI) que, desde 2025, não resultou em sinergias antes anunciadas ao mercado à época da transação. Como sugestão, a asset recomendou vender os ativos para simplificar o operacional da empresa.
A proposta, na avaliação do analista, parece a mais assertiva dada a necessidade da companhia em resgatar a confiança do mercado. “O racional era que a Hapvida crescesse no mercado de Sul e Sudeste, mas não foi o que aconteceu. A empresa, além de não capturar sinergias, perdeu mercado na região”, diz Caroline Sanchez, analista da Levante Inside Corp.
Vale a pena ter ações do Hapvida na carteira?
Sem uma sinalização de recuperação no curto prazo, os analistas de mercado recomendam aos investidores ficarem de fora do papel e evitem tentar antecipar uma melhora nos resultados financeiros da companhia. “É uma aposta de altíssimo risco. Não é papel para qualquer investidor porque é extremamente volátil e os catalisadores de curto prazo são muito frágeis”, diz Sanchez.
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A mudança da percepção vai depender do trabalho de execução do nosso CEO e da abertura da companhia às mudanças propostas pela Squadra. Se as sugestões forem acatadas, a analista da Levante Inside Corp. enxerga um sinal positivo de que há uma possibilidade de melhorias no operacional e financeiro da companhia. Caso contrário, a sinalização é de que a família fundadora estaria blindando a gestão da Hapvida.
“A assembleia de 30 de abril será um termômetro bastante importante”, complementa a especialista.