Investidores estrangeiros aportam bilhões no mercado brasileiro (Foto: Adobe Stock)
As projeções feitas no ano passado para a performance do Ibovespaem 2026 devem estar, a esta altura, enterradas em uma gaveta qualquer. Nem os cálculos mais otimistas preveriam que o principal índice de ações da Bolsa de Valores brasileira sairia do patamar de 160 mil pontos para 190 mil pontos em apenas dois meses, já bem próxima da marca de 200 mil pontos.
Os preparativos para a “festa dos 200 mil pontos” já estão começando no mercado brasileiro, já que agora o topo histórico está a apenas uma alta de 5 pontos porcentuais de distância. A celebração, entretanto, deve ser patrocinada por investidores estrangeiros, responsáveis por um fluxo de capital colossal despejado nas ações.
Somente nos dois primeiros meses de 2026, os investidores estrangeiros aportaram R$ 41,7 bilhões na B3. Esse volume já é 55% superior a todo o montante registrado no acumulado do ano passado.
A chegada dos gringos por aqui também tem pouco a ver com fatores internos. Milene Dellatore, especialista em finanças, day trader e sócia-diretora da MIDE Mesa Proprietária, aponta que há um movimento global de rotação para commodities e mercados emergentes, depois de um ciclo longo de contração de capital em empresas de tecnologia norte-americanas.
O dinheiro só começou a se dispersar pelo mundo recentemente, com o aumento da concorrência no segmento de IA fora dos EUA. Principalmente após o surgimento de empresas como a chinesaDeepSeek, supostamente capazes de fornecer tecnologia a preços mais baixos que as americanas.
Paralelamente, o acirramento de tensões geopolíticas – como o conflito entre Rússia e Ucrânia, além da invasão norte-americana à Venezuela e ameaças comerciais do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre outros países – alimenta apostas em uma alta de preços no mercado de commodities.
“Há saída relevante de ações norte-americanas e realocação para mercados financeiros fora dos EUA, com Brasil entre os destinos”, afirma Dellatore. O gringo, pelo menos por enquanto, não quer saber de eleições e risco fiscal. O que importa é preço, e nisso, o Brasil estava atrativo.
Segundo Flávio Conde, analista da Levante Ideias de Investimentos, a Bolsa brasileira tem o menor índice preço/lucro (P/L) da América Latina, ou seja, está mais barata que os pares. Tornou-se um destino óbvio do dinheiro estrangeiro, não mais sugado pelas big techs – as maiores companhias de tecnologia dos EUA.
O investidor estrangeiro deixou a Bolsa cara?
Ainda assim, o investidor local ainda está majoritariamente de costas para a Bolsa e isso pode ser observado nos resgates ainda registrados em fundos de ações (FIAs), que estão perdendo dinheiro há pelo menos dois anos. No último dado mensal disponível, de janeiro deste ano, R$ 2,4 bilhões haviam voado para fora deles.
Para esse investidor local, pode ser tarde para entrar na festa.
“Quem já estava posicionado, tem que continuar. Para quem não entrou ainda, já passou o momento. O preço está muito alto”, afirma Conde.
Essa não é uma visão hegemônica. Dalton Gardimam, economista-chefe da Ágora Investimentos, vê a Bolsa não mais “hiper descontada” como antes, mas com oportunidades – que agora precisam ser garimpadas com mais cautela. Especialmente quando o assunto são blue chips, as maiores empresas da Bolsa brasileira e principais alvos do investimento gringo. “Estamos investigando as small caps (empresas de menor porte), algumas que andaram e outras que não”, afirmou. “Hoje o mercado financeiro é de seleção de papéis.”
Gringos embolsam as maiores empresas
Os investidores estrangeiros que estão investindo na B3 são, majoritariamente, institucionais. Isto significa que são grandes investidores, clientes de alta e altíssima renda de bancos e corretoras internacionais ou grandes fundos de investimento, que possuem parte do mandato atrelado a mercados emergentes.
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“Esses fundos muitas vezes fazem a gestão de bilhões, talvez trilhões de dólares. Uma parcela pequena do patrimônio, 0,5% ou 1%, acaba impactando bastante quando direcionado para cá. É algo que consegue puxar R$ 20 bilhões aqui na nossa Bolsa”, afirma Danilo Coelho, economista, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela Faculdade Brasileira de Negócios e Finanças (FBNF).
Esse tipo de investidor não costuma fazer stock picking, ou seja, selecionar ação por ação do país alvo para investir. Em vez disso, têm preferência por aplicar em produtos que já forneçam, de forma geral, algum grau de exposição ao mercado brasileiro ou a outros emergentes.
Um desses produtos são os ETFs, fundos que replicam o desempenho de bolsas, setores e demais índices. O mais utilizado pelos estrangeiros para seguir especificamente o desempenho do Ibovespa é o iShares MSCI Brazil ETF (EWZ), negociado nos EUA. Outro caminho ocorre por meio do investimento no iShares MSCI Emerging Markets ETF (EEM), que já abarca uma gama de mercados emergentes, incluindo o Brasil.
Dentro desses índices, estão apenas as blue chips. Por isso, quando o dinheiro gringo chega ao Brasil, o porto são companhias como Vale (VALE3) e Petrobras (PETR3; PETR4), exportadoras do setor de proteínas, além de grandes instituições financeiras. Na outra ponta, empresas menores, as small caps, não entram no radar do fluxo estrangeiro em 2026.
Capital estrangeiro de passagem ou de longo prazo?
Investidores estrangeiros têm direcionado o fluxo para a Bolsa brasileira com foco no ciclo de queda da Selic, e não nas eleições presidenciais. (Imagem: Adobe Stock)
Até quando esse capital de fora ficará por aqui? Essa é a pergunta que poucos arriscam responder. Os especialistas consultados pelo E-Investidor apontam, no entanto, que a alocação dos estrangeiros, pelo menos em um primeiro momento, tem característica mais tática.
“Não se trata de um fluxo puramente especulativo de curtíssimo prazo, mas também não é um capital completamente imune a alterações nas condições globais de juros e risco, o que pode gerar movimentos de saída caso o cenário se deteriore”, afirma Pedro Oliveira, analista de mercado da Victrix Capital.
Para estancar esse fluxo recorde, um cenário extremo precisaria se materializar. Na visão de Conde, da Levante, a bolha de IA nos EUA precisaria estourar ou as tensões geopolíticas chegarem ao ápice, o que provocaria uma queda generalizada nos mercados globais e uma reprecificação que atingiria as bolsas. O capital estrangeiro secaria, com os investidores reorganizando recursos.
Um cenário ainda pouco provável, pois a maior aposta é de que a tendência positiva continue, mesmo que em menor grau.
Riscos internos podem atrapalhar a chegada aos 200 mil pontos
Já Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, e Coelho, especialista em investimentos, enxergam que fatores internos também podem atrapalhar. Nos próximos meses, as eleições devem começar a fazer preço, assim como as sinalizações fiscais. “Qualquer problema fiscal de médio e longo prazo pode reverter um pouco a opinião (sobre o mercado brasileiro)”, afirma Cruz.
“Outro ponto importante que a gente precisa endereçar com muita atenção é a questão do nosso sistema bancário. Eventos recentes com Banco Master, Will Bank, impactaram as demais instituições financeiras”, diz Coelho. “Se esse fluxo estrangeiro acabar se encerrando, a Bolsa vai com certeza recuar.”
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O consenso, no momento, é de cautela maior. A Bolsa já não está tão barata quanto já foi, mas também não está cara. Será necessário mais critério para escolher os ativos, considerando que os preços das grandes companhias, alvos do investimento estrangeiro, já podem ter andado bastante. Vale e Petrobras, por exemplo, já acumulam altas de 20% e 30% no ano.
O estrangeiro já surfou as ondas mais óbvias, enquanto o investidor local ainda pensa se volta à Bolsa. “O local ainda está bem confortável com os 15% de juros na renda fixa”, diz Cruz.