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Mercado

Fed acelera fim de estímulos: entenda o impacto na Bolsa brasileira

O banco central americano irá agilizar o processo de retirada de estímulos à economia e aumentar os juros

Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed) (Foto: Yuri Gripas/Reuters)
  • A autoridade monetária anunciou que irá reduzir o volume de compra de ativos (medida que joga liquidez no mercado) em US$ 30 bilhões ao mês
  • A partir de março, o comitê de política monetária dos EUA (Fomc, na sigla em inglês), também sinalizou que poderá começar a elevar os juros
  • Uma alteração de direção na maior economia do mundo acaba afetando as bolsas globais. O Brasil também deve sentir o impacto, com um possível fluxo de recursos saindo de países emergentes e migrando para a renda fixa americana

(Jenne Andrade e Rebeca Soares) — O Federal Reserve (Fed), banco central americano, decidiu manter a taxa de juros inalterada, entre 0% e 0,25%, na quarta-feira (15). Entretanto, Jerome Powell, presidente do órgão, deu indicações que irá acelerar o processo chamado de ‘tapering’, ou seja, de retirada gradual de estímulos à economia.

A autoridade monetária anunciou que irá reduzir o volume de compra de ativos (medida que joga liquidez no mercado) em US$ 30 bilhões ao mês. A partir de março, o comitê de política monetária dos EUA (Fomc, na sigla em inglês), também sinalizou que poderá começar a elevar os juros. A agilização do processo de desaquecimento está relacionado à escalada da inflação, que deixou de ser enxergada como apenas ‘transitória’ e deve passar a ser encarada como um ponto de maior atenção.

Para os analistas ouvidos pelo E-Investidor, o Fed adotou um tom mais ‘hawkish’,  jargão utilizado quando as autoridades monetárias adotam uma postura mais dura contra a inflação, em detrimento da preocupação com a atividade econômica. A mudança de conduta já era amplamente esperada e, agora, os especialistas se concentram nos impactos nos mercados.

Uma alteração de direção na maior economia do mundo acaba afetando as bolsas globais. O Brasil também deve sentir o impacto, com um possível fluxo de recursos saindo de países emergentes e migrando para a renda fixa americana.

“Obviamente que esse movimento vindo da Fed é importante para as economias emergentes”, afirma Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos. “Naturalmente, quando há elevação de juros na maior economia do mundo, a demanda e o fluxo para a Bolsa são diminuídos.”

Por outro lado, a notícia de que o programa de redução de estímulos vai ser acelerado mostra que a economia dos EUA está se recuperando bem e conseguindo andar com as próprias pernas. “Sem a bengala de tantos pacotes de estímulos feitos em tempos passados”, ressalta João Beck, economista e sócio da BRA, escritório credenciado da XP Investimentos.

Entenda a visão de 5 analistas sobre o impacto da decisão do Fed no mercado brasileiro:

Antonio Carlos Pedrolin, líder de mesa de renda variável da blue3

“Os movimentos já eram esperados, como a aceleração no ritmo do ‘tapering’, de US$ 15 bilhões para US$ 30 bilhões. É um movimento ‘hawkish’ esperado. Pela primeira vez eles mostram uma preocupação com a inflação não ser tão temporária como eles inicialmente estavam prevendo.

Sobre as projeções, por conta da elevação da inflação, espera-se três altas para o ano que vem e duas para 2023 e outras duas para 2024. Os aumentos do juro americano vai depender exclusivamente dos números do mercado de trabalho. Houve a manutenção da taxa de juros, continua entre 0% e 0,25%, mas o comitê acredita que é importante manter essa taxa de juro próximo a zero até que o mercado de trabalho volte ao pleno emprego. Depois disso, eles vão olhar a política monetária do Banco Central.”

João Beck, economista e sócio da BRA

“No comunicado divulgado pelo Fed, ficou claro que aumentou a preocupação quanto à inflação. O tom duro já era esperado, porém bem diferente do início do ano. E deve alinhar a expectativa de mercado para altas de juros antes do esperado para maio ou talvez até março.

Outra dúvida é o timing, ou seja, o intervalo temporal entre o ‘tapering’ e o aumento de juros. Powell deixou esse tema ainda em aberto, mas frisou que a alta de juros só vem após finalizado o ‘tapering’.

É um fato que a redução de estímulos e o arrocho da economia subindo juros podem ocasionar uma queda na Bolsa. Mas a notícia é positiva, significa que o país está conseguindo andar com as próprias pernas. Sem a bengala de tantos pacotes de estímulos feitos em tempos passados. Lógico que isso ainda dependerá dos dados da atividade nos trimestres seguintes. Mas se forem positivos, significa um crescimento sem ser artificial.

Para o Brasil, há um impacto pequeno. A alta de juros lá fora pode ser uma atrativo para um fluxo de recursos saindo de países emergentes, o que pressiona nossos juros por aqui. Os futuros de DI sobem hoje.

É curioso o efeito que resulta um ciclo de alta da taxa de juros lá fora. Porque muitas distorções ocorrem por conta justamente do processo inverso. A principal delas foi o boom de ações de tecnologia e dos criptoativos. A taxa de juros muito baixa por muito tempo faz com que obviamente haja um estímulo em empresas de tecnologia a criptoativos em busca de rentabilidade. Poderemos ver durante um tempo a reversão dessa tendência.”

Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos

“Obviamente que esse movimento do Fed é importante para as economias emergentes. O recado que fica é que se há um aumento de juros internos e aumento da velocidade de diminuição do meu tapering, significa que a economia está indo bem.

Essa movimentação do Fed pode ser interpretada de duas maneiras. Primeiramente, vai ter menos liquidez nos mercados porque o Fed com o tempo inseria US$ 1,5 trilhão no mercado ao ano. Naturalmente, vai ter elevação de juros, enquanto a demanda e o fluxo para a Bolsa diminuem. De forma que a demanda de maior fluxo seja para a renda fixa.

Em outra ponta, o que parece ser a visão mais otimista e vencedora, como visto no pregão da quarta-feira (15), é que a elevação de juros e a aceleração da diminuição do programa de ‘tapering’ significam que a economia está muito bem, ou seja, ela mesmo gira essa roda de investimentos, cria mercado e atrai mais dinheiro para as bolsas e para as empresas, por exemplo.

No mercado brasileiro a interpretação é exatamente essa. Se existe uma tendência a ajuste nos mercados emergentes de um otimismo vindo de fora por conta da maior economia do mundo estar indo bem.

Para nós, vendo que o mercado fica mais otimista, é possível aceitar um pouco mais de risco em alguns portfólios e aceitar o movimento vindo para nosso mercado também, por isso que a Bolsa brasileira foi bem no pregão também. Naturalmente, os EUA têm uma economia muito forte que puxa outras economias atreladas a ela por parcerias.”

Alexandre Espirito Santo, Economista-Chefe da Órama e prof. IBMEC-RJ

“A decisão de hoje do Fomc, de acelerar o’ tapering’, antecipando o movimento de junho para provavelmente março, foi bem recebida pelos investidores, com altas fortes nas bolsas em NY.

O Comitê do Fed também sinalizou que existe uma grande probabilidade de elevar as taxas de juros nos próximos anos. Jamais acreditei nessa narrativa do BC de lá de que a inflação seria transitória e que em breve os preços recuariam, quando a vida voltasse à ‘normalidade’.

De qualquer forma, creio que o Fed indicar que não vai ficar refém do mercado é importante e, talvez por isso, o bom comportamento depois da decisão, pois dá maior previsibilidade. Por fim, se entendi corretamente, o Fed deve elevar as taxas para perto de 1% a.a. em 2022, indo além em 2023. Minha dúvida é: esse movimento não será o alfinete que pode fazer estourar as bolhas nos índices de ações? Será o maior desafio do novo mandato de ‘Jay’ Powell.”

Gustavo Cruz, estrategista da RB investimentos

“Quando olhamos a ata do Fed, eles sempre mencionam que acompanham o que acontece nos mercados em desenvolvimento porque eles sabem que se apertarem muito o ritmo de alta de juros, acaba pressionando a taxa de juros do resto dos mercados emergentes.

O que poderia ser um cenário para 2022? Vamos supor que apenas os Estados Unidos tivessem com a vacina virando ano, a partir de 2022 o resto do mundo fosse ter acesso à vacina. Se fosse esse o caso, o FED não iria subir juros tão cedo porque eles têm a preocupação de não deixar as condições piores para o resto do globo.

Como não é este o caso, inclusive a maior parte dos países possuem uma taxa de vacinação maior que os Estados Unidos, não existe essa preocupação. Dessa forma, eles estão aí focados em resolver o cenário domesticamente do que internacionalmente.

Pensando diretamente no Brasil, acredito que tendo uma alta de juros mais rápida no primeiro semestre e também chegando em patamar mais elevado em 2022, acaba que mais recursos são atraídos para os Estados Unidos, ou seja, o dólar é fortalecido e acaba sendo transmitido via câmbio aqui no Brasil. Se é um câmbio mais alto, transmite para inflação e traz o trabalho do Copom, do Banco Central, para um nível de dificuldade maior. Se vai ter mais inflação, o que pressiona a ter taxa de juros mais altas.

Vale ressaltar que existe uma diferença entre um juros menor do Brasil com os Estados Unidos. Domesticamente, dificulta a atratividade do Brasil como um todo e já estamos em um bom momento. O Brasil está em uma situação política instável, assim como com um crescimento baixo e uma dívida muito alta.”

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