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Mercado

Varejo: vale a pena investir com o aumento dos juros e da inflação?

De julho até outubro, as ações fecharam com forte queda, segundo levantamento da Economatica

Foto: Ricardo Prado/Estadão
  • A inflação pode prejudicar o faturamento das empresas de varejo, principalmente a partir do próximo ano
  • Além do aumento dos preços dos produtos, o aumento dos juros pode impedir que o consumidor recorra ao crédito para comprar itens mais caros
  • No entanto, há empresas que têm apresentado bons resultados diante de um cenário nada motivador para o setor

A alta dos juros e a inflação maltratam cada vez mais o orçamento dos brasileiros e a tendência é que essa realidade se estenda ao longo de 2022. Na última quarta-feira (26), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central aumentou em 1,5 pontos percentuais a Selic. Com a elevação da taxa básica de juros para 7,75%, o acesso ao crédito fica mais caro para o consumidor.

Os preços também subiram. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação chegou a 10,25% nos últimos 12 meses, percentual que reduz ainda mais o poder de compra dos brasileiros. Esse cenário impactou de forma significativa o setor varejista.

Segundo levantamento da Teva Indices, feito com exclusividade para o E-Investidor, as ações do comércio sofreram uma queda de 32,2% durante o acumulado do ano. A perda só não foi maior do que o setor da construção civil, que amarga queda de 46,5%. Neste mesmo período, a taxa Selic subiu de 2%, em janeiro, para 7,75%, em outubro, e  a inflação atingiu 6,9% no último mês de setembro.

“O aumento do nível dos preços diminui o poder de compra das famílias, levando-as a restringir o consumo de bens menos essenciais. Quando o preço dos alimentos sobe, por exemplo, sobra menos dinheiro para outros bens de consumo e, consequentemente, o setor de comércio desaquece”, explica o relatório.

A realidade não é nada animadora para os investidores. Por isso, pode surgir a pergunta: vale a pena investir nas companhias do setor de varejo neste momento?

Segundo os analistas, a resposta vai depender de cada subsetor no qual a empresa atua. No caso das lojas de eletroeletrônicos, por se tratar de itens caros, as compras geralmente acontecem de forma parcelada. O problema é que a alta da Selic encarece esse tipo de crédito.

“Com a taxa referencial subindo, todos os outros juros sobem. Isso prejudica o orçamento das famílias porque vão evitar ou pensar duas vezes antes de adquirir crédito, seja por meio de empréstimo ou por compra parcelada”, explica Rodolpho Tobler, pesquisador economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A inflação também afasta a compra desses itens nos planos de consumo dos brasileiros, principalmente os de classes mais baixas. Segundo Victor Mouadeb, sócio da EWZ Capital, com o aumento dos preços dos produtos de alimentos, não há espaço para aquisição desses itens. “As famílias não podem realmente esticar a compra, por exemplo, comprar uma televisão e parcelar em 60 vezes. Precisam gastar para comer”, afirma.

No entanto, ele ressalta que, para as classes mais altas, esse tipo de consumo se manteve. Marcelo Inoue, analista da Perfin Asset Management, aponta outro ponto que pode reduzir o faturamento das companhias do segmento: problemas na cadeia de produção. "Há uma falta de chips processadores no mercado. Isso impacta toda a cadeia produtiva dos eletroeletrônicos. Então, os produtos podem faltar para o consumidor”, acrescenta.

As companhias que investiram no e-commerce também devem ter redução no seu faturamento nos próximos meses. De acordo com Phil Soares, analista da Órama, com o retorno do funcionamento das lojas físicas, o mercado on-line de grandes companhias, como Magalu (MGLU3) , Via Varejo (VIIA3)  e Americanas (LAME4), perde força.

“A abertura da circulação não necessariamente beneficia as empresas nesse momento. Vai ter uma melhora na demanda de loja física, mas terá um aumento da competitividade. Além disso, você terá um on-line se deteriorando porque as pessoas vão comprar mais na loja física”, afirma.

Festas de fim ano x inflação

Mas a inflação e a taxa Selic não devem trazer impactos imediatos para o consumo com a aproximação das festas de fim de ano e para o período de Black Friday, previsto para o próximo dia 26. Na avaliação de Mouadeb, o setor deve se beneficiar com uma demanda reprimida do mercado. “As pessoas pouparam recursos durante a pandemia e não gastaram como normalmente gastam. Então, para as festas de fim ano, entendemos que não vai ter uma grande influência”, cita.

E nesse contexto, o setor de vestuário deve se beneficiar com as festas de fim ano. Com o avanço da vacinação e o retorno das atividades presenciais, haverá uma demanda por roupas por parte da população. “As pessoas estão acostumadas a ir às lojas e provar as roupas. Com o lockdown, as pessoas saíram menos. Então, a reabertura ajuda setores como o vestuário”, ressalta Soares.

Mesmo assim, a previsão é que as vendas sejam menores do que o do ano passado. "Pode ser menor porque você tem menos renda disponível. As pessoas não têm mais o auxílio e você tem uma inflação alta", acrescenta Soares.

É por esse motivo que o sócio da EWZ Capital acredita que o mercado tenha reduzido o preço dos papéis do setor de varejo por enxergar fluxo de caixa menor, principalmente em 2022. "Com a inflação alta e as lojas físicas não vendendo com tanta força quanto vendiam anteriormente, o mercado começa a precificar um fluxo de caixa menor para o futuro, o que de fato acaba diminuindo o papel do varejo", explica Mouadeb.

E, de fato, os papéis do varejo estão em baixa. De acordo com levantamento da Economatica, de todas as empresas de comércio listadas na bolsa brasileiras, apenas o grupo Grazziotin (CGRA4) apresentou performance positiva no valor das ações no acumulado de julho a outubro. Neste período, os papéis da companhia registraram ganho de 37,81%. Todas as outras fecharam no negativo. As que tiveram as maiores perdas foram a Via Varejo (VIIA3), com baixa de -61,05% , Allied (ALLD), com -57,37%, e Le lis Blanc (LLIS), com -55,62%.

Recomendação

Mas qual é a orientação dos analistas para o investidor? A recomendação de Victor Mouadeb, sócio da EWZ Capital, é neutra para as ações do setor. Mas caso o investidor tenha interesse em comprar ativos, a orientação dele é buscar empresas com serviços de utilidades públicas. "São as companhias de saneamento, empresas de transmissores de energias e o setor elétrico como um todo, porque a população vai continuar tomando banho e vai continuar usando energia", justifica.

Já Phil Soares, analista da Órama, recomenda a compra da ações da Petz (PETZ3) devido à sua estratégia de mercado e por atingir um nicho de mercado consolidado no exterior. "A empresa possui uma boa estratégia diferenciada, tanto no on-line, quanto no off-line. O nicho de mercado é muito bom", avalia. Embora os papéis tenham sofrido nos últimos quatro meses, as ações da Petz, no acumulado do ano, fecharam com um crescimento de 1,02%.

A recomendação de Marcelo Inoue, analista da Perfin, é a compra das ações da Arezzo (ARZZ3). De acordo com ele, a empresa tem tido uma performance melhor do que as concorrentes de moda. "A Arezzo já está inclusive crescendo perto de 20% comparando com 2019, quando a gente nem falava em pandemia", destaca. Além disso, foi uma das poucas empresas de varejo que conseguiu ter ganhos no acumulado deste ano. No caso da Arezzo, o saldo positivo foi de 8,68%.

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