“Regulador sobe de escada enquanto as instituições financeiras estão de elevador”, diz head LatAm da Fireblocks
Especialistas discutem no SPIW os impactos da liquidez infinita no sistema financeiro, com avanços em Pix, Open Finance, IA e blockchain pressionando bancos a se adaptar
Especialistas explicam como o sistema financeiro é impactado pela tecnologia durante o SPIW (Foto: Isabela Ortiz)
Dinheiro dorme? No ecossistema financeiro moderno, o fluxo de recursos nunca para. Nesta quarta-feira (13), a diretora de Inovação e Tecnologia Bancária da Febraban, Duda Davidovic, a CFO da Associação Open Finance, Ana Paula Domenici, o diretor de Inovação e Estratégia da Fenasbac, Rodrigoh Henriques, e o head Latam da Fireblocks, Jorge Borges, discutiram os impactos da liquidez infinita para investidores e instituições financeiras.
O debate aconteceu durante o São Paulo Innovation Week (SPIW), maior festival global de tecnologia e inovação, realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta-feira (15). Ao longo dos três dias de programação, o SPIW reúne mais de 2 mil palestrantes brasileiros e estrangeiros para discutir temas ligados à ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre outros assuntos.
“Sabemos que o 24 horas por 7 dias ainda é um caminho em evolução”, afirmou Davidovic, da Febraban, sobre a instantaneidade dos pagamentos. A especialista disse que houve uma mudança de perspectiva depois do surgimento do Pix. “Para a pequena empresa, essa dinamicidade faz com que os negócios sobrevivam”, defendeu.
Mas nem tudo são flores. Os palestrantes abordaram que o Open Finance é a prova viva de que os modelos de negócio estão precisando se adaptar como nunca antes. Domenici disse que “o sistema financeiro e os bancos sobrevivem e se reinventam. Eles sabem como se comportar no seu espaço para oferecer o melhor serviço”. Mas não somente eles, todas as moedas também estão encarando a globalização e a tecnologia de forma bandeirantes, com o intuito de expandir cada vez mais sua conexão.
Segundo o head da Fireblocks, o Brasil é muito observado e tem recebido bastante questionamento de clientes de fora sobre esse interesse do País nesse aspecto de disrupção no sistema financeiro e adoção tecnológica. “Você tem instituições antenadas. Essa questão da liquidação, de onde as instituições ganham dinheiro, é justamente onde a tecnologia consegue ajudar bastante”, defende. O que realmente assombra as instituições é o que Henriques, da Fenasbac, chama de ‘momento Kodak’ — quando a instituição inventa a tecnologia que a ‘mata’.
“Quando você transforma o sistema financeiro e não tem mais float, surge a dúvida: ‘o que eu faço com isso?’. O Open Finance é a padronização para que eu consiga acessar a informação de quase todo mundo, quase da mesma forma e quase em tempo real. Mas o mercado de crédito vive de muita assimetria de informação. Muito mercado é baseado no que eu sei e você não sabe”, orientou. Os palestrantes concordam que o sistema financeiro está olhando para dentro e se reinventando.
“As instituições estão pensando em como ganhar mais com a velocidade, de forma muito diferente de simplesmente deixar o dinheiro parado. Já existe comprovação de que a velocidade pode gerar mais receita do que o dinheiro estacionado”, afirmou Borges, da Fireblocks.
Desafios da tecnologia no mundo financeiro
Apesar de grandes investimentos em tecnologia e o pioneirismo dos brasileiros quando se trata de sistemas monetários interconectados, existem fatores paradoxais que podem travar o desenvolvimento. “Acho que há desafios técnicos, regulatórios — o Banco Central tem feito observações importantes — e também desafios de confiança. O cliente quer ter transparência“, diz a diretora da Febraban.
A fala dela é acompanhada por uma comoção dos especialistas, que enxergam o Banco Central e outros órgãos reguladores como impedidores desse avanço frenético da tecnologia. “Ainda existe uma disparidade muito grande entre tecnologia e os mercados, mas há um consenso global de que estamos caminhando nessa direção. E quando falamos do regulador, ele sobe de escada enquanto os bancos sobem de elevador”, pontua Borges.
Ana Paula acrescenta ainda que o País é muito fechado, principalmente quando se trata da cultura do brasileiro em conectar-se com moedas estrangeiras. “Para as gerações anteriores, dinheiro no exterior era sinônimo de coisa errada. Então, é preciso quebrar esse estigma”, disse.
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Henriques, da Fenasbac, defende a velocidade da inovação para que o Brasil continue como referência do desenvolvimento e não fique para trás nessa ‘corrida financeira’. “Existe um projeto no BIS, o banco central dos bancos centrais, para criar um pagamento instantâneo conectado a todos os bancos em escala global. Nunca ficou tão claro que precisamos dessa escala global nas finanças”, explicou.
“A infraestrutura vai continuar existindo, mas ainda temos muito chão pela frente para todos avançarmos”, afirmou a diretora da Febraban.
O futuro do sistema financeiro
Ao final da palestra, Henriques questionou os colegas sobre suas opiniões de qual seria a tecnologia ou o recurso que levaria o sistema financeiro ao futuro. “Finanças embarcadas na IA já são uma realidade. Não estão engatinhando: estão andando. Temos evidências de que isso avança a passos largos. Veremos as finanças integrando valor à experiência do cliente”, afirmou a diretora da Febraban.
Borges, da Fireblocks, concordou e reiterou que “o próximo passo é a integração com blockchain: quais produtos financeiros serão utilizados com essa tecnologia e com essa integração”.