Por muitos anos, os Certificados de Operações Estruturadas (COEs) acumularam perdas relevantes para investidores. Casos mais recentes, como os ligados a Ambipar e Braskem, envolveram relatos de prejuízos superiores a 90%.
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Por muitos anos, os Certificados de Operações Estruturadas (COEs) acumularam perdas relevantes para investidores. Casos mais recentes, como os ligados a Ambipar e Braskem, envolveram relatos de prejuízos superiores a 90%.
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Ainda assim, instituições que distribuem esses produtos costumam relativizar os resultados, argumentando que o problema não está no COE em si, mas na forma como ele é vendido. Um estudo realizado pelos professores Alan de Genaro, da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), e Pedro Saffi, da CUNEF Universidad, em Madri, divulgado com exclusividade ao E-Investidor, indica que essa justificativa não se sustenta integralmente.
Em média, os produtos estruturados apresentam desempenho 0,35 ponto percentual inferior ao CDI, principal referência da renda fixa no País. Ou seja, se você investe em COE, provavelmente perderá para o CDI. A promessa de combinar “o melhor da renda fixa e da variável”, com proteção e potencial de ganho, na maioria das vezes não se concretiza na prática.
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Além disso, produtos mais complexos não significam, necessariamente, retornos maiores. Há COEs ligados apenas ao desempenho de uma ação da Petrobras (PETR3; PETR4), por exemplo, enquanto outros misturam ativos de empresas como Netflix, Alipay e Avon em estruturas muito mais difíceis de entender para o investidor comum. O primeiro caso é, naturalmente, mais simples do que o segundo.
De acordo com Genaro, os COEs mais complexos rendem, em média, cerca de 2,6 pontos percentuais a menos do que os mais simples. Nos produtos de estrutura básica, o desempenho tende a ser parecido entre diferentes perfis de investidores. Já nos mais sofisticados, a diferença aumenta: investidores experientes conseguem retornos até 5 pontos percentuais superiores aos dos menos experientes.
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Quando esses produtos mais complexos chegam a investidores inexperientes, especialmente sem histórico em renda variável, a probabilidade de prejuízo aumenta significativamente. Enquanto investidores experientes obtêm, em média, retorno de 3,08% ao ano acima do CDI, os menos experientes registram rentabilidade 0,29% ao ano abaixo do indicador.
Na prática, isso significa que, em um período em que o CDI acumulou 17%, investidores mais experientes teriam alcançado retorno de cerca de 20%, enquanto os menos experientes ficariam em torno de 16,71%. A “perda”, nesse caso, é relativa: o COE pode até apresentar rendimento positivo, mas inferior ao CDI. Ou seja, teria sido mais vantajoso permanecer em uma aplicação atrelada ao indicador.
“O produto não é ruim para todo mundo. Mas podemos concluir que COEs com estruturas complexas não deveriam ser vendidos a investidores que nunca compraram uma ação na vida”, aponta Genaro.
A pesquisa foi feita a partir de dados reais de operações, obtidos em um acordo de cooperação técnica entre a FGV e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), entre 2016 e 2019. Participaram também da pesquisa José Liberti, da Kellogg School of Management Northwestern University e Jason Sturgess, da Queen Mary University of London.
Segundo os autores, a complexidade pode não ser apenas uma característica técnica, mas também estratégica, usada pelas instituições financeiras para “empurrar” produtos ruins para quem entende menos sobre eles. Produtos mais sofisticados têm estruturas difíceis de entender (barreiras, múltiplos cenários, cestas de ativos), o que dificulta a avaliação de risco. Essa estrutura pode levar o investidor a focar apenas nos cenários positivos, subestimando os riscos, enquanto os emissores conseguem cobrar margens maiores nesses produtos.
Outro resultado obtido pelo estudo é que produtos distribuídos por plataformas independentes (instituição que oferece acesso a diversos produtos financeiros de diferentes emissores, sem estar vinculada a um único banco ou gestora) têm desempenho melhor, possivelmente por um efeito de “curadoria”. Portanto, assessoria de qualidade pode ser decisiva na hora de investir em COEs.
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Genaro aponta que as politicas de classificação de risco dos distribuidores são falhas, pois permitem que um investidor que nunca comprou uma ação comprar um COE complexo, em que o retorno do produto depende de muitas variáveis.
“Só ter a política não é suficiente. O autorregulador e o regulador têm de avaliar se não está havendo falhas no processo de investimento ou indução dos assessores de investimento para o cliente mudar o seu perfil de risco e permitir esses casos.”
Procurada, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) aponta que tem uma agenda de aprimoramento dos COEs em linha com a CV. A agenda inclui caminhos para a evolução do produto, com aprimoramentos na transparência ao investidor pelo estruturador e na distribuição.
“Hoje, as regras de suitability já preveem uma pontuação mínima para a oferta do COE, ou seja, uma classificação de risco indicando se o investimento é adequado ao perfil de cada investidor. O código ainda estabelece que as instituições devem elevar essa pontuação mínima conforme as características de risco, complexidade e outros atributos relevantes do produto, tornando a avaliação de adequação mais restritiva sempre que entenderem necessário”, diz a associação, em nota.
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O levantamento desenvolveu uma métrica inédita baseada na experiência real de mercado, considerando operações prévias com ações, opções e fundos, e não apenas critérios como renda ou idade. Os resultados colocam em xeque um dos pilares da regulação atual, que utiliza exclusivamente renda ou patrimônio para definir quem pode acessar produtos mais sofisticados.
“Não tem nada a ver com ser rico ou pobre. O investidor ser qualificado porque tem R$ 1 milhão para investir não diz nada: se ele nunca aplicou em renda variável, vai perder dinheiro com COEs. Não dá para recomendar para alguém inexperiente algo que depende de várias coisas para dar resultado”, afirma o professor da FGV.
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O principal problema, ressalta Genaro, é a oferta de produtos em desacordo com o nível de experiência do investidor, algo que, segundo ele, é de fácil solução. “Os distribuidores conseguem identificar, dentro de suas plataformas, quais clientes têm mais experiência em investimentos.”
Essa conclusão reforça um debate já em curso no Brasil e no exterior sobre a necessidade de critérios mais qualitativos para proteger o investidor de varejo. Na União Europeia, foram propostas mudanças nas regras em 2023 de forma a olhar para além de renda e educação ao definir o perfil de risco do investidor.
Procurada, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) afirma que o aprimoramento da oferta de COEs a investidores está entre as prioridades de sua agenda regulatória para 2026 e deve ser objeto de audiência pública até o fim do ano. O objetivo é reforçar os parâmetros de transparência, avaliação de adequação e divulgação de riscos, especialmente diante da constatação de que determinadas estruturas de COEs apresentam níveis de complexidade e exposição que exigem requisitos mais robustos de informação e suitability (processo de adequação dos investimentos ao perfil do investidor), a fim de garantir maior compatibilidade com os perfis de risco dos investidores.
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A conclusão de Genaro é clara: para quem não tem conhecimento profundo sobre os COEs, a diversificação por meio de produtos mais simples pode ser uma estratégia mais eficiente.
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