No acumulado do ano até a cotação parcial do pregão da tarde desta quinta-feira (20), Minerva (BEEF3) registrava desvalorização de 30,60%, Marfrig (MRFG3) queda de 28,16%, BRF (BRFS3) perda de 28,02% e JBS (JBSS3) baixa de 22,28%. Na última semana elas lideraram entre as maiores baixas do Ibovespa, impactadas principalmente pela queda do dólar.
Como a principal característica dessas empresas é o grande volume de exportações, a perspectiva de desvalorização do dólar frente ao real compromete seus caixas. Essa questão inclusive pode continuar pesando, já que as estimativas são de que a moeda americana siga em patamares próximos ao atual.
Conjunto de fatores
A avaliação dos analistas, no entanto, é de que outras várias questões têm tido peso tão grande ou mesmo superior na performance das ações no último ano. “Os problemas são tanto relacionados ao micro das empresas quanto a ciclos do setor em si”, afirma a sócia e responsável pela mesa de renda variável da Legend Investimentos, Ana Luiza Gnattali.
Para Gnattali, os frigoríficos estão muito alavancados, com dívidas de curto prazo, o que preocupa o mercado. Segundo ela, parte desse problema está na queda do volume e nas margens. Isso foi impulsionado no final do ano passado pelo chamado ciclo negativo do gado, sazonalidade que causa uma queda de preços generalizada no setor.
O sócio e analista de ações da Nord Research, Fabiano Vaz, concorda: “O dólar é relevante e pode continuar pressionando, mas temos outras questões”. Ele diz que o atual ciclo também tem sido influenciado pela perspectiva de desaceleração da economia dos Estados Unidos e por uma retomada mais lenta da economia chinesa. JBS, BRF e Marfrig exportam principalmente para os EUA, enquanto Minerva tem maior exposição à China.
O fundador da Gava Investimentos, Ricardo Brasil, destaca um outro fator: a queda da demanda interna. “É um problema também inflacionário. As pessoas passaram a consumir menos não só aqui como no mundo. Enquanto isso, apesar da queda do consumo, o preço da ração aumentou, reduzindo as margens”, avalia.
O que esperar do futuro?
Com os balanços do último trimestre de 2022 vindo abaixo das expectativas, com redução de volume de vendas, rentabilidade e margens, as perspectivas não são diferentes para os resultados do primeiro trimestre deste ano, podendo inclusive ser piores, conforme afirma Gnattali.
Ainda assim, o analista Fabiano Vaz da Nord, acredita ser possível a recuperação parcial dos papéis nos próximos meses. “Qualquer sinalização de uma China acelerando a economia ou mesmo uma melhora nos EUA. Tudo isso pode mudar de um dia para o outro”, pontua.
Segundo Vaz, a possibilidade de recuperação é amparada no fato de os papéis já acumularem desvalorização. “Mesmo com resultados mais pressionados, o mercado pode perceber que pegou pesado e puxar de volta. É difícil ter a noção exata do que vai acontecer. Os próximos resultados darão um norte”, diz.
Para Ricardo Brasil, da Gava, a recuperação das ações também dependerá da demanda interna. “Quem sabe com a queda da inflação, daqui a cinco ou seis meses, o consumo se recupere? Uma queda no preço da ração também pode ajudar na recuperação”, destaca.
Acordos com a China mudam cenário?
Na última semana, o governo federal assinou acordos com a China que incluem benefícios para exportadoras, o que em teoria deve incluir os frigoríficos. Na prática, porém, ainda não há clareza sobre quando as iniciativas como a melhora de infraestrutura para exportação será iniciada.
“A notícia dos acordos com a China é boa, fez algum preço quando saiu, mas, isoladamente, não vemos isso como um gatilho que faça essas ações se recuperarem muito mais”, afirma Gnattali. Ela destaca que o balde de água fria foi jogado quando os investidores entenderam que os acordos não aumentam o volume comprado pela China de forma imediata.
O analista da Nord define os acordos como incipientes. “São acordos que ainda serão estudados, não há nenhuma data. Então é difícil estimar qualquer coisa. Pelas perspectivas, não será algo que vai mudar o mercado de forma relevante”, diz.