O conflito no Oriente Médio colocou o capital global em compasso de espera. O Ibovespa, que flertava com 192 mil pontos, caiu para 181 mil.
Mas a maior reação foi no petróleo. O barril Brent chegou a quase US$ 100 nesta segunda-feira (9), o maior valor desde 2022, quando eclodiu a guerra entre Rússia e Ucrânia. A escalada na cotação do petróleo ocorre após cortes de produção por grandes países do Golfo e a paralisação quase total do tráfego comercial no Estreito de Ormuz, rota marítima estratégica por onde passa cerca de um quinto da produção mundial da commodity.
Não fosse a sinalização dos ministros de Finanças do G7 quanto à liberação de reservas para controlar a alta do preços, a cotação poderia ter fechado a sessão em valorizações muito maiores. Mais cedo, no pico do movimento, registrado mais cedo, o petróleo do tipo Brent para maio chegou a saltar 26,56%, para US$ 117,62 o barril, enquanto o WTI para abril disparou 30,13%, a US$ 118,76. Esses foram os maiores ganhos diários já registrados para os contratos futuros da commodity.
Alta da inflação?
O petróleo é um dos grandes vetores de inflação ou desinflação global. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o conflito entre dois grandes produtores da commodity fez o preço disparar. Logo após a eclosão da guerra no Leste Europeu, em fevereiro daquele ano, o Brent deu um salto de quase 20%.
Como a Petrobras (PETR4) seguia a política de paridade internacional (PPI), política posteriormente alterada pelo Governo Lula, a estatal repassou a valorização do petróleo e do dólar para os combustíveis nas refinarias. A gasolina e o diesel no Brasil subiram, um peso importante para a alta a inflação brasileira naquele ano.
A gasolina é o time de maior peso individual na composição do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Cada 1% de alta no preço nas bombas de combustíveis costuma elevar em 0,5 ponto percentual, destaca a equipe macroeconômica do Inter.
Mas há uma diferença importante: desde a extinção do PPI, em 2023, a Petrobras não tem mais a obrigação de repassar as oscilações do petróleo imediatamente. “Nesse momento, a Petrobras tem uma margem para absorver esse choque, pelo menos incialmente, uma vez que o preço de distribuição tem ficado acima do preço importado ao longo desse início de 2026, diferentemente do que vimos em 2022, quando o conflito na Ucrânia iniciou em um momento em que os preços domésticos já estavam defasados em cerca de 10% frente ao internacional”, dizem André Valério e Gustavo Menezes.
O entendimento dos especialistas é que, embora o aumento do petróleo traga riscos inflacionários via combustíveis, a Petrobras tem margem para absorver o choque no curto prazo e a apreciação do real e a menor sensibilidade recente do IPCA ao repasse cambial indicam que a economia brasileira deve atravessar o episódio atual com impactos inflacionários limitados e temporários.
O real também tem papel importante nessa história. Desde que a guerra no Oriente Médio começou, o dólar teve dias de forte alta contra a grande maioria das moedas globais. Mas o movimento tem sido menos dramático contra a moeda brasileira. Como o País é um exportador da commodity, a divisa nacional acaba exposta às oscilações de preço: quando o preço do petróleo sobe 1% na semana, o real tende a se apreciar 0,1% frente ao dólar, calcula o Inter.
Nesta segunda-feira, por exemplo, o dólar à vista teve queda de 1,52% contra o real, a R$ 5,165, ainda que estivesse em alta no exterior.
Para Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da Stonex, a distância do País também ajuda. “Observamos que outros grandes exportadores de petróleo, principalmente no Oriente Médio, mas também os Estados Unidos e outros produtores relevantes, têm algum tipo de relação direta ou indireta com o conflito. O Brasil, por sua vez, é um dos poucos exportadores relevantes que, ao que tudo indica, não tem envolvimento com a situação. Isso pode estar favorecendo algum fluxo de capital para o país, considerando que não há expectativa de uma disrupção relevante nas exportações brasileiras de petróleo”, diz.
Essa reação mais contida no câmbio também pode ajudar a amenizar os efeitos do conflito no Brasil.
Impacto na Selic?
Se o conflito perdurar, a pressão inflacionária gerada pela alta do petróleo e do dólar pode fazer o Comitê de Política Monetária (Copom) alterar a trajetória de juros no Brasil. O grupo se reúne na próxima semana, entre os dias 17 e 18, e deve iniciar o ciclo de cortes na Selic; a primeira redução em quase dois anos.
Antes dos EUA atacarem o Irã, o mercado esperava que a reunião de março traria um corte de 0,5 ponto percentual. Agora, no entanto, já não há tanto consenso. Como mostramos aqui, aumentaram as chances de um ajuste de 0,25 p.p.
A economista-chefe da Mirae Asset Brasil, Marianna Costa, concorda que o acirramento das tensões tende a elevar a cautela da autoridade monetária, mas, por ora, não altera o cenário-base. “A curva de juros precifica que o ciclo terá início com um corte de 50 pontos base (pb)”, diz. Para ela, o aumento das tensões pode reduzir as chances de uma aceleração no ritmo de cortes ao longo do ano, tornando o ciclo de afrouxamento um pouco mais lento. “Do ponto de vista do Copom, o que realmente preocupa não é o choque pontual, mas sua persistência e capacidade de contaminar expectativas”, complementa Costa.
Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, afirma que a chance de um corte de 25 pb aumentou, mas ele trabalha com a uma probabilidade de 30% de isso acontecer, contra 70% do corte de 50 bp. Para o executivo, a Selic terminal, ao final de 2026, pode subir marginalmente, algo como 25 pb, “muito mais por prêmio de risco do que por mudança estrutural”.
Aos poucos, essa incerteza começa a aparecer até no Boletim Focus. Na edição desta segunda-feira (9), a primeira após a piora no cenário internacional, a mediana das projeções para a Selic ao final de 2026 subiu de 12,00% para 12,13%. As projeções para 2027, 2028 e 2029 não se alteraram.
A curva de juros também sofre
A incerteza em relação ao futuro da inflação e da Selic nesse novo contexto global tem feito peso na curva de juros brasileira. Há uma semana, a taxa de depósito interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 era de 13,296%. Na tarde desta segunda-feira, operava em 13,505%.
A pressão foi maior no curva longa. O DI para 2029 foi de 12,728% na última segunda-feira (2) para os atuais 13,315%, enquanto o vencimento de janeiro de 2031 avançou de 13,117% para 13,600%.
Isso se refletiu na precificação dos títulos do Tesouro Direto. O Tesouro IPCA+ 2032 está sendo oferecido com o maior retorno da série histórica do ativo, iniciada este ano, de 7,80% de juro real por ano. Antes da guerra começar, no fechamento de fevereiro, a taxa era de 7,39% ao ano. O retorno do IPCA+ com vencimento em 2040 foi de 6,96% para 7,29% no mesmo período.